Bom dia!

Na superfície, Flip Flappers é um mahou shoujo. Suas heroínas se transformam e usam uma energia misteriosa ao longo dos episódios para lutar e cumprir suas missões. Há vilões. Há um mascote em forma de robô.

Cocona e Papika são garotas mágicas. Mas Flip Flappers é tão complexo que assisti-lo apenas com essa informação não ajuda nem a começar a ter ideia do que esperar.

Confundindo as coisas um pouco mais, o anime possui arcos e episódios que deliberadamente homenageiam outros gêneros, como horror e robô gigante.

Para assistir Flip Flappers é preciso saltar no escuro, mergulhar na toca do coelho, e deixar o anime te levar. Não há nada errado em tomar um pouco de fôlego e tentar fazer sentido de tudo o que se está assistindo, mas quem se apega demais às suas críticas ou conclusões quase certamente irá se frustrar e abandonar a série antes do fim – mesmo que assista até o fim.

 

 

Flip Flappers é a história de Cocona. Uma garota inteligente e capaz, mas insegura e com medo de tomar decisões e fracassar. Para angustiá-la um pouco mais, está no fim do ensino fundamental e logo precisará decidir em que escola continuará seus estudos no ensino médio. Ela pode escolher a escola que quiser, mas a quantidade de opções, longe de ajudar, só atrapalha.

Flip Flappers é a história de como Cocona um dia vê uma garota voando em uma prancha de surf – Papika. Seus olhos se cruzam. Papika procurava por ela, e Cocona ainda não sabia, mas metaforicamente é como se estivesse procurando por Papika também.

A história de Cocona é uma história de amadurecimento mental, emocional, sexual, típico da idade. Flip Flappers é mais do que isso, mas ainda vou chegar lá.

Cocona e Papika devem procurar fragmentos (cristais) em uma dimensão paralela chamada de Pure Illusion. Bom, não exatamente uma dimensão. Cada vez que elas retornam, estão em um lugar diferente. Ao longo dos episódios aprendemos que Pure Illusion é um lugar de infinitas possibilidades no qual os sentimentos das garotas interferem fisicamente.

 

 

Em dado episódio, quando Cocona estava em dúvida sobre o que Papika era para ela, o que ela sentia pela outra, Cocona viu e interagiu com diversas versões diferentes da Papika. Uma irmã mais nova. Um colega de classe. Um bonitão. Uma garota bem educada que tem alguns hobbies incomuns para extravasar. Uma hikikomori. Uma diaba sedutora.

O que importa de verdade, quem a Papika é, objetivamente, ou o que ela é para Cocona, como ela se sente? Estamos começando a entender do que Flip Flappers se trata.

Os fragmentos que elas estão recolhendo lhes darão o direito a realizar um desejo quando juntarem todos. Um mundo de possibilidades infinitas, que elas descobrem de forma dolorosa que pode interferir no mundo real, e que esconde tamanho potencial, certamente elas não são as únicas atrás desses fragmentos, são? É lógico que não.

 

 

Antes de conhecer Papika, Cocona tinha uma melhor amiga em Yayaka. Elas se conheceram ainda crianças, e estão juntas basicamente desde sempre. Pois eis que Yayaka é de uma organização que também está recolhendo os framentos – que eles chamam de amorphous. É uma organização grande, que mais parece uma seita, e é retratada de forma sinistra.

Mas será que a organização de Papika e Cocona, a Flip Flap, não esconde ela também seus segredos imperdoáveis?

Como descrito na introdução, Flip Flappers homenageia outros gêneros. Na verdade ele vai mais longe do que isso. Cada episódio é visualmente único. O anime é uma experiência visual como poucos. É o suficiente para, junto com a trilha sonora igualmente incrível, segurar o interesse pelo anime mesmo que na primeira metade o formato seja essencialmente episódico e a grande história insista em permanecer elusiva.

 

 

Se há motivos para carregar o interesse do espectador, também os há para afastá-lo. O estilo cartunesco da animação, frequentemente bastante distorcida, disfarça um pouco, mas não oculta (até porque a intenção é mostrar) o fanservice.

A Papika anda seminua a maior parte do tempo. As transformações, como esperado, exibem as personagens nuas. Não falta enquadramento na virilha e nas coxas das protagonistas. E vamos colocar em perspectiva: elas têm cerca de 13 anos. E parecem ter a idade que têm.

Tenha em mente porém que, embora seja um mahou shoujo com uma protagonista bem jovem, passando pela fase de descoberta sexual ainda, Flip Flappers não é, de forma alguma, um anime para crianças ou pré-adolescentes. Mesmo para adolescentes talvez seja um pouco cedo demais.

É um anime para adultos, com temas adultos. E os corpos das personagens não são explorados apenas para atender fetiches adultos. Cartunesco e distorcido, nem dá para dizer que seja sensual, de todo modo.

Outra crítica possível é a de que a história é confusa demais, e depois no terço final é finalmente revelada de forma muito súbita, marcando quase uma mudança de tom da série. E o final, embora não seja ruim, fica abaixo da expectativa daquela explosão de cores e criatividade dos primeiros episódios.

Mas Flip Flappers não é um anime sobre sua história. Ela é apenas o meio através do qual os diversos temas relevantes são explorados.

Flip Flappers é um tour de force visual, e é também um tour de force sobre sentimentos e relações humanas. Antes mesmo da natureza da relação entre Cocona e Papika saltar para o primeiro plano, o anime já havia entregado alguns episódios sobre temas relacionados.

 

Tomar chá todo dia

 

Em um episódio, Cocona e Papika estão em uma escola em que todas as garotas tem um vazio tenebroso no lugar dos olhos e das bocas. Elas fazem as mesmas coisas todos os dias. Tomam chá, bordam, fofocam, vão dormir.

Lembre-se como a própria Cocona tinha dificuldade em tomar decisões. Um mundo em que ela não precisasse tomar decisão nenhuma seria a distopia ideal para ela. Como essa escola de terror.

Aos poucos, com efeito, Cocona e Papika começam a se esquecer de qual era a sua missão. Elas passam a gostar de estar ali. De fazer as mesmas coisas todos os dias. Em Pure Illusion, a conformidade é uma possibilidade.

 

 

Noutra ocasião, Cocona e Papika vão parar em uma região ainda “não mapeada” de Pure Illusion. Elas demoram um pouco a perceber, mas para o espectador está claro logo desde o começo que aquilo é o passado de uma colega de escola delas: Iroha, a artista.

Elas descobrem que os pais de Iroha viviam brigando quando ela era nova, e que por isso a menina passava bastante tempo com uma vizinha idosa, professora aposentada. O que Iroha era muito nova para entender era que o tempo que ela passava com a “tia” era tão importante para ela quanto era para a “tia”.

E que a “tia” estava envelhecendo. Alzheimer. Eventualmente ela acaba hospitalizada, e não vou contar mais para não estragar, assista, mas é de partir o coração e totalmente dá para entender porque Iroha carrega um trauma até hoje por causa disso, bem como porque Cocona se sentiu muito mal por ter interferido.

Flip Flappers não dá uma resposta, não diz o que teria sido melhor. Cocona e Papika agiram bem? Iroha está melhor ou pior agora? O anime vai terminar sem responder isso.

O relacionamento das protagonistas é a grande questão do anime, e como tal ele dá uma resposta: Cocona retribui o amor que Papika lhe dedica desde o começo do anime. Elas se tornam mais fortes assim. Mas as perguntas são mais importantes do que as respostas.

 

Papika diaba e sedutora

 

A primeira pergunta do anime é a mais importante: Cocona gosta de Papika. Mas como é esse gostar? Será que ela está romanticamente interessada pela garota que veio do nada? Mas as duas são meninas. Ela nunca se apaixonou antes. É isso mesmo? Isso funciona assim?

O que está certo é que Cocona demorou muito a entender o que sentia porque o fato das duas serem garotas a deixou bastante confusa. Sentimentalmente confusa, não moralmente. Ela nunca se perguntou se era “certo” duas garotas juntas, nem o anime flerta com o clichê yuri comum de dizer que o relacionamento entre garotas é apenas uma “fase”, que irá passar quando elas forem adultas.

A próxima grande questão, que desencadeia o arco final, é: a pessoa por quem você se apaixonou já foi apaixonada por outra pessoa antes. Como lidar?

Você não pode apagar a memória da sua pessoa especial. Você se sente inseguro porque é seu primeiro relacionamento e talvez você não seja bom o bastante. Talvez sua pessoa especial prefira sua ex, mesmo. Talvez você seja só um substituto. Esse tipo de dúvida, uma vez que se instala, é capaz de abalar as estruturas do mais estável dos relacionamentos.

Mas dá pra piorar. E se você gosta de uma pessoa que gosta de outra? Será que deve “lutar” pelo seu amor? Será que vale a pena? Será possível? Se a pessoa que você gosta estiver feliz, mesmo assim você deve tentar se intrometer no que ela tem?

 

Dr. Salt, o misterioso líder da Flip Flap, a organização de Papika que está coletando os fragmentos em Pure Illusion

 

Em dois momentos distintos o anime coloca outra questão: e quando estiver em posição de ter que escolher entre o amor e outra coisa? Em Flip Flappers, uma personagem escolheu “outra coisa”, apenas para colher um resultado desastroso. Outra personagem ficou em cima do muro até o último instante, quando escolheu o amor, ainda que fosse uma escolha inútil.

O mundo real não é a Pure Illusion em que você consegue entender os sentimentos dos outros porque eles se manifestam fisicamente. Nossas relações são imperfeitas porque dependem de comunicação expressa e necessariamente imperfeita, filtrada por todas as nossas dúvidas e medos.

E os resultados de uma relação mal resolvida podem ter efeitos para muito além do casal. Já escrevi acima sobre Iroha, que dependia demais de uma vizinha senil para atender suas necessidades de afeto, dado que em casa ela não tinha isso porque seus pais viviam brigando.

 

Os pais de Iroha

 

Em outra instância dramática, uma mãe solteira isola sua filha do resto do mundo e tenta criá-la à sua imagem e semelhança.

No fim das contas, o anime não dá muitas respostas. As que dá, ele deixa claro que são respostas para Cocona e Papika, ou outras personagens conforme o caso. São respostas às quais elas chegaram juntas.

O relacionamento é uma coisa muito séria e complicada para ficar sob responsabilidade de uma pessoa só. Não há manuais, apenas uma escuridão assustadora. É um buraco de coelho para dois no qual devemos mergulhar junto com quem quer que seja nossa pessoa especial, e na queda, enquanto um segura o outro, encontrar as nossas próprias respostas. O nosso próprio País das Maravilhas.

 

Cocona observa o buraco na vegetação. Seguir em frente ou ficar?

 

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