A fantasia chegou a Amanchu! pelos sonhos de Teko nos episódios 4 e 6 desta temporada. Teko, a sonhadora profissional, compartilhou um espaço imaginário com uma menina em um café (ambas despertam na cafeteria após voarem em vassouras até o Vale das Cerejeiras) e com Pikari em uma casa de banho, um conto de príncipe e princesa. Um sonho sonhado juntos. No episódio 7, surge o fantástico confrontando a realidade, criando um clima de impossibilidade, marcando um novo arco, o de Peter, um garoto que anda pelos corredores da Escola Yumegaoka procurando quem deseje eternizar um evento, viver para sempre em um momento de felicidade.

O episódio anterior com Mato-sensei perguntando-se quando ela perdeu o poder de acreditar em magia, de encontrar o maravilhoso nas coisas prepara o terreno para o arco Peter Pan. O clima de fantasia e de mistério que envolvem o episódio coloca no centro a professora Mato Katori e Ai Ninomiya-senpai (Ane-chan), na noite anterior do Festival Cultural, com a preparação dos eventos de cada uma das turmas e com os professores inspecionando os trabalhos e cuidando da segurança dos alunos.

O olhar compenetrado de Mato-sensei: o perigo está à espreita.

Katori-sensei está em alerta, desde o início do episódio, para o aparecimento de Peter e para confrontá-lo. Ane-chan se mostra encantada com o ambiente pré-festival, como um momento especial. Teko percebe a atmosfera de magia, de uma quebra no cotidiano da escola, que, sempre diurna, abre-se para os alunos naquela noite única que antecede o Festival Cultural. Teko e Pikari são coadjuvantes de luxo no episódio, mas preocupadas em vender caixas de suco para um mosaico e “ajudar” a identificar o clima de fantasia (de sensação de um outro mundo) que a escola ganha nesse evento.

O inevitável Festival Cultural: a alegria de Ane-chan, Pikari e Teko.

O encontro de Ane-chan e Peter tem contornos de uma ambientação romântica. Nos 12 episódios da primeira temporada e nos seis da seção dois, apenas uma vez Ai Ninomiya aproximou-se do prelúdio do amor. Mas tudo não passou de um engano, de uma carta deixada no armário errado. Desta vez, após ser salva por Peter de um tombo dos degraus do último piso da escola, Ane-chan, como agradecimento, deixasse levar pelo rapaz pelos corredores do estabelecimento de ensino, observando-o ao mesmo tempo a movimentação de alunos e um cenário feito de sombras e escuridão, como se estivesse adentrado um mundo paralelo. A determinação sedutora de Peter (que é, na verdade, bastante impositivo apesar de carismático) e a atmosfera misteriosa vão encantando Ane-chan. A quebra da normalidade, o que faz da situação algo fascinante, a faz desejar que aquela noite não se finde. Por um momento, sua sensatez a traz de volta, decepcionando Peter. No entanto, a reação do garoto a sua negativa (Ai, no fundo, sabe que o fato de que tudo começara novamente é que fazem dos momentos especiais) a faz recuar e se deixar conduzir novamente por Peter. Antes de cruzar a linha entre o tempo contínuo e o momento eternizado, Ai é impedida por Mato-sensei, que mais uma vez defronta Peter (encontro que ocorreu quando Mato era estudante do ensino médio), aquele que não quer crescer.

Peter, o fantasma dos momentos inesquecíveis.

Amanchu! é um slice of life que se concentra na amizade entre Pikari e Teko e na superação das incertezas e temores de Teko, com o mergulho como pano de fundo. A fantasia surge e suscita dúvidas, principalmente em relação ao quanto a imersão no imaginário contribuirá para as resoluções dos conflitos internos de Teko e a consolidação de seu sonho de ser a buddy – parceira de mergulho – de Pikari. Os sonhos lúcidos de Teko ainda mantêm uma restrição à fantasia, isto é, ele pertence à imaginação, à mente sem irradiação na realidade. Com o aparecimento do sobrenatural (Peter, tudo indica, é uma manifestação maliciosa, travessa), a pergunta que pode ser estabelecida é: o que significa para o cotidiano de Amanchu!? O sobrenatural é a ruptura da estabilidade do mundo natural, promovido por algo inexplicável, extraordinário, e o arco Peter simboliza o desafio à lógica, à racionalidade, portanto o quanto a desconstrução do mundo verossímil pelo fantástico na figura de Peter e do passado que retorna de Mato-sensei irá agregar ao universo interno de Amanchu! é uma questão a se descobrir nos episódios seguintes, o oitavo e o nono. No entanto, Amanchu! pode hesitar entre os dois e manter presente o fantástico. Ai não chega a contestar a afirmação do sobrenatural por Mato-sensei. Como postula o ensaísta e músico cubano Alejo Carpentier, “o insólito é cotidiano”.

Ane-chan prestes a entrar em um mundo paralelo. Quem quer viver em um momento sublime eternamente?

Mato-sensei e Ane-chan são personagens queridas, daquelas que despertam a vontade de saber mais a respeito e que seus arcos floresçam, porém, Amanchu! é uma série mundana e linear, isto é, aposta no desenvolvimento de suas duas protagonistas (e com elas, os episódios são mais divertidos e/ou instigantes), por isso o fantástico envolvendo outros personagens traz a sensação de uma falta de preparação para que o atual estado de coisas sejam aceitas sem parecer deslocado/forçado.

Mato-sensei encarando seu passado para salvar Ane-chan.

Uma das saídas possíveis para essa impressão é entender que o sonho, a fantasia, seja um território para fortalecer Teko e que o maravilhoso a ajude a firmar seus passos na realidade. E a segunda é que faz sentido um arco como o de Peter (Pan), porque, além da diversão e da superação de medos e limites, Amanchu! trata de formação de memórias, que vem justamente de toda a diversão que é possível conquistar na vida. Então, em um tempo suspenso, o valor das memórias encerraria em si mesma, e o que há de grandioso a respeito de passatempos (e de realizações) são seus desdobramentos, como eles nos movem no tempo contínuo. Peter, e seu desejo de viver em um momento inolvidável de diversão, é uma lembrança de que apenas em um tempo que encontra seu amanhã, as memórias se efetivam como algo único, capaz de eternizar os vínculos construídos na alegria – e, claro, também na tristeza. Quando o sol se põe, anuncia-se que mais um dia para nos divertir nasceu, uma nova chance ou a permanência do que nos faz feliz.

Os desafios de e para Amanchu! estão lançados. A série continua agradável. A presença de Towano-sensei agrega algo ao mistério, pois ele aparenta ter alguma relação com Peter, e ao demonstrar ter interesse em Mato-sensei pode acrescentar o elemento romance ao anime.

A atmosfera fantástica está muito bem construída no episódio, com uma bela animação e trilha sonora envolvente. E conhecer o passado de Mato-sensei e suas possíveis conexões com os sonhos lúcidos de Teko podem ser uma viagem interessante.

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