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Se você ainda não estava assustado com a Anna porque “nossa mas é super legal ser violentamente atacado por uma garota bonita”, me diga se mantém sua opinião sobre ela nesse episódio! Foi um episódio importante para a Fuwa, a Saotome, a SOX e o enredo de forma geral, provavelmente um divisor de águas para o anime, então vou falar sobre tudo isso também. Mas principalmente sobre a Anna.

A Saotome se filiou definitivamente ao SOX e sua colaboração tem sido importante. A SOX por sua vez sempre foi uma “organização terrorista” (composta apenas por uma garota e apoiada pelo silêncio cúmplice de um velho dono de restaurante) cujo foco estava em enfrentar as leis do país, não só em causar comoção e constrangimento em um colégio, mas esse foi o primeiro episódio onde isso realmente aconteceu (além do episódio um onde foi usado como forma de apresentar os protagonistas). O colégio é apenas instrumental, e ironicamente é o excesso de pudor (na falta de termo melhor) com que seus alunos são educados que os tornam instrumentos tão úteis. Quero dizer, alguém como o Tanukichi, que sabe de tudo, hesita em enfrentar o governo, enquanto os alunos (todos os alunos), em vista da expectativa de conhecerem algo novo e excitante, correm em direção ao perigo com o abandono e a imprudência esperados de adolescentes normais e saudáveis. E nesse levante a Fuwa assume o comando e a liderança – mas é curioso que em toda a sua inocência ela tenha no fim das contas feito tudo isso apenas para capturar moscas novas. A SOX consegue recuperar o material pornográfico escondido e no final sabota as assinaturas em favor da nova lei, efetivamente atrasando os planos da Sophia, mãe da Anna.

A adversária do episódio foi a Anna. Aquela Anna que no episódio anterior tentou estuprar o Tanukichi com razoável dose de violência. Você ainda acha que aquilo é bacana? Ficaria feliz no lugar do protagonista? Então você deve achar que toda mulher ficaria feliz em ser violentada por um homem especialmente bonito por quem ela tivesse alguma simpatia. Na verdade você não acha isso, não é? Percebe como bastou trocar os personagens para a situação toda deixar de ser um fetiche para se tornar um crime hediondo? Sim, existe fetiche de estupro. Mas ele, como qualquer fetiche, é praticado de forma consensual (ou então é mesmo apenas um crime). Em que momento o Tanukichi consentiu com a violência que ele sofreu no episódio anterior? Se você respondeu “em momento nenhum” você acertou. Mas me perdoe pela digressão. A Anna.

É possível argumentar que a Anna sempre foi perigosa, não apenas em assuntos que envolvam seus desejos carnais. Quem é capaz de fazer o que ela faz para aliviar sua luxúria tem qualquer motivo para ser menos agressiva em relação a qualquer outra pulsão natural? A diferença entre ela e um valentão que rouba o lanche dos outros não é muito grande, afinal, ambos querem forçar algo aos demais: ela está forçando seu desejo sexual, e o valentão força seu poder. Ou talvez os dois estejam forçando seu poder, mas de formas diferentes? Se considerar que a Anna encontra uma justificativa moral para o que ela faz (“tudo que é em nome do amor é certo”), ela não é muito diferente de qualquer fortão que acha que o que importa é “a lei do mais forte”. O caráter sexual da violência praticada pela Anna é apenas a forma que a própria violência adotou no mundo do anime.

Sendo justo com a Anna, qualquer pessoa (nós mesmos) deixada à deriva em seu mar de desejos iria acabar forçando-o sobre os outros, e isso meio que acontece aqui e ali em outros momentos, como os stalkers da Anna, a falta de consideração da Saotome depois do Tanukichi ser atacado (ei, ela não sabe o que é sexo, mas com certeza sabe o que é violência!), as constantes intromissões constrangedoras da Fuwa, entre outros. E sim, a Kajou é quem mais está forçando o Tanukichi desde o primeiro episódio, mas ela sabe o que está fazendo e não é como se não se sentisse culpada, tanto que nesse episódio ela finalmente o “libertou” – e ele, então, escolheu ficar ao lado dela por sua própria vontade.

O ser humano é um animal, por isso se comporta dessa forma. Mas em um passado ancestral hipotético haviam apenas duas tribos humanas: uma em que os jovens ao atingirem um certo nível de maturidade eram condicionados pelos mais velhos a restringirem-se de forçar todos os seus desejos o tempo todo sobre os demais membros da comunidade, e outra em que todo mundo fazia o que queria, quando queria, e que se dane. A segunda tribo desapareceu (provavelmente porque se mataram tentando decidir quem era o mais forte), e todos os seres humanos de hoje somos descendentes da primeira, com uma capacidade social mais elevada que inclui essa auto-restrição socialmente adquirida que, na psicanálise, é chamada de superego. Como ela é adquirida, supõe-se que o sujeito aprenda ela. Em Shimoneta, como venho dizendo desde sempre, os jovens não aprendem nada sobre comportamento sexual (sequer sabem que sexo existe para começo de conversa), e obviamente também não aprendem o que é e o que não é adequado em relação a sexo.

O resultado é o que vemos. O resultado hiperbólico é a Anna, uma yandere perfeita construída organicamente a partir da própria premissa básica da história, e lentamente moldada pelo enredo (talvez não tão lentamente, mas considere que a série terá apenas 12 episódios então o ponto de transformação definitivo dela ocorreu apenas depois de um terço inteiro da série). Há outras considerações relevantes sobre a temática e o significado geral de Shimoneta, mas quero assistir pelo menos mais um episódio antes de tocar nesses assuntos. Até semana que vem!

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