Existem poucas expressões capazes de abalar mais profundamente um ser humano do que a famosa “E se”, aplicada ao passado. Especialmente quando a pessoa em questão está se consumindo em culpa. “E se eu tivesse pego aquele ônibus mais cedo?”. “E se eu tivesse feito aquela prova?”. “E se eu tivesse dito que o (a) amava?”. “E se eu não tivesse sido tão egoísta naquele dia?”. “E se eu tivesse ouvido os alertas que me deram?”. No caso do Suna, especificamente, a culpabilidade é resumida na frase “E se eu não tivesse desviado do caminho de casa no dia em que meu pai desmaiou?”. A grande armadilha desta conjunção adversativa é que ela é capaz de atribuir a responsabilidade sobre um evento inesperado ao interlocutor, como se uma decisão aparentemente trivial pudesse tê-lo feito evitar o futuro ruim que o esperava. Bom, poderia. Mas ao menos que você seja um orientado do professor Xavier, se afogar em um oceano de solidão e culpa não vai mudar o que passou, garoto. Você não tinha como saber.

Takeo está tentando seguir as ordens de seu amigo e se divertir com a namorada no aniversário dela, mas ele simplesmente não consegue esquecer de Suna. Nem poderia, já que a programação do dia inteiro foi montada pelos dois, então a cada lugar que eles visitam, a imagem do loiro passa por sua mente. Além disso, os dois se trombaram na saída do prédio, o que não ajudou em nada. Mas beleza, o grandão está tentando se divertir, e Yamato está realmente contente. O dia está lindo e ensolarado, o boliche é divertido (e é claro que ele chama a atenção de uma multidão), a garota adora a confeitaria para a qual é levada e o bolo que ganha de presente… Mas o Takeo, inconscientemente, fala no Suna o tempo todo. Em certo momento, passeando pelo parque, ele percebe que a cirurgia acabara de começar e sucumbe como eu esperava que ele faria. Takeo jamais conseguiria se divertir sabendo que alguém que ele ama está segurando uma barra tão pesada, e completamente sozinho. Ele conta a situação à namorada, pede desculpas e deixa a programação com ela, para que ela siga com alguma amiga. Yamato também age de forma previsível, mas agradável, se chateando por ter sido omitida de um fato tão importante e suportando a escolha dele. Ela quer que ele vá, que esteja lá ao lado do amigo que precisa dele mais do que nunca (mesmo que nã admita isso), e o fato de Takeo ficar tão surpreso com a reação dela me deixou um pouco brava com ele, na verdade. Até parece que não conhece a garota gentil que tem ao seu lado, hmpf!

 

Parabéns, Yamato-chan!

Parabéns, Yamato-chan!

 

Ao chegar ao hospital, se depara com Suna parado de frente à sala de cirurgia, o olhar morto e nem um pouco surpreso ao vê-lo ali. Sozinho. Culpado. Ansioso. Com medo. Miserável. Tão abalado que abre seu coração pela primeira vez, mesmo para o cara que o conhece há mais de dez anos. Ele sabe que o pai tem problemas cardíacos desde sempre, e se sente responsável por ter demorado a chegar em casa no dia em que ele desmaiou. Não sabe quanto tempo o pai ficou inconsciente, e acha, como qualquer ser humano de caráter também acharia, que se tivesse vindo pra casa no horário as coisas teriam sido diferentes. Claro que ninguém o culpa, nem a mãe, nem o pai, nem a irmã e muito menos o Takeo. Mas uma culpa tão imensa não se dissolve com simples palavras, e eu temo que o garoto fique mais fragilizado do que já é depois desse acontecimento, por mais que o pai saia dessa e fique bem. O pior de tudo é que a natureza dele, gentil mas taciturno e nem um pouco autocentrado, é uma combinação catastrófica que o levaria com facilidade a uma vida de solidão e isolamento, se não fosse um garoto descarado e sem um mínimo de noção do que é ou não apropriado fazendo parte de sua vida. Até esse episódio em particular creio que muitas pessoas pensariam que Suna é importante para Takeo, mas nota-se que na verdade Takeo é que se tornou um salva-vidas par o loiro, e ele sabe disso. Talvez por isso Suna se esforce tanto para querer vê-lo feliz, nem que isso custe sua própria felicidade.

 

I'll be there for you, cause you're there for me too...

I’ll be there for you, cause you’re there for me too…

 

Enfim, o pai dele fica bem, e a mãe e a irmã surgem desesperadas para saber como o pai/marido está (pena do pobre cirurgião), deixando que os dois adolescentes possam ir para casa tranquilamente. A cena em que Suna recebe a notícia é particularmente a minha favorita em todo o episódio, a mudança gradativa na expressão dele dispensa explicações, é como se tirassem o mundo de suas costas, e acho que seu riso foi o mais sincero em muitos dias. A causa de tal sorriso? Takeo, claro. Pra fechar com chave de ouro, Yamato também não conseguiu se divertir e esperava por eles na recepção do hospital, dobrando grous. Pra quem não sabe, há uma superstição de que se você dobrar mil grous, um grande desejo se realiza, e quase sempre ele está relacionado à cura de alguém doente. Claro que ela não chegou aos mil, mas o gesto emocionou o garoto. Eu já disse que esses três funcionam muito bem juntos? A conversa fluía bem, mas Suna cometeu um erro mortal: expressar sua admiração pelo casal junto. Epa!

O loiro não quer uma namorada, e já expressou isso em alto e bom som. Mas quem consegue dissuadir a dupla Takeo/Yamato quando ela está decidida? Os dois estão firmes na resolução de encontrar uma garota para Suna, o que deveria ser fácil se ele não fosse tão hostil em conhecer novas pessoas. O anime foi do drama à comédia em poucos segundos, mas quando a garota falou em conseguir alguém parecida com o Takeo, primeiramente eu concordei mas depois ri tanto que acho que acordei a casa inteira. É, você já foi beijado por ele uma vez, então já sabe o que te espera no futuro, garanhão! Boa sorte sendo amigo desses dois, porque olha, você não escapa dessa tão fácil assim.

 

Epa, corre Suna!

Epa, corre Suna!

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