Bom dia!

Na reta final, Girls’ Last Tour decide ampliar seu universo, revelar fragmentos da história de seu mundo, impressionar com os artefatos ainda ativos das civilizações desaparecidas.

Mas continua eminentemente reflexivo e simbólico.

Robert Oppenheimer, diretor do Projeto Manhattan, que criaria as primeiras bombas atômicas, teria pronunciado o título desse artigo após testemunhar a primeira detonação de uma arma nuclear:

Agora eu me torno a morte, o destruidor de mundos.

Um dos criadores da arma mais mortal da humanidade vacilou. Aquilo que estavam fazendo era mesmo certo? A guerra então já estava em seus estertores. A guerra na Europa já havia acabado, e um mês antes os EUA haviam capturado Okinawa. A derrota japonesa era apenas questão de tempo. A necessidade dos bombardeios nucleares é um tema quente até hoje. Não é à toa que Oppenheimer tenha hesitado.

Mas guerras não trazem respostas e história alternativa não existe. Foi certo? Foi errado? Os bombardeios nucleares não foram totalmente sem razão, a alternativa era a invasão, que poderia muito bem levar a um número muito maior de mortes, inclusive de civis, e provavelmente a União Soviética teria participado também e tomado Hokkaido. O Japão e o mundo seriam outros, inimagináveis hoje. Foi certo? Foi errado?

E adivinhe só o que apareceu no final desse episódio?

De maneira similar, nunca saberemos se a grande guerra que ocorreu em algum momento séculos atrás em Girls’ Last Tour foi “certa” ou “errada”. Não se sabe sequer por que ela aconteceu ou quem foram os beligerantes. Sabe-se, porém, que eles usaram armas de destruição em massa. Chito e Yuuri encontraram uma dessas ainda operante – um robô gigante com mísseis e laser de alta potência. Com seu jeito Yuuri de ser, a batata mais sem noção da temporada disparou um míssil, e empolgada com a explosão, contrariou a Chito para disparar o laser em seguida. A cidade ardeu em chamas.

Não havia ninguém na cidade (até onde se sabe), então não é a mesma coisa que disparar contra exércitos inimigos ou áreas populadas, mas a magnitude da destruição foi tamanha que provocou reações diferentes nas duas garotas, e fez refletir sobre o que um dia aconteceu ali, sobre o horror que devastou um mundo até então pujante e avançado como nós espectadores e como elas sobreviventes do pós-apocalipse jamais experimentaremos. A Chito ficou chocada e a Yuuri riu.

Considerando o que conhecemos sobre ela, é fácil supôr que tenha rido de gozo, mas dada tão extraordinária situação pode ter sido simplesmente uma reação instintiva, involuntária, impensada. A Chito com efeito enfiou um pouco de razão à força na cara da amiga e companheira, com o soco mais sério do que todos os que já deu nela até agora (e olhe que a Yuuri já a ameaçou na mira do rifle), que foi respondido com a expressão mais triste que a Yuuri já fez até agora no anime e um pedido de desculpas.

Quem não aprende do jeito fácil, tem que aprender do jeito difícil

A citação de Oppenheimer não foi inventada na hora. Ao invés, é uma versão de um trecho do verso 32 do capítulo 11 do Baghavad Gita, um poema épico em sânscrito e dos textos mais importantes do hinduísmo. O protagonista dela é Arjuna, que em meio a uma guerra conversa com Krishna, o deus encarnado e seu guia, sobre seus dilemas morais. Krishna responde as dúvidas de Arjuna em 18 capítulos e cerca de 700 versos.

Por que escrever um livro sagrado que se passe durante uma guerra? Não se pode descartar o significado literal, o de que o Baghavad Gita seria mesmo uma exortação ao ideal guerreiro, ao heroísmo, ao dever de matar pelo que é certo. Mas outras interpretações dizem que a guerra de Arjuna não era real, mas metafórica. Era um tumulto interior. Krishna, com efeito, ensinou-lhe diversos pilares morais e de fé, aplicáveis para muito além do campo de batalha.

Assim também é com Girls’ Last Tour. Enquanto o anime, e esse episódio em particular, pode ser uma crítica à guerra, também pode ser visto como uma alegoria para a moral individual. Isso estaria em linha com o significado altamente simbólico dos episódios anteriores e daria relevo muito especial para a cena em que Chito soca Yuuri: foi um “ensinamento”. Lembre-se que, se a estranha criatura que passou as acompanhar era considerada uma divindade por civilizações antigas, como a própria Chito especulou, no grande templo que visitaram a principal deusa não era uma criatura-salsicha, mas uma garota – e uma muito parecida com a Chito, como a própria Yuuri disse no ato. Chito estaria para Yuuri como Krishna para Arjuna. Ambos trazem o conhecimento, e ambos guiam – Chito dirige o Kettenkrad, e Krishna era o carroceiro que transportava Arjuna.

Enquanto Chito estiver olhando para frente, a guiando, Yuuri continuará segura

Por fim e não menos importante, o contexto em que a frase-título é citada no Baghavad Gita (adaptação minha do verso 32 do capítulo 11):

O Deus Supremo disse: Eu sou o Todo-Poderoso Tempo, o destruidor de mundos. Mesmo sem a sua (de Arjuna) participação, todos os guerreiros alinhados no exército inimigo hão de deixar de existir.

O “destruidor de mundos” do Baghavad Gita não é outro senão o próprio tempo. Dado tempo suficiente, tudo há de cessar de existir um dia. A vida é finita, a humanidade é finita, o mundo é finito. A infinitude do tempo tudo consome e tudo destrói.

Seria isso um consolo para nossas heroínas e para nós, que estamos assistindo Girls’ Last Tour? Não importa o quê, com justiça ou sem justiça, com guerras ou sem guerras, com armas de destruição em massa ou sem, o mundo há de acabar. Em escala cósmica, o apocalipse não é uma probabilidade, mas uma certeza. Ainda assim Krishna ensina a Arjuna o que é certo e o que é errado. Ainda assim se espera que as pessoas façam o que é certo. Seja você religioso ou não, a importante lição é que ainda que a morte seja inevitável, apenas uma vida moral conduz ao bom final.

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