Gokushufudou: Tatsu Imortal (The Way of the Househusband) é um anime original da Netflix produzido pelo estúdio J.C.Staff que adapta o mangá de Kousuke Oono dos gêneros slice of ife e comédia.

E do que trata Gokushufudou? De um ex-yakuza que vira dono de casa após se retirar do submundo da máfia. Ele mora com sua esposa, Miku, e tromba vez ou outra com conhecidos de sua vida pregressa, a qual ainda o influencia bastante em suas atividades como um “mafioso” do lar.

Antes de falar do quão bom é esse anime, primeiro preciso falar da animação, que é diferente do comum por empregar uma técnica de motion comic que meio que emula um mangá, mas com alguns poucos movimentos para passar a ideia de que ainda é uma animação.

Ter apenas cinco episódios e duração de 15 a 17 minutos, além desse estilo de animação incomum, significa que faltou grana para fazer o anime? Duvido muito que seja esse o caso, até porque uma segunda temporada já foi anunciada, né.

Então sim, me parece ter sido opção artística da produção, a qual faz sentido levando em conta a proposta da história, um misto de slice of life com comédia que não precisa de muitos recursos para fazer graça com suas esquetes para lá de criativas.

Gokushufudou acaba entregando exatamente o que se pode esperar do anime, muitas situações bizarras ou até comuns, mas que se tornam um tanto inusitadas por serem feitas por um ex-yakuza todo mal encarado, que faz de tudo para agir como um dono de casa respeitável e consegue.

Ainda não são tantos os casos de donos de casa sendo representados na ficção, e um dono de casa que é um ex-yakuza foi uma ideia totalmente inusitada que atrai holofotes por si só, mas claro, para ganhar um anime na Netflix o mangá tinha que ser engraçado, e ele é mesmo.

Se pensarmos que esse anime é uma transposição do mangá para a tela com uns retoques, não tenho como não elogiar a divisão das cenas por esquetes dele, o melhor modelo para comédias com uma piada bem definida, e o roteiro que explora muito bem a peculiaridade da proposta.

E quando as esquetes que exploram mais o contraste entre o estereótipo de yakuza com os afazeres domésticos do protagonista se acumulam é normal ter uma esquete que quebra um pouco isso lá pelo final do episódio, que ou é do gato ou é uma rápida que explora outro personagem.

Aliás, a princípio achei que a divisão por esquetes poderia ser maçante pelas repetições, mas a verdade é que o autor sabe diversificar a história, a qual também tem suas referência (as garotas mágicas da esposa são baseadas em Precure) e um pet muito metido, que é o gatinho do casal.

Além desses pontos pitorescos que complementam uma premissa já muito estranha, a personalidade do Tatsu (um ex-yakuza famoso por sua violência e imponência quando estava na máfia) é toda a de um yakuza fazendo coisas que uma dona de casa normalmente faria.

Como o ex-kouhai dele mesmo fala, é como se o Tatsu fosse as duas faces da mesma moeda, yakuza e dono de casa, esbanjando esse seu lado durão nas pequenas atividades do dia a dia, mas sem se desconectar da realidade de que sua vida mudou e agora ele não é mais um mafioso.

Aliás, o kouhai dele, Masa, é só um dentre vários yakuzas também bem incomuns que aparecem na história. Alguns yakuzas padrões aparecem também, mas geralmente os que têm mais proximidade com o Tatsu são os mais estranhos, ou melhor, se encontram em posições “incomuns”.

E na maioria dos casos isso deriva das ações dele em seu último rompante antes de deixar essa vida, momento no qual, aliás, sua esposa o conheceu e eles começaram a desenvolver uma relação. Não são dados maiores detalhes, mas dá para entender mais ou menos a sua trajetória.

Pode parecer absurdo tanto mafioso ou ex-mafioso aparecer em pouco mais de uma hora, mas, convenhamos, casa muito bem com a ideia e é uma das fontes mais criativas de situações divertidas que exploraram o contraste que é o charme do anime, que faz ele valer a pena.

Outra característica bem explorada pelo roteiro é o preconceito com um cara mal encarado como o Tatsu, que faz o papel de um dono de casa, geralmente associado a uma mulher, o qual se dilui bastante quando ele lida com outras donas de casa, mas não com os canas, por exemplo.

É como se ele conquistasse as outras donas de casa com suas habilidades no trato com os afazeres do lar (cozinhar, limpar, etc), enquanto os policiais tentassem ver nele a pessoa perigosa que ele realmente foi um dia, mas deixou de ser quando decidiu deixar a vida do crime para trás.

Isso rende umas duas cenas bem engraçadas, e na segunda delas as qualidades de senhor do lar de Tatsu acabam por roubar a cena e inverter a impressão errônea dos policiais, a qual, é claro, é manipulada para dar a entender uma coisa que não é, não que o público não perceba fácil.

Mesmo já esperando por essa “quebra”, eu continuei me divertindo bastante justamente até por ter a certeza de que veria o protagonista fazendo algo que não seria normal por ele fazer bem demais, mas é ainda mais anormal por ser feito por alguém com o perfil dele.

Explorar esse estereótipo de yakuza durão que ele tem acaba sendo bem divertido porque ele é isso, mas também consegue ser sensível, gentil e atencioso, e não só com a esposa, como também com os amigos e vizinhos. Na verdade, todos os outros yakuzas são um pouco como ele.

Inclusive, essa é outra coisa muito legal desse anime, como ele explora a ideia de que o mafioso não é apenas um sujeito mal-encarado que quer fazer mal ao próximo. Tudo bem que é feito em prol da comédia, flertando constantemente com o absurdo, mas não deixa de ser algo bacana.

O mesmo infelizmente, não posso dizer da Miku, a simpática esposa que demonstra muito carinho pelo marido e até irreverência, mas cai um pouco no estereótipo da figura masculina que não sabe fazer nenhuma tarefa caseira, não que ela não saber seja exatamente algo ruim, claro.

Mas ela acaba refém da dinâmica da inversão de papéis mais que o marido, que até arruma trabalho de meio-período para comprar presente para ela e, convenhamos, tinha um trabalho bem “trabalhoso” antes de se retirar, sendo que pode retornar a ele praticamente quando quiser.

Porém, ele não vai querer, está feliz em sua agitada, mas bastante recompensante, vida cotidiana. O anime pode ter poucos episódios e eles serem mais curtos que a média, mas super consigo comprar a ideia de que ele é feliz com a esposa e está se adaptando a essa nova vida.

Aliás, o formato de lançamento é perfeito, pois quando a dinâmica das esquetes e o próprio conteúdo delas corre o risco de ficar maçante e soar repetitivo o anime acabando deixando um gostinho de quero mais que não duvido nada que será muito bem explorado na segunda temporada.

Gokushufudou: Tatsu Imortal é um ótimo anime para maratonar e desafio você a achar ruim o estilo de animação porque é algo que encaixa com a proposta, além de permitir que a dublagem, os enquadramentos de câmera e os sons em geral, além das expressões, tenha mais relevância.

Não é um anime que precisava de animação convencional, não faria falta, diria até que conceitualmente faz mais sentido que seja motion comic, além de, é claro, ser certamente mais barato animar assim, unindo o útil ao agradável e entregando um excelente produto para o público.

Mal posso esperar pela segunda temporada e como não li o mangá, e nem devo fazê-lo para não saber o que vão animar, me dou até o direito de especular. Por exemplo, não seria legal ver o casal fazendo uma viagem? Uma visita de algum parente do Tatsu? Ou quem sabe uma briga?

Sei que o anime é de comédia, mas até mesmo uma esquete mais tensa pode se resolver por intermédio dela, o mais importante é aproveitar o conceito das maneiras mais criativas possíveis, como essa primeira temporada já fez, mas tem que tomar cuidado para repetir na segunda.

Por fim, Gokushufudou nos mostra que dá para ser um bom dono de casa se você se esforçar, basta querer. Claro que o Tatsu é mais “habilidoso” que a média para fazer a gente rir, mas eu acho que a intenção da obra não é só essa, é também celebrar a família sem se prender a estereótipos.

Até a próxima!

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