[sc:review nota=3]

Enquanto o primeiro conflito entre Bernard e Maria está sendo gestado, a construção de cenário ainda não terminou e ocupa a maior parte desse episódio. Aquele escândalo todo com o Arcanjo Miguel parece meio bobo agora com a Ezequiel sendo enganada enquanto Maria continua usando sua mágica ostensivamente. Viv, a bruxa inglesa, vem até Maria reclamar que ela pare de tentar impedir batalhas, afinal bruxas também lucram com isso. Falando em impedir batalhas, Maria está tendo que impedir as consequências causadas por si mesma ao impedir batalhas. E o mais importante do episódio: um pequeno vislumbre da história de Maria que pode ajudar a entender porque ela é a pessoa que é hoje. Coisa demais para um episódio só? Sem dúvida. Continua divertido, mas foi mais cansativo acompanhar esse episódio.

Começo falando da Ezequiel. Ela está lá para supervisionar Maria e impedi-la de usar magia, mas está sendo enganada de forma até bastante idiota: aparentemente, basta Príapo tapar seus olhos para evitar que ela veja Maria fazendo arte que tudo bem, Miguel não é avisado e Maria não é punida. Depois daquela ameaça toda a condenação virou só motivo de piada. De quebra, pode ser só coisa da minha cabeça mas fiquei com a impressão que começou a surgir uma tensão romântica entre Ezequiel e Príapo. A anja vai se apaixonar pelo familiar de bruxa? Seria hilário. Mas em um tom mais sério, seria também uma razão para Ezequiel trair a Igreja do Céu. Não deve ter sido à toa que nesse mesmo episódio ela disse que se Maria deixasse de ser bruxa seus familiares voltariam a ser apenas animais.

Nesse episódio mais uma vez mercenários tentam atacar uma aldeia já que não estão conseguindo riquezas em batalha. Esse era um problema real de se manter exércitos regulares grandes na época ou mesmo contratar mercenários. O que o anime não retrata com fidelidade é que a maior parte das riquezas obtidas em batalha não era a tomada do exército rival, mas saqueada de vilas e cidades dentro do território inimigo. No mundo real isso só significaria atacar uma vila aliada ao invés de uma rival, mas se tratando de civis inocentes, que diferença faz? Claro que o anime quer que faça diferença, então soldados só ganham dinheiro em batalha saqueando os soldados rivais. Prostitutas e bruxas ganham o seu quinhão também prestando serviços aos exércitos. Maria está quebrando toda essa economia ao impedir batalhas, e os exércitos começam a atacar civis para obter riquezas. O anime constrói isso de forma a fazer parecer que é um ciclo sem fim: Maria impede uma batalha, então seus soldados vão simplesmente ganhar dinheiro em outra batalha, que inclusive pode ser uma batalha covarde contra camponeses desarmados que sequer sabem lutar. Mas isso é proposital, porque Maria mesma sabe a resposta para terminar esse ciclo estúpido: é só os soldados deixarem de ser soldados! Quando ela diz isso a Viv, que foi reclamar com Maria porque as bruxas também estão perdendo dinheiro, a inglesa gargalha cinicamente. Talvez isso queira dizer que a guerra é da natureza humana, portanto evitá-la é impossível e Maria é apenas uma tola por pensar como pensa.

Notícias dos feitos mágicos de Maria chegam aos ouvidos do padre Bernard, que reconhece que ele ainda pode fingir não saber de nada, o que significa que ele reconhece que não é como se Maria estivesse causando problemas ainda. Mas ele não pretende agir dessa forma e já ordenou que um subordinado seu entre em contato com o senhor de terras local (suponho que seja isso, a legenda dizia apenas “o senhor”). Ele não sabe as motivações de Maria, sabe apenas que ela é uma herege que renega à Igreja, então não considera prudente ou necessário aguardar até descobrir porque Maria age como age.

Mas afinal, por que Maria pensa como pensa? Por que age como age? O anime está longe de responder isso ainda, mas já dá para especular. Maria ainda criança vivia sozinha e já era uma bruxa. Bruxas nascem bruxas? Vou supôr que sim. Mas elas não têm pais? Maria não parecia ter pais. Será que bruxas simplesmente surgem, puf? Duvido, se assim fosse por que surgiriam crianças? Faria mais sentido já surgirem adultas. Ou velhas com verrugas no nariz (ainda espero ver uma bruxa assim nesse anime). Desde criança Maria vivia sozinha, já era uma bruxa com conhecimentos de bruxa e magia de bruxa, e até onde pude entender, já pensava da forma como pensa hoje. E só Maria é assim, Viv é o oposto dela para mostrar como são “bruxas de verdade”, e mesmo aquele bando de bruxas francesas anônimas genéricas do primeiro episódio apenas lamentava o comportamento de Maria. É forçoso acreditar então que algo em sua infância, que deve ter sido incomum, a tornou no que é. Pouco se sabe ainda, apenas que Martha (a avó de Anne) a visitava com frequência e que Maria tentou salvar uma vila próxima da peste, mas seus aldeões se agarraram à religião e não só rejeitaram Maria como a agrediram. Apenas um aldeão sobreviveu (e morreu nesse episódio, por sinal). Não obstante, Maria pranteia até hoje por eles. O que terá acontecido com Maria antes disso para que ela tivesse ainda criança um nível tão elevado de altruísmo e uma empatia incomum em crianças (e até em muitos adultos)? No momento estou mais interessado nisso do que no futuro conflito entre Maria e Bernard ou entre Maria e Miguel.

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