Bom dia!

Nana é um anime baseado em mangá de mesmo nome, de autoria de Ai Yazawa. O mangá foi publicado entre 2000 e 2009, quando entrou em hiato por problemas de saúde da mangaká. O anime foi transmitido entre 2006 e 2007, contando com 47 episódios.

A franquia conta também com dois filmes live action, tendo o primeiro sido lançado em 2005 e o segundo, continuação desse, em 2006.

Nana é um drama, com romance, alguma comédia, um slice of life muito verossímil (realista mesmo, talvez), e boas músicas. Menos do que eu esperava para uma história em que uma das protagonistas é uma cantora de punk rock tentando alcançar o estrelato, mas o bastante para merecer a menção. Aberturas e encerramentos em particular são incríveis.

Mais do que tudo, porém, Nana é uma história de amor.

 

O primeiro encontro entre as Nanas, no trem a caminho de Tóquio

 

Nana Komatsu é uma garota normal, de uma família normal. Sem sonhos ou aspirações em particular, ela apenas vive seus dias felizes com seus amigos em sua cidade-natal. Até que seu namorado decide ir estudar em Tóquio e ela fica para trás porque ela não passou na faculdade e seus pais não querem pagar um cursinho para ela.

Impulsiva, gostaria de ter ido mesmo assim e desbravar a metrópole por conta própria, mas Shouji, seu namorado, a impediu, sabendo que sem dinheiro ela teria imensa dificuldade para conseguir se virar e ele, ainda estudando para a faculdade, não teria tempo nem dinheiro para ajudá-la.

Nana Osaki foi abandonada por sua mãe aos 4 anos de idade para viver com sua avó, que sempre foi dura com ela. Sempre foi solitária, mais ainda após os 15 anos, quando sua avó morreu. Após muita insistência de seu primeiro e único amigo, vai a um show de punk de uma banda local e gosta. Mais do que gosta, se apaixona por Ren, o baixista. Acaba se tornando a vocalista da banda e vai morar junto com seu, agora, namorado.

Ren acaba indo para outra banda que estava estreando profissionalmente em Tóquio. Gostaria de ter levado ela também mas não quis forçá-la. Por seu orgulho como cantora, ela não vai. Anos depois, vai para Tóquio sozinha, com a intenção de se tornar profissional e também viver de sua música.

 

Nana e Nana em seu primeiro dia no apartamento que alugaram

 

Isso são só os flashbacks das protagonistas, suas histórias antes da história começar, que o anime toma seu tempo para contar – dos episódios 2 ao 5. Não é um começo exatamente empolgante, mas é um começo importante.

As duas Nanas, que de igual só tem o nome, a idade e o desejo de ir para Tóquio, se encontram por acaso no trem que as leva em direção ao seu destino. E quis o destino que, mais uma vez, elas se encontrassem por acaso enquanto procuravam um apartamento na cidade grande. Decidem morar juntas.

A primeira metade do anime faz um trabalho excepcional em destacar as diferenças entre suas duas protagonistas. Duas pessoas diferentes que se encontraram por acaso sim, mas que se uniram por uma atração irresistível que a personalidade de uma provocou na outra.

Para conveniência do expectador, Nana, a cantora punk, logo apelida Nana, a mulher comum, de Hachiko, abreviado no mais das vezes para Hachi. É um trocadilho com seus nomes: Nana soa como o número sete em japonês, e oito lê-se hachi. E é também uma brincadeira com sua personalidade prestativa e deslumbrada, como se fosse um cachorrinho (Hachiko é um nome comum para cães em japonês).

Exceto quando estiver explícito que não é o caso, pois, chamarei Nana Osaki apenas de Nana e Nana Komatsu de Hachi nesse artigo, como o próprio anime faz a maior parte do tempo.

 

Nana (Hachi) e Shouji a frente, Kyosuke e Junko atrás da mesa, nos dias simples e felizes no interior

 

Enquanto Nana lentamente reconstrói sua banda em Tóquio, Hachi é o foco do anime em sua primeira metade. Tudo o que ela queria era viver com seu namorado de novo, e perto de seus amigos Junko (de quem é amiga há muitos anos) e Kyosuke, como nos velhos tempos. E tecnicamente ela agora tem tudo isso. Fim da história?

A história da Hachi é uma muito fácil de se compreender. Talvez nem todo mundo tenha passado por essa fase no começo da vida adulta, mas ela é muito comum, na qual tudo o que mais queremos é voltar, de alguma forma, para os anos dourados da nossa vida tranquila na adolescência.

Hachi, como todos os demais personagens do anime na verdade, é uma pessoa cheia de defeitos, e não são poucas as vezes em que é possível saber com dolorosa antecedência que ela está cometendo um erro ou vai cometer um erro. Seus erros podem dar raiva nalgumas ocasiões, mas ela mais do que compensa com sua simpatia e honestidade.

Com Shouji, seu namorado, estudando duro na faculdade e ainda trabalhando para completar a renda, Hachi e ele têm pouco tempo juntos, e por consequência eles se tornam cada vez mais distantes até que o relacionamento estava por um fio. Ainda que continue a amando, manter a impulsiva e auto-centrada Hachi se torna psicologicamente cansativo para Shouji.

O fim desse relacionamento assombraria Hachi pelo resto do anime e provocaria de imediato uma mudança nela, talvez por influência de Junko, que lhe deu um sermão bem intencionado mas que atravessou a fronteira do razoável. A partir daí Hachi seria menos impulsiva, ainda que apenas com pessoas que lhe são queridas, e a forma como ela realiza isso é pensando demais, evitando ao máximo fazer qualquer coisa que ache que possa perturbar ou prejudicar os outros, e guardando seus problemas para si mesma – mesmo quando esses problemas não são só dela.

 

Junko vem consolar Hachi após ela romper com Shouji, mas acaba dando uma bronca

 

Hachi se tornou um pouco mais parecida com Nana, um pouco menos capaz de comunicar o que realmente sente para os outros, embora no caso da Nana as razões sejam outras – sempre solitária, Nana não aprendeu mesmo como se expressar direito.

Não é como se Hachi tivesse decidido se tornar mais reservada, porém, e sim que ela ficou com medo de afastar os outros por incomodá-los com sua personalidade expansiva. Nesse sentido, a mudança foi bastante negativa, apenas acumulando com seus demais defeitos.

Sem sonhos ou aspirações em particular, Hachi queria apenas encontrar o amor da sua vida. Se apaixonou várias vezes e teve o coração partido várias vezes – pior em algumas ocasiões do que em outras. Mesmo assim, ela nunca pôde evitar lançar-se de uma paixão a outra.

Esse vazio em seu coração cobraria caro de Hachi, no mais dramático e depressivo arco do anime, que mudou para a sempre a relação entre quase todos os seus personagens.

 

O começo do fim

 

Ao melhor estilo de Nana (o anime), não é possível determinar uma causa única para esse grande evento (estou me esforçando para não dar spoilers, notou?). Hachi é apenas a provável maior culpada, tudo considerado, mas vários personagens interagem de forma independente, criando não uma simples cadeia, mas uma verdadeira rede de eventos que culminaria no mais triste episódio de todo o anime, e que, contudo, ainda era só o começo de mais sofrimento.

Com toda a minha experiência (nenhuma) em psicologia, acredito que passei por todos os estágios o luto durante esses episódios: a negação (“não acredito que fizeram isso!”), a raiva (“como tiveram a audácia de fazer isso?”), a depressão (“… isso não acaba mais”), a negociação (“mas no final isso vai dar certo, né?”) e a aceitação (“tá bom, é isso mesmo, não tem jeito”).

Menciono isso por duas razões: primeiro, não posso evitar me preocupar que esse arco (que não é curto) possa fazer uma pessoa se sentir mal de verdade. Eu estava me sentindo mal de verdade. E segundo, talvez o que eu venha a dizer sobre o anime após esse arco tenha forte influência do “estágio de aceitação”. Os primeiros episódios que assisti imediatamente depois que aceitei não pareceram tão divertidos quanto antes (mesmo durante a fase mais aguda da depressão eu estava achando os episódios sensacionais). Acredito que esse efeito tenha passado em dois ou três episódios, mas não posso dizer com certeza.

É o melhor arco do anime. E também o mais triste, de longe. E não, não vou mesmo dar spoiler.

 

 

Eu escrevi lá no começo que Nana é uma história de amor, e eu estava sendo sério. Tem a ver com isso o amor tórrido e trágico entre Nana e Ren, todos os amores da Hachi, bem como as paixões correspondidas ou não dos demais personagens. Mas é mais do que isso. O amor em Nana não se resume ao amor romântico.

Não há relação mais forte em todo o anime do que o amor platônico entre as duas Nanas. Terá ele componente sexual ou romântico, ou será apenas uma amizade muito especial? Na falta de respostas, há pistas.

Hachi pensa para si mesma, em um dos muitos monólogos que escutamos ao longo dos 47 episódios vindos de uma das protagonistas, que se Nana fosse um homem, seria o amor da vida dela. Em dado momento ela está deitada sozinha em sua cama, então sem namorado e admitidamente com desejo sexual acumulado, quando se pega pensando na Nana e se assusta com isso.

Nana, por outro lado, conversando com Ren sobre quão importante Hachi é para ela não precisou nem parar para pensar antes de negar que tivesse qualquer desejo sexual pela amiga. São circunstâncias bastante diferentes, e não imagino a Nana admitindo isso para seu namorado, ainda que fosse o caso. E Hachi só teve aquele único momento também, que não é bem resolvido de todo modo.

No final das contas não dá para saber se há componente sexual no sentimento que une Nana a Hachi e vice-versa, mas é seguro afirmar que, ainda que esse seja o caso, é algo secundário. Elas são, antes de tudo, melhores amigas do tipo que nem todo mundo tem a sorte de conseguir durante todo o curso de sua vida.

Nana não sabe quem é seu pai e foi abandonada pela mãe. Esse tipo de relacionamento que ela tem com a Hachi é importante para ela porque é uma forma de família que ela escolheu ter. E ela não é a única personagem com problemas familiares, aliás.

Ren é órfão. Yasu, baterista do Blast, a banda da Nana, também é (embora isso tenha sido revelado quase como nota de rodapé e já perto do final do anime). Shin, o baixista do Blast, é um adolescente cuja mãe é uma provável adúltera que se suicidou quando ele ainda era muito novo, tendo ele sido criado por um pai que nunca o amou. E assim vai, há outros personagens em condições familiares desfavorecidas, embora saibamos menos sobre eles.

É quase como se pessoas assim atraíssem umas às outras. E provavelmente é o caso mesmo, sendo todos eles músicos. Hachi, a mulher comum, tem uma família comum e amorosa, pais compreensivos e duas irmãs queridas. De certa forma, ela acaba sem querer presa no meio de um cabo de guerra entre as duas bandas.

 

O reencontro entre Nana e Ren, tornado possível graças à Hachi

 

E isso apesar da Nana, em dada altura e graças à ajuda da Hachi, ter retomado seu relacionamento com Ren. Ou talvez tenha essa sido exatamente uma das causas.

Mesmo assim, as coisas entre os dois nunca mais seriam as mesmas. O sentimento de que foi trocada não só por uma banda melhor, mas por uma vocalista melhor, nunca abandonou Nana. Ren, por sua vez, havia aberto mão de tanta coisa depois de deixar Nana para trás que se tornou apenas uma sombra do que fora um dia.

Ren precisava de Nana para continuar suportando o dia a dia. E Nana … ela não precisava de Ren, mas o amava de uma forma que não saberia explicar, mas que a fez recuar todas as vezes que quis terminar a relação. Mas de quem Nana realmente precisava agora não era mais o Ren. Quando ela se deu conta de que precisava de Hachi, a amiga já estava irremediavelmente, ou assim lhe parecia, separada dela.

Como mencionei antes, o anime tem um grande “acontecimento”, um furacão no meio do qual está Hachi. Após ele, tudo muda. Também já mencionei que o anime têm vários monólogos das Nanas ao longo dos episódios. Normalmente eles marcam o começo e o final de episódios, ou a mudança de atos em um único episódio.

Na primeira metade do anime, o assistimos do ponto de vista da Hachi, haja visto que são os monólogos dela que ouvimos. Na segunda metade, a Nana assume os monólogos e a maior parte do tempo de tela, enquanto a Hachi fica alienada de boa parte da ação que passa a se focar mais nas bandas.

Definitivamente a segunda metade não é ruim. Também não vou dizer que é pior, porque tem aquele porém da “aceitação pós-traumático” que mencionei antes, e que pode ter nublado meu julgamento. Mas acredito que, pelo menos estruturalmente, o enredo dessa segunda metade é mais pobre.

Se na primeira metade acompanhamos quase que exclusivamente as histórias das duas Nanas, com destaque para a Hachi, na segunda a Hachi fica em segundo ou terceiro plano enquanto uma profusão de outros personagens têm sua vez sob os holofotes. Não é de todo mau, porque o elenco do anime é mesmo sensacional, mas deixa a incômoda impressão de que a história perde um pouco o foco.

 

Trapnest, a banda do Ren

 

Colabora para essa impressão algo negativa da segunda metade da história o fato de que seu fio condutor é uma espécie de batalha entre bandas (não exatamente, mas deixe assim, quero dizer que a parte profissional-musical toma a dianteira da história), mas não é como se Nana fosse uma história particularmente boa ou realista sobre bandas profissionais.

Relacionamentos humanos? Isso Nana, o anime, tira de letra. Mesmo os personagens que efetivamente fazem algo errado de propósito, sabendo que vão provocar sofrimento a outros (e às vezes com essa intenção mesmo) são suficientemente desenvolvidos e suas circunstâncias complexas o bastante para que não apenas os odiemos. Uma salva de palmas para Nana, por favor.

A indústria musical japonesa? Nesse ponto o anime cumpre apenas o mínimo do mínimo para carregar as histórias de seus personagens. No entanto, esse é o fio condutor da segunda metade – que, no entanto, triunfa graças à força de seus personagens, inclusive os secundários.

E então tem o final. Lembra-se que o mangá está em hiato? Como tal, o anime também não tem um fim realmente definitivo. Ele sucede com méritos em encerrar algumas tramas que já vinham de muitos episódios, mas introduziu toda uma coleção de novas questões.

Nenhum dos defeitos que eu mencionei ao longo do texto desabona Nana. É um anime sólido, um dos melhores de sua geração, talvez um dos melhores animes de seu gênero de todos os tempos, então, se estiver minimamente curioso, não se deixe assustar pelo número de episódios (eles são necessários, de todo modo), e por todos os meios assista Nana!

E se já tiver assistido comente o que achou. Até o próximo artigo!

 

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