Você provavelmente já deve ter assistido vários Shounens. Este é um dos gêneros mais populares entre os animes, não só no Japão como aqui no Brasil, graças a títulos como Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco, que fizeram sucesso nos anos 90. Mas e um Shounen francês, conhece? Não sei exatamente quantos devem existir por aí, mas com certeza o mais popular é Radiant. E é dele que vamos tratar nessa resenha.

O mangá de Tony Valente, lançado em 2013 pela Ankama Editions, na França, foi ganhando o mundo aos poucos até receber sua adaptação para anime na temporada de Outubro de 2018. Assim que comecei a cobrir o anime, já pude notar alguns pontos em comum, mas também outros diferenciais.

A história acompanha um garoto chamado Seth: um jovem feiticeiro que tem como objetivo encontrar o Radiant, um ninho de Nêmesis, e trazer paz ao mundo. Porém, as coisas não são tão simples como parecem.

Um dos elementos mais legais deste anime é o fato de que ninguém é especificamente bom ou ruim. Não há uma dicotomia entre herói e vilão atrelada ao grupo que uma pessoa pertence. Por exemplo, nosso protagonista é um feiticeiro, mas nem todo feiticeiro é “do bem” como ele. Do mesmo jeito, do outro lado temos a Inquisição, que funciona como uma força policial onde alguns abusam de sua autoridade e são corruptos. Com isso, a animação acaba com arquétipos e deixa de reforçar estereótipos, o que é ótimo. Além disso, temos vários outros grupos, como os Taumaturgos e os próprios Nêmesis, que deixam as coisas ainda mais interessantes.

Outro ponto que a animação acerta está em tratar de temas atuais em sua trama, como a questão dos imigrantes ou até mesmo a dureza da vida adulta. Por meio de metáforas ou de forma subentendida, ela aproveita para dar ensinamentos importantes ao seu público sem ser de uma maneira chata ou massante. E vale lembrar que ele é voltado para um público jovem, que resulta em pontos altos e baixos. Mas vamos falar disso daqui a pouco.

Nosso protagonista é Seth, que tem todas as características de um protagonista de Shounen. Ele é leal aos seus companheiros, nunca desiste, é um pouco idiota e fica repetindo seu objetivo toda hora. Porém, ele conta com um diferencial muito bem-vindo: neste anime, os feiticeiros não são vistos com bons olhos pelas pessoas que não podem usar magia. Mas são exatamente essas pessoas que Seth quer salvar, então fica o questionamento: vale a pena lutar por alguém que o teme? Esse conflito surge a todo momento na trama e nosso protagonista se vê tentado a desistir ou seguir outro caminho.

Os personagens que acompanham nosso protagonista em sua aventura é Doc e Mélie. Um é pesquisador e ajuda os personagens com seu conhecimento sobre os Nêmesis, porém também é responsável pelos arcos mais desinteressantes da trama. Já Mélie é uma das personagens mais legais do anime, principalmente pela sua maldição: normalmente ela tem uma personalidade ingênua e fofa, mas quando está sob pressão assume um lado mais arrogante e agressivo que chamo carinhosamente de Mélie Maluca.

A melhor personagem do anime

Já entre os vilões, temos vários que se destacam. Os Nêmesis são monstros bem variados e sempre representam perigo, mas com o tempo os humanos se tornaram problemas maiores. Uma das minhas preferidas e com um dos arcos mais bonitos desta temporada é Hameline, uma Domitor que tem a habilidade de controlar Nemesis. Porém, quem realmente deve dar bastante trabalho ao nosso protagonista é o General Torque, líder dos Taumaturgos, um grupo da Inquisição que tem muito potencial para a segunda temporada.

Um dos melhores momentos desta temporada

Também vale destacar a forma como o anime não perde suas origens nacionais. Por exemplo, podemos notar como a música tradicional francesa influenciou o background do anime. É possível ouvir aqueles temas de cafés em vários momentos, mas sem parecer estranho, de forma bem sutil. Além disso, há o detalhe de que ao final dos episódios aparece uma cartela escrito à suivre, indicando que a história continua no próximo episódio.

Porém, Radiant não é perfeito e conta com algumas características que me incomodaram bastante. Uma delas, voltando ao tema do público-alvo, é que ele tem como foco os jovens, mais especificamente crianças. Mesmo sendo PG-13, o anime deixa clara essa escolha através da ausência de violência em cenas que normalmente seriam mais fortes, assim como a maneira que trata seus personagens de forma infantilizada, o que se assemelha a animes como Pokémon.

Tem até uma Equipe Rocket

Além disso, é muito frustrante que um anime com apenas 21 episódios desperdice seu tempo com temáticas que não acrescentam em nada para a trama e mais parecem fillers. Boa parte do anime se passa em Artemis, na cafeteria da Miss Melba, e entre as aventuras que os personagens passam por lá inclui ajudar um polvo viciado em café. O que isso tem a ver com o Radiant? Nada.

Para completar, o avanço em questão de força de Seth é muito lento, principalmente no primeiro arco, onde ele passa a maior parte do tempo com apenas um golpe. Porém, seu modo Berserker aparece no fim do segundo arco e deixa as coisas mais interessantes.

Aí sim empolgou, hein?

A pergunta que não quer calar: vale a pena acompanhar Radiant? Sim, mas é preciso ter paciência. O anime não é apenas mais um Shounen, como mostrei nesta resenha, mas demora a engrenar. Com o tempo, as coisas ficam cada vez mais sérias e com foco maior no que realmente interessa. Por exemplo, temos um aumento significativo de dramaticidade e os mistérios daquele universo ficam cada vez mais intrigantes. Além disso, você vai ter a chance de ser o diferentão e dizer que já assistiu um Shounen francês.

Detalhe: a segunda temporada está confirmada

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    Concordo e assino embaixo quanto ao anime, pode parecer similar aos shounens de batalha e aventura que temos por aí, há os que dizem de sua semelhança com “Fairy Tail”, no entanto, tem suas particularidades e personalidade que valem a pena. O tom que leva em não prender a arquétipos de bem e mal é um toque e tanto, como de falar de temas como imigração e preconceito, este o mais recorrente na história. Não senti muito arrastado, verdade que custa pra engrenar,mas, vejo isso para mostrar a ambientação e clima, achei divertido. Claro que, a maior surpresa é de ser um mangá estrangeiro a ganhar anime e nisto, “Radiant” pode abrir portas para outros mangás não-nipônicos terem uma adaptação; isso é recorrente a livros, quadrinhos e games, espero ver mais obras destas em animação. Bom que terá segunda temporada, vou ver com vontade. No fim, saldo positivo ao anime.

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      Meu maior problema com o fato dele ser arrastado é que não vai ter centenas de episódios como outros shounens, então a impressão é que ele fica “perdendo tempo” com coisas bobas.

      Também espero que ele abra portas para outras produções estrangeiras, sempre é bom ver alguma coisa diferente.

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    Danilo Cassio Da Silva Costa

    Na oportunidade de poder assistir Radiant com os garotos de 12 anos (sou tio kkkk), esse anime mostrou o seu foco para esse público e pelo 👍dos pirralhos aqui, vão querer assisti a segunda temporada.
    Dentro dos acertos e erros apresentados, dá para sair positivo com Radiant, ele cumpriu o que queria para a faixa etária. Para mim, um destaque que chamou a atenção foi a animação do estúdio Lerche, muito bonito, consistente e decente em toda a adaptação. Se puder fazer impressões da segunda temporada, pelo menos eu vou ver por aqui. Tchau!

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