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Nesse episódio, Arslan e companhia vão até uma fortaleza controlada por um senhor parsiano ainda leal aos antigos reis. Dado que não se passou sequer um mês desde a queda de Ecbatana, que o reino é provavelmente grande e toda a comunicação é feita por terra, é de se esperar que ainda existam muitos lealistas em Pars, pelos mais variados motivos, sendo o mais comum deles provavelmente manter e se possível aumentar seu poder caso a casa real retome o controle do país. A palavra chave é “manter”. Mas o prícipe não quer “manter”: ele quer tomar o governo para si com a intenção de promover profundas reformas no tecido social de Pars. É esperado que ele enfrente a resistência de senhores como Hodir. Tão esperado que Narsus sabia que iria acontecer. Mas ele sabia que outra coisa iria acontecer e queria que o príncipe testemunhasse em primeira mão: também quem está na base desse sistema tende a defendê-lo com unhas e dentes. É chocante ver um escravo defender seu senhor, mas totalmente compreensível. Narsus queria que Arslan visse isso.

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Por que um escravo iria querer se vingar de quem matou seu senhor e o libertou? Arslan não entende isso. Muita gente hoje em dia não entenderia também, e creio que essa reação incrédula de Arslan reflita a posição do espectador mais do que deveria refletir a dele. No começo do anime, no primeiro episódio, ele entendia muito bem: como um escravo, não se passa fome e nem se dorme desabrigado. Claro, você pode acabar sujeito a tarefas horríveis e sob o mando de um senhor terrível, como aparentemente era o caso de muitos escravos de Ecbatana, mas isso não significa que todos os senhores sejam horríveis com seus escravos. É mesmo complicado para nós, hoje, entendermos isso, então vou divagar bastante, me acompanhe por favor.

Qual é a alternativa a ser um escravo? Ser livre, lógico, mas o que isso significa? Significa que você precisa de alguma forma conseguir prover seu próprio sustento e garantir sua própria segurança. O Estado protetor de seus cidadãos é uma invenção moderna. Homens livres porém sem posses, há poucos séculos atrás, estavam condenados a vagar procurando uma terra que os aceitasse, onde eles pudessem produzir seu próprio sustento e ainda precisavam se defender, porque não haveria quem os defendesse de bandidos, invasores, do próprio governo, de seus vizinhos, sério, de ninguém. Mesmo que essa parte da segurança conseguisse ser pelo menos parcialmente garantida (digamos, com uma milícia comunitária), a chance de um ano ruim, uma geada, uma nevasca, avalanches, inundações, ou qualquer outro elemento da natureza destruir sua colheita do ano não era irrelevante. Sem recursos para adquirir produtos de outras partes, sem escala de produção para haver reserva suficiente, pessoas morriam à míngua pelos motivos mais estúpidos.

E existiam os senhores de escravos. Ou os senhores feudais, que para esse propósito não eram muito diferentes também. Se você fosse um escravo de sorte com um senhor que não o maltratasse (muito), estaria com a vida feita (bom, tirando as condições sanitárias miseráveis que acabariam te deixando doente e matando-o relativamente cedo de todo modo). É preciso um desastre muito grande para que um rico senhor fique absolutamente sem provisões; ainda que ele vá obviamente privilegiar a própria sobrevivência antes da de seus escravos em caso de crise de abastecimento, ele não quer que seus escravos (que lhe custaram e que lhe sustentam) morram, e ele tem recursos para tentar garantir isso. Pode ser um ano ruim, alguns podem morrer, muitos podem morrer, mas a chance de sobrevivência é maior que a daquela vila de homens livres do parágrafo anterior. Mais ainda pode ser dito sobre a capacidade de auto-defesa de um senhor: em Arslan Senki, Hodir provavelmente não era grande coisa, mas mesmo assim tinha um exército pessoal que foi capaz de afastar uma tropa de soldados lusitanianos que perseguiam o príncipe e sua companhia.

Ainda que de forma tácita Arslan demonstrou saber de tudo isso ainda no primeiro episódio quando disse a Etoile que estrangeiros viviam melhor como escravos em Pars do que como homens livres em seus países de origem. Mesmo que ele estivesse extrapolando sem ter dados suficientes para tanto, ele estava certo ao dizer que os escravos de Pars não precisavam passar fome nem corriam o risco de morrer em guerras (isso, claro, enquanto Pars se mantivesse inabalável, o que durou por poucos anos depois dele proferir essas palavras). Por isso me espanta um pouco que ele tenha ficado tão impressionado e confuso com a revolta dos escravos após descobrirem que a companhia de Arslan havia matado Hodir, seu senhor. A verdade é que foi um trecho didático, com a intenção de explicar não para o príncipe, mas para o espectador como era a realidade da sociedade naquela época. O que Arslan quer mudar é muito mais do que apenas quebrar grilhões. É a própria estrutura do Estado e da sociedade. Narsus queria que Arslan soubesse disso, e o anime quer que nós saibamos disso.

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