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A andróide protagonista Isla é bem mais quebrada do que parece. E não quero dizer quebrada no sentido físico, nesse episódio ela tropeçou e deu erros como em qualquer outro episódio, nem mais nem menos. Bom, na verdade foi até menos, mas como ela ficou parada a maior parte do tempo acho que é relativamente igual. Ela é quebrada psicologicamente. E isso é esperado e compreensível para uma pessoa nas circunstâncias dela, só que ela não é uma pessoa. Quero dizer, eu sei que ela tem memórias e sentimentos e personalidade, e que sua inteligência e comportamento são suficientemente similares aos humanos para que ela passe por humana para uma pessoa desavisada, mas permanece o fato de que ela não é, de verdade, humana. Não nego a humanidade “espiritual” dela, coloquemos nesses termos, mas ela não fica gripada por exemplo. Por quê? Porque não é humana. Não tem um corpo humano sujeito à patologias humanas. E depressão, o problema psicológico do qual ela sofre, é uma patologia. Tem sim aspectos mentais, comportamentais, coisas que ela poderia emular, mas é físico também. É literalmente um desequilíbrio químico no cérebro – e ela não tem um cérebro humano para que ele possa sofrer semelhante desequilíbrio. Então, o que ela está sentindo?


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Será que Isla está apenas muito, muito triste? Acontece que uma pessoa apenas triste, por mais profunda que seja sua tristeza, irá rir, se divertir e se animar se as condições permitirem. O que distingue mesmo a mais profunda tristeza da depressão, uma doença, é justamente a incapacidade do doente depressivo sair de seu estado. Ou mais precisamente, mesmo que ele aparente sair, mesmo que ele acredite ter saído, no fundo continua deprimido. E esse não é justamente o caso de Isla? Eu sei que o conhecimento comum costuma acreditar que é possível sair da depressão com força de vontade, com risos, diversão e calor humano, mas isso não é verdade. Será que Plastic Memories está se guiando pelo conhecimento comum e errado nesse aspecto? Ela está deprimida apenas porque está muito triste? Ou será que seus circuitos robóticos permitem uma falha que causa defeito semelhante à depressão humana? Eu acho que não se darão ao trabalho de explicar, e nesse caso a resposta mais simples deve ser a verdadeira: estão tratando depressão como estado de humor. A história é deles e pode até funcionar assim, mas como a tendência em uma série humana e que tenta ser verossímil como Plastic Memories é que acreditemos em seus postulados, acho que preciso dizer isso aqui: pode funcionar no anime, pode ficar até bom, mas não trate depressões no mundo real como Plastic Memories.

Enfim, depois dessa longa digressão, o cerne desse artigo: por conta de seu estado depressivo, Isla desenvolveu um estado psicológico chamado Dilema do Ouriço, descrito por esse nome pela primeira vez pelo filósofo Schopenhauer. Na verdade o que ele descreveu não foi um problema psicológico, mas uma metáfora para a intimidade entre indivíduos, que por um lado traz benefícios mas por outro os expõe ao risco de sofrer. Schopenhauer dizia para que imaginássemos um grupo de ouriços (porcos-espinho) passando frio no inverno e por isso sentindo a necessidade de se aproximar uns dos outros para se aquecer. Mas quanto mais se aproximam, mais os espinhos do outro os machucam, e por isso eles evitam se aproximar. No fim das contas acabam se decidindo por uma distância que seja o melhor compromisso entre o frio e a dor. Esse equilíbrio é o modo normal do ser humano lidar com outros seres humanos e decidir o nível exato de intimidade que se deve permitir que outros tenham com ele. Em quadros de depressão clínica, isso pode significar intimidade nenhuma, a reclusão e o total afastamento de uma ou de todas as pessoas – e esse é o caso de Isla. Como ela disse, com outras palavras, à frente da roda-gigante, ela não quer criar boas memórias com ninguém, não quer criar intimidade. Tsukasa continua completamente perdido sobre como lidar com sua parceira andróide.

O lado realmente negativo do episódio foi seu começo, contudo. Foi irritante a repetição infindável de tentativas patéticas e fracassadas do Tsukasa tirar a Isla de sua posição fetal e arrancar alguma reação dela após dicas furadas de seus colegas de trabalho, cada uma seguida inevitavelmente por uma Michiru intrometida invadindo o quarto dos dois e se irritando com ele. Eu sei que foi a tentativa de alívio cômico desse episódio, mas pecou pelo excesso. Não que tenha tido muita graça da primeira vez, mas não teria feito mal parar por ali. O tempo tomado por todas as tentativas pareceu perdido para sempre, desperdiçado, quando as questões psicológicas da Isla poderiam ter sido melhor desenvolvidas. Mesmo que o episódio terminasse inconcluso, como foi o caso. Ou poderiam ter adiantado outros elementos do enredo para os quais poderá faltar tempo mais adiante.

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