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Uau. Fazia tempo que eu não tinha um bloqueio desses. O artigo está atrasadíssimo, o próximo episódio sai no mesmo dia em que ele está indo para o ar, e francamente eu ainda não me sinto seguro para escrevê-lo, mas tem que sair.

Graças em grande parte à animação horrorosa que esse episódio teve (vou dar alguns exemplos nas imagens do artigo), o que é irônico quando considera-se que ele lidou com o tema “arte”, mas também por causa das histórias não muito inspiradas (principalmente depois do incrível episódio 11), considero esse o pior episódio do anime até agora. Mas não foi por isso que eu não consegui escrever o artigo antes; já escrevi sobre episódios piores de animes piores. Uma coisa boa de episódios ruins é que eles permitem bastante liberdade em seus artigos – posso esculhambá-los, posso me limitar a listar seus problemas, ou posso até escrever sobre qualquer coisa que me der na telha com pouca ou nenhuma relação com o episódio. Arte é, hoje, um tema quente no Brasil. Acho que nem escolhas políticas (e nem falo dos escândalos, falo da política honesta, do dia a dia) que o país costuma fazer jamais me deixaram tão triste. Cultura importa.

E vem esse maldito episódio falar de arte? Um presente de Deus ou do Diabo? Como se eu acreditasse em algo assim para poder me confortar com isso. Quero escrever sobre o episódio, mesmo ele tendo sido medíocre. Quero aproveitar a deixa que ele me deu para dizer uma coisa ou duas que eu penso a respeito de arte e que tem a ver com a gritaria que varreu a internet como fogo e enxofre. E fazer tudo isso sem ficar político demais ou fugindo demais do episódio. Foi isso o que amarrou minhas mãos por dias. Não sei se consegui. Leia e me julgue, por favor.

Chama a ambulância! Pela cara, a Manami tá tendo um derrame!!!

Nesse décimo episódio de Centaur no Nayami as duas esquetes são histórias paralelas que se cruzam durante a parte mais importante delas: a visita a um museu de arte. Sassassul foi ao museu com um colega de classe e foi perseguida por Hime, Kyouko e Nozomi. Do outro lado, Manami sai com uma colega de classe chamada Omaki para visitar esse mesmo museu. A primeira história foi boba e serviu para a maioria das piadas do episódio: a tensão enquanto Sassassul e seu colega passavam em frente a um motel (e tinha uma piada extra no mangá com os nomes dos motéis), a Kyouko ficando frustrada porque a Sassassul não entrou no motel, a quantidade absurda de grupos de inteligência perseguindo a garota – e a preocupação de uma funcionária do governo japonês de que Hime e companhia fossem terroristas, e as principais, a Hime admitindo sem querer no final do episódio que estava seguindo a Sassassul e a antártica dizendo que já sabia que estava sendo seguida.

A segunda metade teve outras dimensões bem mais interessantes, como quase sempre é o caso quando a representante de classe está envolvida. O anime não deixou muito claro, mas todo o esforço da Manami (inclusive financeiro, comprando o livro oficial da exposição – essas coisas são caras!) só pode significar que ela não estava no museu apenas à passeio: ela foi lá estudar artes plásticas para ver se poderia, de alguma forma, ajudar seu pai. Ou entendê-lo melhor, não sei. A Omaki, por sua vez, gosta de verdade da amiga (romanticamente falando) e a acompanhou com prazer, e até tentou dar conselhos úteis no final. Será o sentimento recíproco? Quando uma colega de escola reclamou para a Manami que eles são, enfim, apenas adolescentes, ela ficou irritada e deu uma resposta atravessada para a garota. A Omaki disse essencialmente a mesma coisa e ela parece ter aceitado bem melhor. Bom, elas são amigas de infância de todo modo, suponho que isso ajude também.

Mas pobre Manami, não poderá ajudar em nada o seu pai. Ele gosta de pintar quadros fotorrealistas mas o mercado de arte não tem lugar para isso. Como a breve aula de história da arte dada durante o episódio deixou claro, a máquina fotográfica tornou a pintura fotorrealista obsoleta. Como o episódio não deixou claro, os artistas hoje em dia não estão buscando fazer coisas cada vez mais estranhas. Se a realidade conforme a vemos pode ser perfeitamente capturada por uma máquina, a arte deve então capturar outros detalhes da realidade, ou mesmo outras realidades. É daí que surgem obras abstratas que exploram apenas as cores ou apenas as formas. Ou movimentos como o surrealismo, que explora o mundo onírico, e o cubismo, que distorce a percepção para que o objeto da arte seja observado simultaneamente por mais de um ponto de vista. E eu poderia continuar listando e listando, mas acho que já entendemos que a arte não degenerou ou estagnou, e sim que ela evoluiu, e por isso não vemos mais coisas como a Monalisa ou A Criação de Adão. É por isso que os artistas hoje não pintam como Rembrandt ou Velázquez – para o desespero de Manami e o infortúnio de seu pai.

Ele pinta apenas porque ele gosta de pintar. E pinta apenas aquilo que ele quer pintar. Como bem lembrou a Omaki, se ele trabalhasse por comissão (pintando o que os outros pedem), poderia muito bem viver como ilustrador. Mas não só esse é um caminho difícil de todo modo (se você for ilustrador e estiver lendo esse artigo, não me deixe mentir, manifeste-se!) como, mesmo se ele estivesse disposto a tanto, não é como se sua técnica fosse das melhores. Tem muita gente que faz melhor e mais rápido que ele – e que provavelmente cobra mais barato porque não precisa sustentar uma família com isso. Fazer arte para vender é tão válido quanto fazer para si mesmo. Bem como por qualquer outro motivo: Picasso pintou Guernica para denunciar o crime de guerra cometido por alemães e italianos a pedido do fascismo espanhol. Artemisia Gentileschi, uma artista barroca, pintou várias telas ilustrando casos históricos ou mitológicos de estupro como forma de lidar com o fato dela própria ter sido estuprada. Nenhuma obra é mais ou menos arte a depender dos motivos e das circunstâncias de sua produção.

Esse frame parece fanart mal feita, olha pra Manami…

Eu queria ter feito ainda outro artigo, uma galeria com as obras de arte reais referenciadas nesse episódio, mas só consegui identificar O Nascimento de Vênus (Botticelli, 1483), A Noite Estrelada (Van Gogh, 1889), Les Demoiselles d’Avignon (Picasso, 1907) e Composição 8 (Kandinsky, 1923). Se tiver reconhecido mais alguma, diga nos comentários!

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