Mais uma personagem e mais um gênero de mangá são apresentados. Suzu Fuura, autora de mangás de terror. A sua personalidade e problemas que enfrenta têm relação com o gênero de mangá que desenha/escreve. Algo que a série vem explorando com consistência, e que movimenta tanto a comicidade do anime quanto seus aspectos mais sérios como as expectativas em relação ao futuro e o trabalho criativo das mangakás.

O episódio 6 (meia-jornada completa) é dividido em duas partes. Na primeira, assim que surge na casa, Suzu, com seu jeito assustador – cabelos cobrindo os olhos, palidez, traços de demência, rapidez nos movimentos –, abala a frágil Kaos, que tem medo de fantasmas. Humor e melancolia em doses exatas. Já a segunda metade coloca em evidência o temor de Nijino-sensei a respeito do evento cosplay ocorrido no episódio 5. Com medo de que sua faceta otaku seja descoberta, a professora Miharu almeja saber se foi reconhecida por Tsubasa, Koyume, Kaos e Ruki no parque de diversões. Além disso, temos Tsubasa/ Tsu-chan lidando com o sono durante a aula (como já aconteceu anteriormente com Ruki) e o desejo de ouvir a opinião dos fãs sobre sua obra. Um problema, já que não pode se revelar, pois é um autora shounen que usa um pseudônimo masculino, Wing V. E para complicar ainda mais a situação, é uma estudante do ensino médio.

Suzu transforma Kaos em uma scream queen.

A primeira metade com Fuura-senpai traz elementos do terror sobrenatural e psicológico embalado com fofura. Suzu é uma garota fantasmagórica que se empolga com os indícios de que está provocando pavor. Ver o pânico e o temor alheios é inspirador para ela. Essa sua peculiaridade assusta em demasia Kaos. Os gritos da autora moe inspiram Fuura-senpai, a especialista em terror, a desenhar (aparentemente voltar a desenhar). Os clichês do gênero fazem parte da vida da garota, no seu trato social com as pessoas. Ela é aquela figura que aparece no canto do espelho, anda com esqueletos como se fossem bonecos e encurrala garotas em cômodo, atemorizando-as como uma maníaca do subgênero teen. No entanto, a sua estranheza a afasta das pessoas. A jovem está encantada por Kaos e nem percebe que seu intento de aproximação e demonstrações de afeição estão deixando a menina à beira de um colapso. Quanto mais tenta agradar, mais Suzu assusta a menina Kaoruko.

Numa noite chuvosa, Ruki, Tsubasa e Koyume se trancam no quarto com Kaos e bloqueiam a entrada. Um gesto extremo baseado na pouca resistência de Kaos a excentricidade de Suzu. Mas a mangaká de terror tem medo de trovão e diante da recusa das companheiras de dormitório em recebê-la, a jovem expõe  sua solidão e a sua tristeza por sentir que seu visual e personalidade causam desconforto as pessoas, que a evitam, considerando-na esquisita. Kaos é profundamente tocada pelas palavras de Suzu, e se identifica com o sentimento de rejeição que ela sente. O poder da empatia se manifesta. A ansiedade social de Kaos a faz se manter longe das pessoas e torna o movimento contrário uma realidade dolorosa: a dor da exclusão. Kaos aceita Suzu, mas ainda tem medo, e esse temor só é dissipado quando a sua libido é despertada e ela percebe as proporções do corpo de Suzu e a sua beleza. Na verdade, Fuura-senpai é elegante e um tanto tímida, apesar de invasiva e obcecada. Kaos gosta de garotas bonitas e tem desejos incomuns, como o que volta a revelar mais tarde: a de levar um sermão de uma professora bonita.

Pela força da empatia e da libido, a beleza de Suzu Fuura é revelada.

A receptividade e compreensão que recebeu de suas companheiras, Kaos estende a Suzu. Integrar e interagir são valores presentes e pujantes no dormitório. A garota aos poucos vai rompendo suas inibições. É um sinal de seu amadurecimento, da conquista de seu espaço. E exercendo seu altruísmo, ela se fortalece. Porém, distante do calor das mangakás, Kaos ainda se mostre instável nas relações pessoais.

Como curiosidade, Ruki era a “vítima” de Fuura. Apesar de seu assombro, a autora de romances eróticos usou a experiência para desenhar um mangá na linha Atração Fatal. E superou o seu medo… Pelo menos até a volta de Suzu neste episódio 6.

Ruki continua sendo a “vítima perfeita”.

Na segunda metade, Tsubasa e a professora Miharu Nijino estão à volta com as suas identidades. Ambas têm segredos. Tsu-chan mantém o seu por necessidade, já que sendo uma garota do ensino médio que desenha mangás shounens, talvez não fosse aceita pelos fã. Entre a decepção do público e as interdições que impõe sua condição, Tsubasa opta pela segunda alternativa, resignando-se em relação às coisas que não poderá desfrutar, como ouvir os motivos que levam os seus leitores a admirar a sua obra. É possível que a juventude de Tsubasa faça com que os editores não arrisquem a sua assinatura nas obras. Uma questão de imagem e credibilidade? Entre mangakás shounens de sucesso pode-se citar  Rumiko Takahashi (InuYasha) e Kazue Kato (Ao no Exorcist). Certamente, um dia Tsubasa encontrará seu lugar ao sol.

A difícil vida de uma estudante que é criadora de mangá.

Já Nijino-sensei tem receio de que sua faceta otaku seja conhecida na escola. Um misto de vergonha e entusiasmo a conduz no episódio. Apreensiva pela incerteza do que as garotas viram no parque, Miharu pensa em como se certificar de que seu gosto por cosplay e mangá permaneça oculto.

Tsubasa está sofrendo de privação de sono, já que precisou trabalhar em manuscritos à noite inteira. Ao dormir em sala de aula é repreendida por Nijino-sensei. Na segunda vez em que sua atenção é chamada, enquanto desenhava para se manter acordada, é levada por Miharu até o terraço. Como os traços dos desenhos que a sonolenta Tsu-chan esboçava lembram ao de “Herói da Escuridão”, de Wing V., a professora acredita ter encontrado uma fã do autor e compartilha sua paixão.  Interroga Tsubasa para saber se a jovem frequenta eventos cosplay. O velho “jogando verde para colher maduro”. Não suportando mais a situação, Kaos acaba por revelar a verdeira identidade de Wing V. para uma inicialmente incrédula Miharu.

A otaku e a mangaká tentando preservar seus segredos.

Mesmo com os segredos revelados, as identidades – ambas vivem vida dupla – permanecem seguras, já que precisam ser preservadas em decorrência do temor do julgamento alheio. Miharu é otaku e teme ser ridicularizada na escola (as personagens de Wotaku ni Koi wa Muzukashii, anime desta temporada de primavera, carregam também essa preocupação). Já Tsubasa sabe que uma boa parte de seus leitores acreditam que o autor de “Herói da Escuridão” seja um homem (não conversar com fãs e não poder participar de uma sessão de autógrafos fazem parte das frustrações da garota. Sentimentos semelhantes foram vividos por Ruki no episodio 4). No fim, Tsubasa fica feliz por finalmente ouvir uma fã e Miharu se sente aliviada e acolhida pelas suas alunas que produzem mangá. Estabelece-se uma cumplicidade entre elas.

A luz de uma descoberta. Quando sua aluna é, na verdade, sua sensei.

A introdução de Fuuru-senpai rendeu um episódio hilário e sentimental. Com Kaos ganhando mais confiança, apesar de todo o terror que passou. No fim, Suzu mostrou-se ser delicada, mas com muita vontade de assustar as pessoas. E a autora de “garotas fofas fazendo coisas fofas” continua na sua batalha para acertar com um manuscrito. Se apresenta personagens interessantes, esquece-se da trama. Mas é um passo. Durante o episódio, ela percebe discrepâncias entre a imagem pública e os desejos interiores das pessoas. É isso não é facilmente perceptível. É uma habilidade notar a contradição humana. Talvez num futuro não tão distante, Kaos seja capaz de criar uma história com enredo e personagens verossímeis.

Segue a batalha de Kaoruko. Agora com mais uma impressionante companhia, Suzu Fuuru, e a cooperação de Nijino-sensei.

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