E de ignorar totalmente, teria dito Pascal. Durante a madrugada escrevo esse texto, apenas com as luzes do corredor e a da própria tela do notebook, ouço o canto de pássaros (que não deveriam ser) notívagos, gotejamento de algumas horas atrás, o som da ventoinha do notebook programada para resfriá-lo, e que no entanto é ineficiente e por isso há também um ventilador de chão em cima da mesa ligado, que também faz barulho e me deixa com frio nas mãos. Há o som da minha digitação, e meu reflexo no espelho atrás do notebook olhando para mim sorrateiramente por cima dele. Há várias outras coisas que estou vendo, ouvindo ou sentindo, mas não vem ao caso descrever todas. O que eu quero dizer é que enquanto tudo isso deve estar mesmo acontecendo, as minhas sensações não são mais do que a interpretação que meu próprio cérebro dá a elas. O que eu acho que estou vendo não é A Verdade. Não são meus olhos que enxergam, eles meramente captam a luz e a transformam em impulso elétrico. O cérebro interpreta essa informação, e é uma coisa muito louca, com coisas diferentes sendo interpretadas (e sentidas de forma consciente) por partes distintas desse órgão vital. Existe uma condição médica rara em que cegos reconhecem rostos. Bizarro? Ocorre que o cérebro recebe a imagem em uma parte, a transporta para a consciência em outra, e reconhece rostos numa terceira. Há outras partes envolvidas em várias outras operações relacionadas apenas à visão, mas concentre-se nessas. É possível que o dano em alguma parte muito específica prejudique ou impeça a formação da imagem, mas seu cérebro ainda a recebe corretamente e interpreta. Assim, a pessoa reconhece outros que estão a sua frente mas ela “não está enxergando”. É tudo muito louco.

Mesmo assim aqui estou tentando descobrir “A Verdade” sobre o que aconteceu em uma história fictícia que me é contada aos poucos, um tantinho cada semana, em forma de vídeo, sons e textos. Tem ainda a questão da tradução no meio do caminho, mas nem vou encrencar com isso agora. Quem está contando essa história pode ou não querer que eu resolva o enigma apresentado por ele antes que a própria história apresente a solução. Em qualquer caso, estou sujeito à percepção dele sobre como contar uma história de mistério com pistas para me ajudar a resolver o caso por conta própria. Superadas todas as barreiras externas, estou sujeito às minhas limitações pessoais. Eu posso não perceber alguma coisa, mesmo me esforçando. Talvez eu tenha espirrado em um momento crucial (improvável, eu sou bastante chato e se algo me faz desviar da tela por qualquer razão, em qualquer anime, eu volto até antes da cena). Sono pode ter atrapalhado? Talvez eu não tenha ouvido direito alguma coisa?

E mesmo depois disso, eu ainda não posso confiar na minha percepção porque ela é uma montagem artificial que meu cérebro faz com os dados que recebe. E não estou falando apenas de imperfeições da máquina biológica, porque além disso o cérebro ativamente modifica informações! Mais um exemplo sobre esquisitice cerebral: o mundo que você está vendo é o passado. Sempre o passado. Seu cérebro segura todas as percepções algumas frações de segundo, para montar uma sensação de instante único para todo o corpo. Você sabe, informação demora para viajar. O tato no dedão do seu pé demora mais para chegar ao seu cérebro do que um gosto ou cheiro que esteja sentindo. Então o cérebro atrasa a percepção consciente das sensações para sincronizá-las. Vivemos eternamente no passado por causa disso.

A Shiki era doida de linguiça

A Shiki era doida de linguiça

Estou enrolando e não falei nada sobre o episódio ainda? De jeito nenhum, isso é só impressão sua! Estou tentando ser engraçado, claro. Percepção é um tema importante nesse anime. Em nenhum momento alguém chegou e disse “ei, a Moe e a Shiki são parecidas, né?” (quero dizer, eu disse, em vários artigos, mas estou falando do anime, se concentre no anime), mas a forma como o anime foi editado criou um paralelo poderoso entre as duas desde o começo. Criou a impressão, a sensação de que elas são parecidas, ainda que sejam completamente diferentes. A percepção da Moe provavelmente está nublando sua capacidade de interpretação também, por questões pessoais que ela teve a oportunidade de esclarecer um pouco melhor nesse episódio. O professor Souhei, por outro lado, sempre foi retratado como alguém tão rigorosamente lógico que sua interpretação parecia ser infalível. E não apenas isso é impossível como também a máscara robótica que ele veste começou a rachar.

Os pais da Moe morreram em um acidente de avião no aeroporto, ela viu o acidente ocorrer, ela identificou os corpos dos pais, e o Souhei esteve presente com ela o tempo todo. Por que ela não se lembrava que ele estava com ela? Não apenas não se lembrava, como sustentava que esteve sozinha durante todo aquele momento de aperto. É fácil associar essa sensação de abandono que ela tinha com relação ao passado com a rejeição que ela sofre do Souhei no presente, mas provavelmente é algo muito mais complicado do que isso. E lembra como ela disse que de início não gostava dele, apaixonando-se depois? Talvez esse “depois” refira-se exatamente a “depois da morte dos pais”. Mesmo assim, por que esquecer que ele esteve com ela?

Moe não está feliz por ter descoberto a verdade?

Moe não está feliz por ter descoberto a verdade?

Aliás, uma coisa muito louca aconteceu depois que eu assisti esse episódio de Perfect Insider. Eu publiquei uma galeria de imagens no Imgur, dizendo apenas o anime, sem maiores legendas, e algumas pessoas começaram a comentar associando aquelas imagens à pedofilia. Foram poucos comentários, mas acredito que a maioria que viu tenha entendido dessa forma porque a galeria acabou com uma votação negativa. Eu entendo mais ou menos: a penúltima imagem é da Moe jogada na cama de qualquer jeito. A última é do Souhei com expressão triste. Há outras da Moe lavando o vestido desesperadamente na pia do banheiro. Definitivamente essa sequência de imagens poderia ser facilmente interpretada como pedofilia. Mas e o desastre de avião logo antes? Ele simplesmente não faz sentido, não tem lugar nessa história. Só que, sem o detalhe do sangue do Souhei sujando o vestido da Moe, também não faz muito sentido ela tentar lavá-lo na pia. Entre duas histórias com pedaços faltando, a maioria das pessoas escolheu a mais ultrajante – e errada. O cérebro delas simplesmente preencheu os vazios dessa forma. Quem garante que o meu cérebro não está entendendo tudo errado a história do anime também?

Mas esse episódio foi um pouco ultrajante mesmo, não foi? Tanto a sequência da programadora tentando se insinuar para cima da Moe quanto a conversação em “engrish” do Souhei com a Miki foram de desejar nunca ter nascido. A primeira por escolha de conteúdo, a segunda por escolha de forma. Eu me diverti ligeiramente com as cenas digitais da Moe, mas sei que também houve quem não tenha gostado. De todo modo, tudo isso teve propósito. A conversa do Souhei com a Miki foi em praticamente tudo inútil, sendo para mim a parte mais importante daquela cena o momento onde é revelado que o diário que aparece no começo do primeiro episódio e que supostamente pertence ao narrador, que pela história que ele conta deve ser o diretor, está com a Miki. E a programadora agora tem um pouco de personalidade (ainda que seja uma personalidade ruim; a Shiki acabou de morrer, mulher! ninguém ali parece se importar com isso, credo), e a usou para forçar a Moe dentro da máquina de projetar desejos lucidamente onde ela se encontrou com uma das personalidades da Shiki.

Uma preocupação ou uma ameaça?

Uma preocupação ou uma ameaça?

O diário: será que ele era mesmo do diretor? Como eu já disse, dado o conteúdo da narração, tudo leva a crer que sim. Mas o diretor morreu e a narração continuou. Será que o diário era de outra pessoa então? Ou será que outra pessoa se apossou do diário e o está lendo desde o começo, e é isso que o anime está transmitindo como narração? Essa pessoa, forçoso seria concluir, é a Miki. E meio que faz sentido, não é? A Miki “esqueceu” a bolsa no helicóptero, voltou para buscá-la, subiu no veículo atrás do diretor, que achou tudo muito normal (e era, a bolsa dela estava ali), e ela o matou. Mas precisou sumir com a bolsa depois porque ninguém poderia saber que ela havia subido novamente no telhado, eis que isso a transformaria na principal suspeita pelo assassinato. Por que ela faria tudo isso? Porque teve acesso ao diário e descobriu sobre o envolvimento do diretor na morte de seus pais. Shiki o alertou: provavelmente um dia alguém virá nos matar. Ainda não sei, contudo, quem matou a Shiki, como e por quê. Talvez tenha sido mesmo o diretor. Talvez a Miki o tenha seduzido? Lendo o diário ela certamente saberia como fazê-lo, e contava com semelhança física com sua irmã para ajudar nisso. “Mate ela e viva comigo”, Miki poderia ter dito. Hipóteses mais loucas que leio por aí dizem que a Miki é a Shiki, e o cadáver seria de uma filha da Shiki (hipótese que continuo não gostando).

Encerro comentando os pesadelos da Moe. O que ela viveu nesse episódio e o que ela viveu anos atrás, quando seus pais morreram. Por que Souhei se tornou tão próximo deles mesmo, em primeiro lugar? Eles eram pesquisadores como ele? Não lembro se o anime revelou a profissão deles. Será que ele é parente da Moe, em algum grau…? Ela nem se lembrava que ele esteve com ela, poderia ter esquecido de algo assim também. Talvez o tenha odiado (e esquecido) porque ela deveria estar no mesmo vôo que os pais mas não estava por causa dele. Ou talvez ele devesse estar naquele vôo, mas seus pais trocaram de lugar. De todo modo, ela encontrou essa verdade em sua própria memória. A máquina é capaz disso, se é capaz de projetar pensamentos e desejos (é uma máquina perigosa para pessoas em estado emocional instável e provavelmente para qualquer um sem treinamento ou preparo adequado; ela deveria ter estágios de imersão para ser mais segura). E ela viu Shiki, se apresentando como Michiru. Me parece fazer sentido para alguém que supostamente via o corpo físico como uma limitação transportar-se para uma inteligência artificial. Na verdade, eu já havia pensado nisso vários episódios atrás, mas simplesmente não havia evidência alguma. Ao mesmo tempo, as mensagens no computador da Shiki diziam que a Michiru ficara para trás, embora fosse quem mais quisesse sair. O robô porteiro também se chama Michiru, mas ele não parece ser sofisticado o suficiente para ter desejos. Faz muito sentido que a Michiru Inteligência Artificial seja a Michiru que Ficou para Trás. Mas não posso ignorar a hipótese daquela Michiru ter sido uma projeção criada pela própria Moe, dado que emulou a conversa que as duas tiveram e revolveu ao redor de temas que a incomodavam desde então. É ainda perfeitamente possível que Shiki já estivesse morta e desde a primeira vez que a Moe conversou com ela, e o que ela viu já fosse, naquela ocasião, a “Michiru”. E você, o que acha de tudo isso?

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