• Não, eu não quero molestar você, mas o Shuzo Oshimi quer. Você vai deixar? Se sim, basta ler.

Kusakabe-san, assim como Waltz, é um one-shot do meu mangaká favorito, um autor de diversas facetas, mas que quase sempre usa sexo como elemento na trama. É o que se pode ver nesse one-shot, indicado para maiores de 18 anos por conter nudez, palavras com teor sexual, etc… Além disso, não é mesmo um mangá de fácil assimilação, mas vamos tentar entender?

Na história há um homem sem nome, sem contexto; apenas um homem (provavelmente um assalariado), alguém que vive a vida meio “a deriva”, afinal, de que outra forma alguém acolheria uma estranha em sua casa e com ela começaria um caso? Ainda mais sendo ela uma pessoa que gosta de explorar, machucar.

Isso significa que o homem é masoquista? Sim, mas não reduziria suas atitudes (ou a falta delas) apenas a isso. Sabe quando alguém sente prazer na dor, no que é sujo, moralmente reprovável? Isso não vale só para o sexo, mas também para o convívio, o dia a dia e, nesse caso, conto até com a atração pelo que ele não consegue entender, o fascínio pelo que não é “comum”.

O padrão, o previsível, o puro muitas vezes pode ser sim bastante entediante; depende da pessoa, do que ela experimentou na vida, de que associações ela faz e delas obtêm prazer. O homem se deixa levar pela mulher, a peculiar Kusakabe-san, e com ela acaba se acostumando. Seja com sua vontade de machucá-lo ou com sua instabilidade emocional. Chega ao ponto dele ser “traído”, mas a coisa não é tão simples…

Por quê? Porque a relação deles não é convencional, não há um acerto entre partes no que diz respeito ao que cada um espera do outro quanto a fidelidade, apesar de ter tido a impressão que ele ficou furioso quando ela falou da transa que teve com outros caras.

Na verdade, não dá a impressão, ele ficou furioso, o que não fica claro é se foi por isso que ela sumiu. Pelo modo que ele busca por ela depois eu duvido. Enfim, não se prenda a fidelidade, não é essa a questão.

O importante é que a relação dos dois é livre, íntima e perturbadora (o beijo de vômito escancara tudo isso), parece que ela só está usando ele, mas que mal tem se ele sente prazer em ser usado?

Além disso, nem todo mundo manifesta o que sente como os outros, se encaixa no “normal”. Tem gente que se sente mais confortável, ou se acha em meio ao desconforto, em uma relação caótica. Usar a sua moral como régua ao ler esse tipo de mangá não é a melhor forma de consumir esse “entretenimento”.

Sim, mesmo sendo um tanto perturbador ainda pode ser bem prazeroso refletir sobre esse one-shot. O que quero dizer é que um relacionamento disfuncional é complexo, nem sempre resulta em infelicidade.

Claro, em casos bem específicos como o da obra, e é ainda mais interessante ver esse outro lado se você pegar a “pista” dada no começo e no fim da história.

Ele fica nervoso ao conhecê-la e ela fica nervosa ao revê-lo. A impressão que tenho é de que a carência emocional que ele tinha, não à toa deixou ela invadir sua vida, parece com a dela após conhecê-lo e sentir sua falta.

Talvez esteja me empolgando, mas penso que essa foi a forma que o autor encontrou de “compensar” a história mais “crua”, isso se o leitor conseguir captar a mensagem. E ainda que eu esteja louco e não haja essa intenção, o importante é que por mais estranha que seja essa relação, por que seria assim tão ruim?

As pessoas são complexas, a escrita do Oshimi não fica atrás. Tente se desnudar um pouco de sua moral para sacar o que pode estar contido nas entrelinhas e, por que não, ver beleza nisso? Não é fácil, mas dá para tentar, basta querer.

Mas claro, se você também se desprender um pouco da ideia de que a traição é algo moralmente reprovável e só isso (ha debate aí), além de ser necessário entender que o caminho da felicidade pode não ser nada ortodoxo para algumas pessoas. Exceções que, ao menos nesse caso, não confirmam regra alguma.

A Kusakabe-san não é o pior tipo de ser humano, eu diria que passa bem longe disso, que existe e nem o homem que a ama como ela é, alguém que gosta de machucar quem a trata bem, alguém que penso não saber lidar com demonstrações claras de afeto, provavelmente por um passado também disfuncional, mas, na boa, a essa altura isso sequer é relevante.

Uma mulher disfuncional, um homem disfuncional, será que eu sou disfuncional por achar que pode dar certo? Se chegou até aqui indico que leia o artigo de primeiras impressões que escrevi de Okaeri Alice (o mais recente mangá desse autor tão interessante).

Até a próxima!

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