Anata ga Shite Kurenakutemo é um mangá escrito e ilustrado por Haru Haruno lançado na revista Manga Action. Na história acompanhamos Michi, que é casada há sete anos, dois sem sexo. You, o marido, se mostra indiferente as tentativas da esposa de se reconciliar na cama e é em meio a essa relação disfuncional que ela se abre com Niina, colega de trabalho com o qual compartilha o mesmo problema.

Como o mangá ainda está em andamento e só li o primeiro volume dele este artigo vai ser uma introdução a trama de drama que aborda problemas de um relacionamento entre adultos. A temática não é incomum a mangás seinen, mas certamente não faz tanto sucesso, ainda mais quando a ideia não é chocar por chocar ao mexer com um assunto delicado, mas sim “descontruir” um casamento.

Porque a primeira coisa que vem a cabeça de quem lê a sinopse, veio a minha, é traição, mas não é isso que acontece. Contudo, não é como se não pudesse ocorrer, afinal, o mangá explora justamente a reuína do relacionamento e o sexo age como catalisador de problemas que passam despercebidos no dia a dia, mas aos poucos vão sendo notados, primeiramente pela esposa, Michi, mais tarde por You, o marido.

De tal forma, não estranharei (pretendo continuar a ler o mangá) se a Michi acabar traindo ou for traída, mas aí que está o mérito do autor, pois chegar a esse extremo parece cada vez mais possível, palpável, a cada capítulo e há muitos pontos interessantes a se comentar no meio dessa jornada, tanto por parte da esposa, quanto por parte do marido, porque a obra faz o suficiente para o leitor notar a culpa de ambos.

Michi quer ser amada e é em uma conversa casual no trabalho sobre maternidade que ela lembra que não faz sexo com o marido há dois anos e como isso a incomoda. É completamente normal que isso role, o problema é como a situação chegou a esse ponto se o casal mantém uma relação aparentemente boa, aparentemente porque não tem como ser boa se não existe desejo entre parceiros jovens e saudáveis, né.

Além disso, o sexo é apenas o estopim de uma maior reflexão sobre o distanciamento entre os dois que se acentuou com o passar do tempo. A protagonista é a Michi, é a partir do ponto de vista dela que seguimos pela história, mas ela mesma admite que também é em algum nível responsável pelo estado em que as coisas se encontram entre os dois, e não só isso, há um ótimo trecho em que é possível ver o outro lado…

O ponto de vista do You, um cara que vê pornografia, mas perdeu o interesse na esposa, ao ponto de dizer a ela que tem disfunção erétil, o que me pergunto se é verdade. Não fica claro até onde li, mas não faz sentido que seja. Além disso, ele não tem amante, isso me pareceu claro, então a história realmente não se apega a justificativas fáceis. É o contrário se nós pensarmos no quão complexa se torna a situação.

Não que seja algo inimaginável um homem perder o apetite sexual pela esposa, enquanto ela ainda tem a vontade de se reaproximar, o ponto é que a situação se volta mais para o descompasso interno do casal que para fatores externos, tanto é que no primeiro volume Niina age só como confidente e conselheiro, alguém que influencia Michi a tomar decisões, mas não diretamente, e sem tensão sexual entre os dois.

É importante frisar isso para reforçar a afirmação, a história não se constrói a base da traição e rejeição, mas da rejeição provocada pela rotina, o desleixo, o distanciamento gradual que acomete tantos casais mundo afora. Não à toa as pessoas se divorciam tanto hoje em dia. Não que casamentos fossem tudo isso no passado, penso até que é o inverso, hoje em dia que é menos comum se forçar a ser infeliz.

Se manter em um casamento sem sexo, sendo sexo apenas o resultado de uma desconexão muito maior, é viver em um relacionamento infeliz. Claro, se você nutre expectativas de dar amor e ser correspondido. Aliás, se você perder esse desejo de ser amado é aí que normalmente o casamento vai para o brejo. Até onde li ainda não era o caso, mas imagino que seja um desenrolar provável, quer role traição ou não.

A traição, assim como o sexo, acabaria sendo apenas uma consequência. No caso disso ocorrer mesmo é provável que culpe mais o marido pela apatia dele em tentar resolver seus problemas conjugais, enquanto tudo que a Michi mais faz é se esforçar para tanto. Talvez ela pudesse tentar outras abordagens, mas tem que existir um limite para a paciência e a boa vontade, além de amor próprio, né.

Levo em conta também as características do povo, da sociedade japonesa. Acharia incomum caso ela, literalmente, se jogasse em cima do marido, além de não ter desculpa a total falta de vontade de resolver as coisas que ele tem. A incapacidade de um casal conversar abertamente é o que mais denuncia a quebra da relação e até onde li nada indica melhora. Se quer ver um drama matrimonial é um prato cheio!

As ilustrações do artigo fazem parecer que o mangá tem uma arte média melhor do que ele realmente tem, mas diria que nesse tipo de seinen a arte é bem irrelevante, o importante é construir uma história interessante e densa. Isso é feito, bem feito, e aliado a um roteiro consistente e criativo. Não é incrível ou coisa do tipo, mas quando fracassar na vida real é? Ainda mais em algo tão doloroso como o amor.

Até a próxima!

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