Quem nunca desejou ter um amigo, um confidente ou mesmo um ajudante que nunca te abandona-se, traísse ou sentisse qualquer negatividade em relação a você. Alguém sobre o qual não sentimos rancor, competição, ou mesmo a sensação de sermos, ou estarmos, diminuídos pela existência alheia. Esse filme é a história de uma utopia que deu errado.

Bem, vamos lá. Sobre o filme Eve no Jikan, em geral, acho que podemos entendê-lo como uma segmentação de eventos dentre os quais acompanhamos os protagonistas amadurecem, pois eles estão frente a um cenário realmente interessante. Qual cenário é esse?

 

 

Em um mundo onde os Robôs não apenas dominaram as tarefas humanas, como, ainda mais, se tornam semelhantes aos próprios humanos, fisicamente falando, ao ponto de que a inserção desses androides na sociedade acaba por tornar a vida em comunidade um desafio. É um dilema paradoxal, mas cirúrgico, e ele diz respeito principalmente a obsolescência da humanidade frente a sua própria tecnologia. Imagina o quanto humanos já são descartáveis em situações “normais” de avanço tecnológico. Agora imagina isso elevado a substituição completa de uma existência humana pela de uma máquina.

Infelizmente não é explorado a fundo o conflito macro e o impacto devastador que humanoides acarretariam na estrutura social humana. O foco do filme é reconciliar e integrar os novos “humanos” na nova “sociedade”, ou seja, esse filme, originalmente lançado em seis ONAs, tem por norte uma abordagem mais intimista da situação. Relações interpessoais entre humanos e robôs.

 

 

Temos dois protagonistas. Rikuo e Masakazu, cada um possui um conflito diverso em relação aos androides que, de modo particular, os afeta em seu cotidiano. O conflito pessoal desperta um misto de sentimentos, os quais são nutridos por um ambiente agressivo e preconceituoso, que está cindido e em conflito permanente diante da nova ordem social. Os androides substituíram os humanos em sua humanidade, mesmo embora ainda sejam máquinas.

 

 

É interessante destacar o uso que é feito das leis de Asimov, as três regras da robótica. Um programa que visa manter a integridade do criador e da criatura. As regras são as seguintes. Nunca machuque, agrida ou coloque a vida de um humano em perigo, nunca coloque a sua própria integridade em perigo e, por fim, protejam os humanos a acima de tudo.

 

 

Os androides, avançados e capazes, com IAs poderosas, conseguem tanto mimetizar o comportamento quanto emular os sentimentos humanos, isso ao ponto de não conseguirmos distinguir quem é humano e quem é máquina, ou melhor, quem é fundado por base orgânica, e quem é fundado por base inorgânica. Porém, conscientes a um ponto inimaginável, após tanto progresso, eles, por vontade própria, e também por cumprirem as diretrizes de sua programação base, escolhem por fingir apatia, portando-se de modo submisso e neutro, mecânico, quando estão entre os humanos. A parte que diferencia humanos de androides é um holograma areolar que fica acima da cabeça dos robôs, diferenciando assim as “espécies”.

Eve no Jikan é um Pub, um espaço anômalo, onde a liberdade dos androides é não apenas concedida, como requisitada. Nesse lugar eles podem agir como desejam, e sim, os androides demonstram desejos, e quem ali adentra, não pode se pensar, ou querer, ser diverso dos demais. Seja humano, seja máquina, ambos devem respeitar uns aos outros e agir como realmente são.

 

 

Aqueles que em casa possuem androides, devem os tratar como amigos, como “gente” quando estão nesse espaço especial. O Pub é um local de encontro parecido com um baile de máscaras, onde ninguém realmente sabe quem o outro é. Acho particularmente legal o desenvolvimento de ambos os protagonistas ao descobrir este local. Eve no Jikan, o espaço ímpar onde essa reflexão existencial e pessoal se desenvolve, é sempre pontuada pela prática, pela vivência, pois todos ali estão convivendo, ou aproveitando o local, sem se preocupar com a segmentação social.

Outro ponto interessante da obra, é que a situação política no anime é bem complexa. Para além dos androides serem hostilizados, tratados como coisas, não se chega ao ponto onde se tenha um real extermínio dos mesmos, salvo casos bem particulares. Eles são “incômodos” aos humanos, ou assim são retratados, mas ao mesmo tempo são indispensáveis, ou mesmo forçados a serem cada vez mais necessários nessa sociedade; tanto é que efetivam tarefas substancialmente humanas, como cuidar de crianças.

 

 

Todo esse pano de fundo por si só é bem bacana, oferece uma atmosfera riquíssima ao filme. Embora isso esteja presente na obra mais como ambientação, e não seja muito aprofundado.

Indo para as particularidades do como usam as regras de Asimov, ou melhor, de como burlam as regras. Acho que os elementos foram muito bem concatenados. A sacada de humanizar e colocar em equivalência os androides em relação aos humanos, foi lentamente e muito bem apresentada, com pequenas sagas fechadas, que mantêm a estrutura original da obra, a segmentação em seis arcos. Cada arco trabalha um ponto perante a quebra de realidade dos protagonistas.

 

 

A direção consegue oferecer um desconforto e uma dinâmica própria em diversas situações de tensão no filme, e é muito bom quando essa tensão é representada pelos momentos de instabilidade da câmera. Outro ponto bacana é o quanto os personagens secundários são ricos e vivos. E o mistério é bem apresentado, mesmo que seja apenas para oferecer a amplitude do cenário, onde o plot mais distante, que diz respeito ao criador dos androides, a cientista que monitora as anomalias no começo do anime e a moça que administra o Eve. É tudo muito bem amarrado. Prestem atenção no primeiro androide que entra no Eve, e tentem pescar o significado por detrás da função desse personagem. Vejam quando ele volta para casa e mantenham isso em mente.

O filme consegue propor uma aura muito satisfatória em todos os sentidos. Ele fecha um arco central, e ao mesmo tempo conecta as pontas do início e do fim, que podem parecer inconclusivas, mas não são. Essa cena oferece as motivações e a construção própria da dona do Eve, e ainda apresenta as turbulências da vida dela, do passado e do presente, para concluir nos apresentando uma mensagem intrigante que vai além da proposta aparentemente desenvolvida pelos protagonistas.

 

 

No fim, a ideia central de Eve no Jikan, nem é, o os Robôs têm sentimentos e são humanos, mas sim, somos equivalentes, seja robô, seja ser humano, vamos interagir como iguais. Representando isso está o fato de eles terem tamanha semelhança aos humanos, ao ponto de não se poder distinguir mais quem é um androide e quem é um humano (por isso o holograma aureolar se faz necessário). É uma mensagem bem bacana, e é também uma proto crítica, pois quem foi que decidiu que os humanos têm sentimentos? Quem foi que decidiu qual é a natureza dos humanos? Quem foi que decidiu que os humanos não são máquinas? Ou mesmo que são humanos.

E por fim, temos o escopo da (auto)consciência dos robôs, que são humanoides, no sentido de que não apenas tem capacidade de auto preservação, como reconhecem a sua singularidade. Até mesmo tem noção de reflexo, de estética e desejo. Como se a complexidade de sua programação tornasse a sua cognição particular em uma identidade. É um filme bem bacana mesmo.

 

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