Manie-Manie: Meikyuu Monogatari, popularmente conhecido como Neo Tokyo, é um filme, ou melhor, uma composição de três OVAs, ou três histórias curtas, que juntas se “conectam”, mesmo sem terem relação direta uma com a outra, em uma obra de 50 minutos de duração. Lançado em 1989, segundo o myanimelist, mas, segundo a wikipédia, a data é 1987. Datas não são importantes no momento, para maiores detalhes sobre a origem dessa pequena antologia de histórias, uma pesquisa rápida no google lhe responderá. Então vamos aos ovas, ou segmentos dessa obra.

 

 

A primeira história chamasse Labyrinth Labyrinthos, dirigida por Rintaro. Ela narra a fantástica e misteriosa, aventura de Sachi e seu gato Cicerone, quando ambos adentram por um mundo de tempo, representado por um relógio antigo e seu pêndulo hipnótico, e pelo espelho, ou reflexo, o qual representa o espaço, a imersão e imensidão de toda a realidade material. O reflexo esconde dentro de si a fantasia atemporal de uma terra desconhecida, povoada por um guia, um Pierrot, e por habitantes monstruosos que encenam a vida no palco de um circo.

Dentre as três histórias, Labyrinth Labyrinthos, é a mais densa em especulações, a também a mais artística e bela. Sachi representa a representação de um observador, de um espectador que vive através do reflexo fantástico das imagens, que adentra e se preenche pelo conteúdo espelhado do mundo, como uma televisão hipnótica.

 

 

O labirinto pelo qual ela vaga, deturpa a realidade em cores, ângulos e existências, mas pulsa com vigor. O espetáculo que Rintaro nos apresenta é como a porta de entrada e a porta de saída da realidade, um mundo de reflexos e espelhos, um fundo de monstros e entretenimento. Por entre essa turva realidade, vagam sombras, vagam soldados alienados, proletários, adultos soturnos, esqueletos, crianças fantasmagóricas e animais invisíveis.

O labirinto em que Sachi, não apenas adentra, mas materializa, é a sua criatividade pura, o devaneio de uma infância jamais superada e que nunca se esgota.

A animação e o ritmo das cenas, ou mesmo a imersão poderosa que esse labirinto nos proporciona, é deslumbrante. Ecos e vozes que terminam em becos sem saída, mas que brilham pela escuridão de um espetáculo que, assim como uma festa, não pode deixar de nos entorpecer em devaneios.

 

 

O segundo segmento da obra chamasse Running Man, dirigido por Yoshiaki Kawajiri. Nessa história somos apresentados a um competidor, um vencedor invicto e obstinado que se chama Zack Hugh. O lendário corredor ultrapassa o ápice de sua glória, de seus dias de conquista, e se encaminha inevitavelmente para a decadência. Um jornalista acompanha essa fase de sua vida, a sua decomposição, queda e obsolescência. A narrativa conduzida por Bob Stone, nos arremessa no instante de desespero intenso de Zack, um homem cuja única identidade era a vitória a todo custo, era aniquilar os seus oponentes de corrida, sobreviver e reinar como o melhor.

Zack, frente a seu fim, desperta, no mais desesperador pânico e medo, o poder telecinético que visa abrir caminho a todo custo, se agarrar a cada fibra possível e correr eternamente como o Deus insuperável, em sua suprema forma, em seu ponto mais alto e inalcançável. Essa jornada destrutiva, aniquila, literalmente, todos os obstáculos para que Zack consiga reinar em sua pista por toda a eternidade. Ele mesmo é um obstáculo para que consiga atingir e superar o ápice, ele é o seu próprio inimigo.

 

 

Zack não apenas desintegra os seus oponentes, como também o faz em relação a si mesmo, ele atinge a transcendência de sua impotência ao ser não apenas impotente, mas incapaz de abandonar a sua obsessão. Sua vida se esvai completamente enquanto persegue um fantasma de perfeição e de poder que em vida, jamais poderia alcançar.

Destaque para o intenso teor gráfico aqui apresentado, por todos os momentos agonizantes protagonizados por Zack, para todo a corrida sobrenatural que extingue tudo em seu caminho, sendo a suprassumo do vazio em toda a sua clareza e distinção.

 

 

O último seguimento dessa obra se chama The Order to Stop Construction, dirigido por Katsuhiro Otomo. Essa história é, em comparação com as demais, extremamente clara, com uma narrativa amarrada e completa. Temos um país onde uma revolução se conflagrou, e nesse país uma empresa investia pesadamente junto a um projeto de infraestrutura. Era um projeto caríssimo, efetivado em uma região inóspita e pantanosa. Para dar seguimento a essa obra, a empresa empregou a mão de obra de robôs, e quando o golpe se efetivou e o contrato foi rompido, eles imediatamente tentaram paralisar as obras, mas o único humano do local, responsável pelo projeto, desapareceu.

O substituto Tsutomo Sugioka, que tinha por obrigação assumir as rédeas do projeto, que até então o desaparecido antecessor conduzia, e assim cancelar o projeto, vai até o local e descobre que os robôs estão trabalhando por conta própria, sem precisar de coordenadas, mas na verdade, seguindo as coordenadas primárias com um nível de profissionalismo estratosférico.

 

 

O chefe de obras, um robô extremamente compulsivo, segue coordenando a construção a qualquer custo. Os sacrifícios para que o prazo seja cumprido, ou mesmo qualquer ato que tente evitar a sua concretização, são considerados hostis, e devem ser extirpados.

Para sobreviver, Tsutomo segue o protocolo do descontrolado robô comandante, e aos poucos os funcionários mecânicos começam a explodir por falta de manutenção e desgaste, o prejuízo para a empresa aumenta e aumenta, mas o novo designado vira refém da situação, sob risco de morte a qualquer instante. Abandonado no meio do nada e completamente sozinho, ele se rebela, mas infelizmente o anime termina exatamente no momento em que ele toma o poder sobre a situação e caminha para a resolução do problema.

 

 

É uma história simples, pontual e alegórica, dentre as três, a mais tradicional, que busca satirizar uma situação onde se perde o controle sobre a tecnologia, e o momento onde nos tornamos apenas humanos, completamente a mercê de nossa própria criação.

É interessante que Tsutomo se ergue contra o seu destino, mesmo que seja trágico a mensagem que o seu chefe, da sede, transmite, sem que o rapaz ouça, dizendo que a obra deve continuar, que a situação do país se estabilizou e o contrato foi refeito. O mais irritante desse OVA, que tem uma qualidade equivalente aos demais em todos os sentidos, é que ele não tem continuação, e que infelizmente é apenas uma história curta para ilustrar uma realidade no mínimo desafiadora.
Ficamos por aqui pessoal, até uma próxima resenha.

 

Comentários