Darwin’s Game é originalmente um mangá de FLIPFLOPs (até onde eu entendi se trata de um duo, Ginko escreve e Yuki faz as ilustrações) que teve uma animação de 11 episódios (a estreia teve o dobro do tempo normal) produzida pelo estúdio Nexus e lançada na temporada de inverno de 2020.

Do que se trata a história? De um jogo de sobrevivência mobile no qual cada participante recebe um poder sobrenatural e precisa sobreviver aos embates com outros participantes e a eventos. É por isso que evito baixar app fora da play store e você deveria fazer o mesmo. Enfim, vamos a resenha!

Na história acompanhamos Kaname, um colegial normal que devido ao pedido de socorro de um amigo acaba sendo convidado a participar do Darwin’s Game, um jogo mortal envolvendo poderes sobrenaturais e muita gente perigosa. Outra dica, não toque em todo link que mandarem para você, pesquise do que se trama antes.

Okay, eu sei que na vida real não deve existir app assim, mas vai saber, né, um vírus pode estragar as nossas vidas… Enfim, Kaname não tem nada que o distingua e nem mostra convicção para matar a princípio, mas sua história se trata justamente disso, da construção do personagem até o ponto de conseguir jogar como “adulto”.

Obviamente, isso passa pelas experiências que vive após instalar o app mortal e as pessoas que encontra. Nesse ponto a trama erra ao mesmo tempo que acerta, pois a heroína, Shuka, é introduzida dando sinais de que seria uma daquelas yanderes chatas que vira e mexe aparecem nesse tipo de anime (Yuno cof cof), mas não é.

Digo, ela não chega a tanto, tem um passado que razoavelmente explica sua determinação em sobreviver e demonstra fragilidades que você pode esperar de uma adolescente, ainda mais uma que não bate nada bem da cabeça feito ela, então no fim acaba que a moça é menos rasa ou irracional do que poderia ser, não que seja carismática ou tão interessante também.

E o mesmo vale para seu parceiro e amado (os dois acabam se envolvendo e tem até beijo, Darwin’s Game vai bem em agradar o público), Kaname não é o protagonista bundão, estereótipo recorrente nesse tipo de anime, mas também não começa sendo o protagonista badass, ele se torna um, e de maneiras bem razoáveis, seja usando a cabeça ou sua gentileza.

Kaname não é um assassino irracional como muitos outros jogadores apresentados ao longo da jornada e é exatamente por isso que coleciona aliados, além de buscar alternativas a matar, mostrando com isso que é sim inteligente, ainda que não seja um gênio, e tem capacidade de liderança. Kaname é um sobrevivente nato, um guerreiro.

Os outros personagens que seguem ele e Shuka interagem de forma proveitosa com o “herói”, sendo atraídos por suas qualidades, mas também seus defeitos, como sua incapacidade de puxar o gatilho, afinal, em jogos de sobrevivência não ter coragem de matar é um defeito, sair de um jogo assim sem fazer isso é inclusive irreal, coisa que a história não é (ao menos não por isso).

Tem a garota dobradora de água que baixa o onii-chan (literalmente o espírito do irmão gêmeo, esse ríspido e mandão) do gelo, o sniper detector de mentiras com desejo de vingança pelo irmão (o amigo do Kaname que o meteu nesse esquema pior que pirâmide) e a loli (sei que ela é uma mocinha, só estou zoando) hacker, informante, cerebral. Um grupo bom? Sim.

Muito disso se deve a maneira como os caminhos desses personagens e do Kaname se cruzam, fazendo sentido dentro da construção desses personagens e das circunstâncias das situações provocadas pelo jogo. Cooperação para sobreviver é a palavra-chave para a formação do grupo do protagonista, o Sunset Ravens, nome acordado por todos porque o Kaname lidera sem autoritarismo.

Aliás, nem faria sentido se fosse de outra forma, pois apesar de seu poder, seu Sigil, ser bem interessante (copiar coisas, para simplificar, se mostra bem útil ao longo do anime) ele não é exatamente a descrição de líder poderoso, mas sim inteligente, cujo poder é administrar recursos de todas as naturezas e buscar o melhor caminho para a sobrevivência.

Enfim, um moleque sobreviver sem sujar as mãos e ainda se destacar em um evento com certeza atrairia a atenção de gente que enxerga potencial nele como jogador e é isso que acontece, sempre com lógica por trás das ações dos personagens, apesar de eu achar que tentar fazer do Darwin’s Game um Tinder não seja uma escolha normal…

Mas dentro do contexto, sendo a mulher que o aborda a herdeira de uma família de assassinos profissionais, faz sentido. Inclusive, trabalha uma ideia bem explorada ao longo da narrativa, a ideia de que os embates promovidos pelo jogo, sejam eles diretos ou dados em eventos, têm o potencial de moldar verdadeiros “monstros”.

Um monstro aqui seria um jogador capaz de superar os outros, e o Kaname se mostra capaz disso mesmo, repito, sem ser capaz de matar, algo que com certeza o coloca em uma certa desvantagem em comparação a seus adversários, mas, por outro lado, também delineia seu caminho, define sua força. Contudo, em um survival sonhos inocentes não podem durar…

Eu acho que o anime não fez tão bem essa transição entre um Kaname incapaz de matar e um Kaname frio e mortal. Digo, a ideia em si foi pincelada até isso acontecer no final, mas não lembro de ter visto ele refletindo tanto assim sobre o tópico. De toda forma, quando percebe que pessoas morrerão não importando o que ele faça, o garoto se torna homem e assume outra posição.

Por mais que dê para sobreviver no jogo sem apelar para a crueldade, para a irracionalidade, é praticamente impossível “jogar” sem pagar um preço, sem tirar uma vida devido a necessidade direta de proteger a sua e as de seus companheiros. Sendo assim, nada mais crível que o protagonista passar por uma transformação em que se torna
capaz de pagar esse preço, de lidar com essa culpa.

Por melhor que a pessoa seja também é completamente humano e racional pensar primeiro em si e naqueles que dependem de você, aqueles aos quais você quer bem, então o Kaname se tornar badass no final do anime não é gratuito nem bobo, pelo contrário, era necessário para mostrar como esse personagem já era forte, mas o jogo também o mudou.

Tudo isso enquanto o Kaname e seus companheiros decidem acabar com o jogo e com quem está por trás dele, menos por vingança, mais por consciência. Para isso eles precisam sujar suas mãos e jogar em sua plenitude, o que não necessariamente os torna tão ruins quanto os criadores, ao menos não se mantiverem coerência com seus princípios até o fim.

O anime conclui um arco (de um vilão meio chatinho, mas que pelo menos provocou situações interessantes), a história continua no mangá, então o Kaname ainda pode se transformar ainda mais, não duvido que para melhor no sentido de se tornar cada vez mais um sobrevivente capaz e que desafia aqueles que estão acima na “cadeia alimentar” do jogo.

Por fim, sei que escrevi pouco sobre os pontos negativos do anime e isso se deve ao fato de tê-lo achado bom, nada espetacular é verdade, mas melhor do que costumo encontrar nesse tipo de anime; em que há um jogo mortal, personagens em sua maioria adolescentes ou jovens adultos para ressoar com o público alvo e muita coisa ruim, trash mesmo.

Darwin’s Game faz sentido e é equilibrado na maior parte do tempo, seja no que se refere a construção dos seus personagens ou ao desenvolvimento do roteiro como um todo. Não é trash, não tem uma animação de quinta e nem situações forçadas para explorar um gore irracional ou personagens irritantes e que não fazem o menor sentido.

Contudo, também não é a oitava maravilha do mundo, como já escrevi, é uma história divertida, que tem seus bons momentos, seus momentos mais fracos, mas, felizmente, não entrega o pior do que poderia dentro do gênero. Nem vou citar exemplos de animes ruins parecidos para não indicar tranqueira, mas se você está nessa vida a algum tempo deve saber do que estou falando…

Não que esteja menosprezando esses animes (animes ruins também têm sua “função social”, né), é só que as vezes é bom ver um anime de jogo de sobrevivência que faça sentido e não seja exagerado para o pior. Darwin’s Game entrega o que promete satisfatoriamente e pode ser uma boa diversão se você não for muito exigente e não esperar muito dele (meu caso) de toda forma.

Tem no Crunchyroll.

Até a próxima!

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