Eu não gosto de dar spoilers logo nesses parágrafos introdutórios, mas por mais spoiler que seja era algo que todo mundo já sabia que aconteceria cedo ou tarde, sendo as circunstâncias muito mais importantes do que o fato em si. Então, lá vai: o mestre Yakumo morreu. O Novo Yakumo ainda não quer aceitar o título de Yakumo, porém, e agora está finalmente sozinho.

Sem seu mestre, sem o Sukeroku que ele já havia expulsado de casa e fugiu para o interior com Miyokichi, sua ex-namorada que ele abandonou, e até mesmo sem o secretário de sempre de seu mestre que está longe porque está acompanhando sua esposa conforme ela tem seus últimos suspiros de vida em seu leito de morte. Yakumo (que ainda não é Yakumo) está completamente sozinho. Mas além do próprio Yakumo proferir isso mentalmente o tema não chega a ser desenvolvido, ficando aberto à interpretação.

Sua apresentação nesse episódio foi a melhor que eu já assisti, e não foi nem comédia nem erótica: foi horror. Não foi aquele meio-horror meio-comédia da peça que empresta seu título ao anime (a Rakugo Shinjuu pode ser descrita assim, Chell? acho que depende bastante do enfoque que o contador de histórias quiser dar…), é totalmente horror mesmo, e dá para ver isso no rosto do público. Um trecho da peça já havia aparecido em outro episódio mas tinha parecido comédia. Que diferença. As coisas começaram a mudar rápido nesse anime!

O mestre morreu. Eu sei que eu já disse, mas também disse que o importante eram as circunstâncias, não é? O mestre morreu e ele sabia que estava perto da morte, ele sabia que aquela seria sua última apresentação, por isso escolheu a peça que melhor dominou em toda sua vida e deu tudo de si. O público conseguiu sentir aquela peça, houve até quem estivesse chorando. É uma peça sobre um casal separado que torna a viver junto graças ao filho. O tom é de comédia, mas o tema pode ser bastante sensível para algumas pessoas. Tenho certeza que era bastante sensível para o próprio mestre.

Sempre soube de tudo, sempre se arrependeu de tudo

Sempre soube de tudo, sempre se arrependeu de tudo

Ele e sua esposa nunca tiveram filhos biológicos. Aposto que tentaram tanto quanto puderam, e mesmo daí continuaram tentando um pouco mais. Não obstante, ele era lascivo, como o Sukeroku disse no episódio anterior que todo contador de histórias é. Não acredito que todos sejam, mas sem dúvida que, por causa do ambiente, dependendo das referências que a pessoa tem enquanto cresce essa é uma possibilidade bem real – principalmente em uma sociedade fortemente machista. Pelo flashback do mestre, desde adolescente ele nunca foi alguém muito responsável. Só aconteceu de herdar o título porque foi desafiado pelo primeiro Sukeroku – e mesmo assim precisou jogar sujo para vencer.

Apesar de ser o lascivo irresponsável que era, mesmo assim ele pareceu ter, não sei se essa é a melhor escolha de palavras, mas ele parecia ter o instinto ou o desejo de ser pai. Ou talvez fosse inicialmente apenas uma tentativa desesperada de, como na peça que dominou, usar um filho para consertar um relacionamento partido? O dele deve ter tido momentos tensos. Sem conseguir ter filhos biológicos, ele teve a oportunidade de criar dois filhos adotivos. O problema é que em um deles ele identificou imediatamente a figura de Sukeroku e não conseguiu evitar menosprezá-lo e deixá-lo em segundo plano por toda a sua vida – mesmo reconhecendo desde cedo que ele era bom, era o melhor, que ele deveria herdar seu título de Yakumo. Quanto mais ele via em Sukeroku o herdeiro de Yakumo, menos ele queria dar esse título para ele e mais o tratava feito “o segundo”, “o outro”, “o indesejado”. Ele foi sutil, era quase uma reação inconsciente, Yakumo nunca percebeu, mas Sukeroku acumulou mágoa durante toda sua vida.

Adeus, Mestre

Adeus, Mestre

E o mestre sabia disso e levou mais esse arrependimento consigo para o túmulo, não sem antes pelo menos desabafar com Yakumo no leito de morte. Por causa do primeiro Sukeroku ele foi traiçoeiro para obter para si o título de mestre Yakumo, e por causa do segundo Sukeroku lembrar-lhe o primeiro ele magoou seu filho amado. Apenas para enterrar o mestre, ofereço essa minha conclusão: como o mestre Yakumo sabia de pelo menos parte de seus defeitos, tenho certeza que pelo menos parte da razão pela conduta excessivamente reta de Yakumo é responsabilidade dele, da criação que ele deu. Da mesma forma, parte da razão pela conduta excessivamente rebelde de Sukeroku também foi responsabilidade dele.

Algumas vidas acabam e outras começam. Bem-vinda, pequena Konatsu!

Algumas vidas acabam e outras começam. Bem-vinda, pequena Konatsu!

A morte do mestre faz Yakumo finalmente decidir procurar Sukeroku quando encontra tempo para tanto. Provavelmente quer contar a triste notícia e tentar uma última vez convencer o irmão a assumir o título de Yakumo, que ele ainda não assumiu. Ele chega em um vilarejo e, em um restaurante, encontra uma criança executando uma peça de rakugo. Ela tem apenas entre 5 e 6 anos, mas o estilo já é inconfundível para Yakumo: é Konatsu, filha de Sukeroku. O próximo episódio vai ser uma reunião incrível e imprevisível. Será que Miyokichi ainda guarda rancor de Yakumo? No mínimo aposto que ela será totalmente contra a volta para Tóquio, mesmo se o Sukeroku esboçar vontade de voltar.

A cara de espanto de Sukeroku ao ver Yakumo

A cara de espanto de Sukeroku ao ver Yakumo

  1. Oi, Fábio! ^^
    Primeiramente, mil desculpas pela demora para comentar, não teve nenhum motivo em particular, além de que eu tenho finalmente tentado dar um tempo pra mim mesma e procurar um emprego… orz
    Dito isso, o episódio 10 foi realmente muito… interessante, eu diria (porque né, não diria “legal” @[email protected];;) e seu post foi sensacional, como sempre! ♡ E quanto ao rakugo Shirakawa Shinjuu, o rakugo do título, concordo que ele é um pouco comédia, e um outro pouco fúnebre.
    Falando da sua analise do mestre (e do papel de pai dele), tambem achei otima e acho que fez muito sentido, lendo assim. Sim, se ele sempre soube de tudo, provavelmente sempre soube o quao tendencioso era com os dois. So nao sei se concordo sobre querer filhos biologicos – apesar de ser o esperado dele, talvez… duvido muito que ele ia querer colocar um filho na posicao em que ele esteve. ^_^ Mas esse é meu chute, minha interpretação da personalidade dele.
    No mais, comento lá no NL. Ah, já vi o 11 também, e estou ansiosissima para escrever sobre. Até lá! . ♡

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Talvez ele pessoalmente nunca tenha pensado em ter filhos biológicos, mas sua esposa quisesse? Para a época que estamos falando isso era quase uma “obrigação social”, acredito que mesmo no meio em que ele vivia se a mulher “não fizesse sequer isso” devia se considerar “inútil”. Não sei, pensei neles querendo filhos, como um casal, quando vi a senhora idosa chorando na plateia. Uma total anônima, irrelevante para o anime, para a história, me fez pensar sobre porque ela estava chorando, pelo que ela devia ter passado na vida, se teve ou não teve filhos e o que isso a fazia pensar e sentir. No limite do socialmente permitido ela estava praticamente aos prantos ali. E aí pensei logicamente no mestre, e depois a confissão dele teve a ver com isso também.

      Eu também preciso de um emprego, nem me fale, hahaha, mas no meu caso esse blog e tudo o que ele me traz é exatamente o tempo para mim que tenho, então estou é sentindo falta de mais tempo pra fazer mais coisas que eu quero aqui, entre artigos e melhorias, hehe

      Obrigado pela visita e pelo comentário, isso sempre deixa esse blogueiro desempregado um pouco mais feliz =) Até!

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