O episódio final de Amanchu! Advance é um impressionante lembrete de como a série (especialmente, a primeira temporada) é comovente, divertida e uma celebração à vida. Mesmo com as polêmicas sobre “isca yuri” e episódios em que a fantasia (de modo repentino e deslocado) se sobrepôs à realidade, o anime consegue entregar sua última pérola, ao apresentar que invariavelmente na vida nem sempre nos sentiremos confortáveis com quem somos, pois existir é uma batalha constante de altos e baixos, mas é justamente isso que nos guia à incrível possibilidade de criarmos memórias inesquecíveis com aqueles que nos acompanham. E algo a se destacar: do primeiro ao último segundo do episódio, Teko e Pikari reinam absolutas, em uma fina sintonia. Realmente, é a elas que Amanchu! pertence.

Mês de março no Japão: tempo de mudança de estação, dos plânctons e de um novo ano letivo. O velho e bom ciclo de novidades e também de renovação. Para Teko, é tempo de obter sua licença avançada, concluir o curso de mergulho em águas profundas e escolher um curso optativo para finalizar as exigências. Aí, definitivamente (de modo oficial), ela será a parceira de mergulho de Pikari. Um objetivo que a garota persegue, pode-se dizer, desde a primeira temporada. E o episódio 12 apresenta Teko enfrentando um dos desafios mais temíveis para ela, o do mergulho noturno. O escritor estadunidense Mark Twain, autor de As Aventuras de Huckleberry Finn (1884), disse que “Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo”, e Teko sempre foi uma resistente, lidando com os seus medos, um sentimento de inadequação e com receio de se expor, mas seguindo em frente, independentemente do tombo.

De etapa em etapa, desafio a desafio, Teko adquire confiança para encarar o mergulho noturno.

O episódio ainda traz momentos de sabedoria de Mato Katori, comprovando o quanto ela é uma professora dedicada e uma pessoa notável, o que torna mais evidente que a personagem merecia algo mais substancial, real nesta temporada e não o arco Peter, que ainda envolveu Ai em uma história de amor originada no mundo dos sonhos que não deixou lastro algum para sua exploração fora do imaginário.

Além de Katori-sensei, Pikari, Ai e Makoto, que são do clube de mergulho, marcam presença no teste final de Teko, o famigerado mergulho noturno, Kokoro, Kotori, Kino e Kodama, convocados por Pikari para torcer pela amiga. Esse gesto, típico de Pikari, reforça como elas vibram em harmonia, algo que fica evidente nas profundezas do oceano, como olhos e sentimentos se comunicam, com elas compreendendo exatamente as sensações e palavras para descrever a beleza do momento num simples gesto ou expressão do rosto.

Aquele momento em que a professora tem certeza que escolheu o caminho certo na vida. Fazer a diferença!

Algo importante no episódio é o reconhecimento por parte de Teko que a vida é um ciclo, e que, quando se trata de emoções, não é o equilíbrio que prevalece (uma espécie de meio-termo), mas uma sucessão de alegrias e tristeza. As aventuras com Pikari, toda a diversão que tiveram, foram marcadas já pelo seu fim, pela saudade que deixariam assim que acabassem. No entanto, esse é o movimento natural da vida, por isso o ser humano tem a faculdade de recordar os fatos que o impressionam e as sensações que lhe preenchem. Criar diversão e dessa diversão produzir memórias. Um fundamento que Pikari seguiu à risca até o último episódio.

Sobre Kokoro, é evidente que o menino tem uma paixonite por uma garota mais velha que ele (para ser exato, quatro anos), mas a respeito dos sentimentos de Pikari, o que pode ser depreendido é um deslumbramento, encantamento por alguém que exalava uma fofura particular, entre desajeitado (ou desajeitada, já que Pikari, ele era uma menina), convicto de seus pensamentos e meio-tsundere. Só que depois dela tomar conhecimento da verdadeira identidade de Kokoro, o garoto mal tem tempo em cena. E fora Pikari definir como uma feliz descoberta a revelação do mal-entendido, nada mais ocorre em relação a esse fato. Considerar Pikari uma shotacon é demasiado exagerado. Enfim, Kokoro tem pouca relevância no enredo (a não ser ao que tange a surpresa de seu gênero e a confusão de quem o percebia como um tomboy). A sua aparição é pouco produtiva, mas não atinge o ponto de ser um equívoco completo.

Retornando ao episódio, ele se centra no que faz de Amanchu! um slice of life bonito e relaxante, a história girando em torno de duas garotas que fortalecem seu laço de amizade, com um drama que favorece o desenvolvimento de suas protagonistas e momentos de diversão, seja com mergulho ou não.

De bruxa, em sonho lúcido, à mergulhadora na realidade: as facetas de Teko que impressionam Kotori-chan.

Os passos de Teko para conquistar autoconfiança e ser mais independente ao mesmo tempo em que torna sua amizade com Pikari mais estável e íntima, encontra no mergulho noturno – algo que expôs toda a fragilidade de Teko no episódio 3, mas também o vigoroso incômodo que ela sente quando se sente incapaz de realizar uma atividade – seu obstáculo derradeiro. Não que novas aventuras e desventuras não estivessem/estejam no caminho de Teko e Pikari (não há qualquer indicação de uma terceira temporada), já que as vemos ainda mergulhar após o triunfo e obtenção de Teko de sua licença avançada, porém esse era o medo mais profundo manifesto pela garota em sua jornada para ser parceira de Pikari. O episódio consagra sua batalha, sem deixar de revelar que a animação de Teko estará sempre acompanhada por uma tristeza vaga. Contudo, tal sensação não será um impeditivo para a realização de seus desejos e projetos.

A beleza do mergulho noturno. Mais um momento emocionante para Teko e Pikari.

A beleza dos plânctons em uma dança ritmada pelos corpos dos membros do clube de mergulho é um dos belos momentos desta temporada. Confirma o cuidado da produção em proporcionar uma experiência fascinante ao público.

Não se pode deixar de mencionar a cena final de Teko e Pikari lendo a carta de agradecimento que escreveram uma para a outra, que é cativante e terna, o desfecho ideal para dar dimensão da amizade entre elas, de aceitação do outro e de si mesmo. De uma jovem que acolhe uma garota que lida com a ansiedade, a solidão (depois de se separar de suas duas melhores amigas em Tóquio) e falta de confiança, e de uma garota que não se importa com a estranheza e entusiasmo de uma jovem (motivos que fazem algumas pessoas se afastarem dela) e se entrega às diversões que ela propõe.

Teko e Pikari em momento íntimo de agradecimento por estarem uma na vida da outra.

Pikari, a profissional em diversão, e Teko, a especialista em diversão, estão em estado de graça nesta última aventura (mais uma maravilhava para a coleção). Pena que os desvios da temporada deixam um gosto agridoce após os 23 minutos de episódio.

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