Glass Mask

Bom dia!

Glass Mask é a história de Maya Kitajima, uma adolescente que ama teatro e sonha em ser atriz. Originalmente mangá, de autoria de Suzue Miuchi, começou a ser publicado em 1976 na antologia shoujo Hana to Yume e continua até hoje, contando atualmente com 49 volumes.

Por conta da longa duração, é de se esperar que haja mais de uma adaptação para anime. Com efeito, há dois animes para TV, um de 1984, com 23 episódios (na prática 22, o último é uma recapitulação da série), e o outro de 2005, com 51 episódios, um OVA de 1998, com 3 episódios, e alguns spin-offs.

Nessa resenha trato do anime de 1984.

De acordo com sua origem shoujo, logo no começo do primeiro episódio a narração diz algumas palavras que todo fã de anime ou mangá, principalmente quem já teve contato com obras da demografia, deve estar mais do que acostumado:

Maya Kitajima, 13 anos. Uma garota normal: nem muito bonita, nem muito inteligente”

Isso é a senha óbvia para que o público-alvo da obra, meninas novas e pré-adolescentes, se identifiquem com a personagem. É interessante ver que esse clichê já tem pelo menos mais de 40 anos (supondo que o mangá comece assim também).

Glass Mask de 1984 é definitivamente um anime de seu tempo. Não é questão de ter envelhecido bem ou mal, mas sim de estar claro que envelheceu. E isso de forma alguma é um demérito. Se eu for obrigado a escolher, diria que ele envelheceu bem, pois consegue contar a sua história e emocionar até hoje.

 

A mãe de Maya vem para levá-la para casa e as duas brigam

 

Glass Mask é bastante dramático, com o perdão do trocadilho. A protagonista sofre, psicológica e fisicamente. Sua mestra usa de abuso para educar-lhe, a separa de sua mãe; sua trupe e ela em particular são várias vezes sabotadas, chegam a perder seu teatro ainda no primeiro terço do anime, entre outras coisas que tratarei pontualmente ao longo do texto.

Se Maya quer mesmo perseguir seu sonho, deve perseverar.

As condições para ela são bastante difíceis desde o começo. Ela é pobre e vive apenas com a mãe, mas teve a oportunidade de sua vida quando uma ex-atriz aposentada, Chigusa Tsukikage a descobriu por acaso.

Ou não tão por acaso. Uma garota que trabalha no mesmo restaurante que a mãe de Maya fez uma aposta com a protagonista: lhe daria um ingresso para uma peça teatral que ela gostaria de assistir, mas não tem dinheiro, desde que ela fizesse sozinha todas as entregas do restaurante, até a meia-noite.

Deveria ser impossível, mas Maya conseguiu. Sua colega, enfurecida, jogou o ingresso em um canal do porto, e Maya mergulhou atrás, pegou o ingresso e comemorou em alto e bom som para o mundo inteiro escutar como se ela não estivesse na terrível situação de estar na água, meia-noite, durante o inverno. No meio da multidão que atraiu estava Tsukikage, que ficou impressionada com a garota.

Perseverança diante da dificuldade. Perseverança mesmo diante da injustiça. Essa é a história de Maya e seu duro caminho para se tornar não apenas uma atriz, mas a maior de todas as atrizes, aquela capaz de se tornar a Deusa Carmesim, papel-título de peça lendária que apenas Tsukikage encenou no passado.

 

 

Maya quer ser uma atriz, Tsukikage quer criar uma atriz boa o bastante para transferir para ela o papel de peça tão importante, da qual ela possui os direitos. Tsukikage vê potencial em Maya e começa o duro treinamento da garota. Duro mesmo. Em uma ocasião, a mestra soca Maya na barriga e fica com a mão lá, ordenando que sua aprendiz afaste o punho cerrado apenas com a força dos músculos abdominais enquanto faz seu treino vocal. Isso é quão séria Tsukikage está em seu sonho de criar uma atriz capaz de vestir mais de mil máscaras diferentes.

E Maya nunca reclama. Nem quando é estapeada, ou quando é empurrada, nem mesmo quando sangra. Pelo contrário, ela é grata e ama sua mestra. Isso é o quão sério Maya está em seu sonho de herdar a Deusa Carmesim.

Seria uma relação tóxica se fosse real, e Tsukikage provavelmente está apenas reproduzindo o que ela sofreu: perdeu os pais quando criança e foi adotada pelo dramaturgo que escreveria a Deusa Carmesim. Fica subentendido que seu treinamento foi ainda mais rigoroso que o que ela impõe à Maya. Porém o anime é tão exagerado, tão, como escrevi acima, dramático, que essas coisas passam por hipérboles.

 

Maya tem o coração partido ao encontrar Sakurakouji cercado de garotas

 

Quero dizer, não é preciso apanhar literalmente para ter uma vida sofrida porém esforçada – e tão mais sofrida porque mais esforçada.

Ela bem que faz o possível para ser uma garota normal quando não está no palco, ensaiando ou estudando para um papel. Ela tem um namorado, Sakurakouji, com quem nunca houve um começo formal de relação. Eles apenas se davam bem, saíam quando podiam, e quando perceberam se sentiam especiais um para o outro.

Mas Sakurakouji é da trupe de um teatro rival, além de alguns anos mais velho, de modo que o relacionamento deles é intermitente. Nem sempre eles têm oportunidades para ficar juntos, às vezes passando longos períodos sem nenhuma comunicação.

Não deixa de ser um tipo de relação bastante romântica. Mas a prioridade de Maya é o teatro, e Sakurakouji se sente intimidado com a personificação que Maya faz de Catherine, de O Morro dos Ventos Uivantes, e não consegue evitar sentir ciúmes de uma personagem que está apaixonada por Heathcliff – outro personagem da peça. De fato, o ator de Heathcliff chega a se apaixonar por Maya, para depois, assistindo-a em outra peça, entender que aquilo é apenas a forma como ela se entrega para seus papeis e desistindo para nunca mais aparecer na história.

 

Maya como a jovem Catherine, de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë

 

Sakurakouji percebe ao final do anime que sua única chance é também se dedicar aos palcos como Maya, para estar pelo menos em um nível próximo ao dela. Assim, ele parte para estudar nos EUA, não sem uma separação traumática.

A relação com a mãe é ainda mais dolorosa. Tsukikage a fez sair de casa para ir morar com ela e treinar, e quando a mãe de Maya descobriu e foi tentar levá-la de volta, mãe e filha brigam. A mãe tenta enviar cartas pedindo desculpas depois, bem como Maya havia enviado cartas logo no começo avisando sua mãe de sua decisão, mas Tsukikage intercepta e destrói toda a correspondência. Ela quer cortar todos os vínculos de Maya com o passado.

Um vínculo que, contudo, não pode ser ignorado para sempre, e em mais de uma ocasião Maya sofre de saudades por sua mãe, que ela descobre depois que adoeceu e sumiu, a preocupando ainda mais.

 

Maya chora quando não deveria em Um Sorriso de Pedra, peça inventada em Glass Mask

 

Para todas as crises, porém, Maya sempre pode contar com seu admirador secreto: o Homem da Rosa Púrpura. Palavras encorajadoras ou conselhos quando ela precisa. A própria ideia motivante de ter um admirador secreto. Uma casa para ensaiar para um papel importante. Até mesmo o pagamento da cirurgia de coração da mestra Tsukikage. Sempre que Maya precisa, seu fã oculto lhe envia rosas púrpuras, um bilhete e qualquer tipo de ajuda que a protagonista esteja precisando.

O Homem da Rosa Púrpura é na verdade Masumi Hayami, presidente da Daito Entertainment que é dono do Teatro Ondine, o rival de Tsukikage no começo da história, e que quer a todo custo comprar os direitos da Deusa Carmesim e montar a peça.

Embora ele seja apenas insistente, nunca tendo apelado para golpes baixos, o mesmo não se pode dizer do Diretor Onodera, do Ondine. Assim, se desde o começo Hayami já era um incômodo, ele logo se torna persona non grata para Maya por causa das sabotagens levadas à cabo por Onodera.

O ódio da Maya por Hayami, a inveja que ele sente por ela ser alguém que segue os seus sonhos, ao contrário dele, que está apenas seguindo os passos do pai (CEO da Daito e quem está realmente obcecado em adquirir a Deusa Carmesim), e o fato de que ele secretamente está apaixonado por ela (embora se recuse a admitir) o fizeram criar o Homem da Rosa Púrpura em primeiro lugar.

 

 

E, claro, Maya possui uma rival: Ayumi Himekawa. Ela tem tudo o que Maya nunca teve: ela é rica, bonita, e seus pais já trabalham no mercado. Sua mãe, Umeko, é reconhecida como uma grande atriz – aliás, ex-discípula de Tsukikage.

Ela faz parte da trupe do Teatro Ondine e com tudo à seu favor todos simplesmente esperam que ela se torne uma atriz incrível. E, até agora, ela vem correspondendo às expectativas depositadas nela. Maya se sente intimidada por Ayumi, e Ayumi se sente ameaçada por Maya, cujo talento e carisma impressionam todos que assistem essa atriz desconhecida e que não parece ter nada demais.

Maya vem do nada, mas possui paixão, carisma, capacidade de se concentrar, decorar o script e de improvisar incríveis. Só o que falta à Maya é a capacidade de entender qualquer tipo de personagem. A maioria das crises dela, tirando os problemas de fora do teatro, são porque ela sofre para entender como suas personagens deveriam ser, agir, se sentir. Não obstante, ela sempre sucede.

As peças apresentadas ao longo do anime, como esperado em uma história sobre teatro, são o fio condutor da história. A cada peça Maya aprende um pouco mais sobre o que é ser uma atriz.

 

 

Algumas são obras reais, outras são inventadas pela própria autora do mangá. Nenhuma peça é exibida de cabo a rabo (exceto uma), e isso de forma alguma é um problema. A história aqui se chama “Glass Mask”, afinal, não O Morro dos Ventos Uivantes ou Takekurabe ou qualquer outro nome.

Maya tem diversos problemas, diversos desafios ao longo da história, e ela os supera ao mesmo tempo em que as peças teatrais se sucedem na tela.

Os demais atores por vezes sentem em Maya uma ameaça, não por inveja, mas porque ela possui um talento e um carisma naturais que, combinados com seu estilo de atuação, a leva a roubar a cena, qualquer cena em que ela esteja, mesmo se ela for um personagem coadjuvante. Ela é o que o anime chama de tempestade do palco. Isso é um problema sério para uma atriz e é algo importante que Maya precisa aprender ao longo da série.

A máscara de vidro, do título, é a máscara de teatro mesmo. O ator se esconde atrás, com a sua vida e as suas emoções, e em sua frente fica o personagem, com sua própria existência fictícia naquele momento materializada. Só que Glass Mask diz que essa máscara é na verdade de vidro. Ela é frágil e pode se espatifar a qualquer momento. Não basta um ator vesti-la, ele precisa se esforçar para mantê-la inteira.

Os duelos entre Ayumi e Maya e a relação de rivalidade e respeito que há entre as duas, principalmente no terço final do anime, são um espetáculo à parte.

 

Ayumi estapeia Maya durante cena improvisada em A Cerejeira de Festas de Sonho, peça inventada em Glass Mask

 

E finalmente, se Maya é a “tempestade no palco”, que cativa os espectadores, Glass Mask consegue passar muito bem essa sensação, durante as peças teatrais ou não. A dublagem excelente de Masako Katsuki, que é a voz de Maya, e o enredo que pode ser melodramático ou acelerado em alguns momentos mas é sempre cheio de emoção, são os fatores principais para isso.

Quando o anime termina, Maya ainda está longe de se tornar a Deusa Carmesim, e Tsukikage reconhece em Ayumi uma candidata tão boa quanto a protagonista, convidando-a para que ensaiem, estudem e treinem juntas para que, um dia, ela escolha qual delas herdará o papel lendário. As duas precisam ainda colecionar muitas máscaras para se tornarem dignas de tanto, e não vão desistir.

 

Maya e Ayumi se encaram

 

  1. Quais as diferenças entre a adaptação de 1984 e a de 2005? Estou para assistir, mas ainda em dúvida se começo pela adaptação antiga ou a mais recente..

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá Jordain, tudo certinho?

      Não assisti a versão de 2005 para comparar, então posso só repassar o que li a respeito e algumas opiniões.

      Eu acho que você deveria assistir essa adaptação primeiro. Meu principal motivo para isso é totalmente subjetivo: acredito que um anime feito próximo à época em que o próprio mangá foi feito deve capturar melhor o espírito de seu tempo. Em que pese Glass Mask estar em publicação até hoje, persiste o fato dele ser um mangá antigo de uma mangaká de uma era que já passou.

      E isso eu não sei se você irá considerar motivo contra ou à favor, mas se me lembro bem de quando assisti e pesquisei sobre o anime, parece que a versão de 1984 tem algumas peças originais, que não existem no mangá, enquanto o de 2005 seguiria o mangá mais de perto. Ora, para ter apenas o conteúdo do mangá, melhor ler o mangá, não é? Bom, isso é de novo apenas a minha opinião, e eu no geral gosto de adaptações que adicionam ao original (sem deturpá-lo, evidentemente).

      Parece que o de 2005 foi mais longe na história também, o que para mim é mais um motivo para assisti-lo depois do de 1984.

      Obrigado pela visita e pelo comentário!
      Diga depois o que decidir!

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