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Esse é o primeiro artigo de uma série sobre os animes que considero inesquecíveis desse ano. Não serão necessariamente os melhores, embora todos sejam muito bons. Ao invés disso, a proposta é selecionar animes de gêneros diversos que em seu conjunto representam o que de mais marcante a indústria de animes para TV produziu esse ano. Seguindo essa proposta, não faria muito sentido escolher muitos animes de um mesmo gênero ainda que todos fossem excelentes, pois a saturação do gênero diluiria o relevância de cada um deles, além do alcance em número absoluto de pessoas ser menor quanto menor for o número de gêneros representados na seleção final. E o primeiro escolhido foi No Game No Life, uma aventura de dois adolescentes não conformados a sua realidade que vão parar em um mundo completamente diferente onde suas habilidades, menosprezadas no seu mundo de origem, farão toda a diferença.

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A adolescência é o momento em que aprendemos muita coisa e muito rápido. Deixamos de nos importar apenas com o que vamos fazer hoje, com a vida cotidiana que temos, com o mundo imediato que nos cerca, e vislumbramos o vasto horizonte para o qual nunca havíamos prestado muita atenção. Além, queremos ir além de onde estivemos ontem, e amanhã desejaremos ir além de onde fomos hoje. Porém frequentemente esse deslumbramento é interrompido ao nos encontrarmos incapazes e impotentes de seguir adiante. O ânimo se transforma em frustração, e começamos a criar válvulas de escape para essa frustração. Aproveitar ao máximo o que temos, hobbies e atividades que excitam nossas emoções, em casos extremos o puro e simples escapismo para mundos próprios, pequenos mas sobre os quais temos total controle – ou temos a ilusão de controle, pelo menos.

No Japão uma forma comum de escapismo é a reclusão. Ficar o tempo todo trancado em um quarto fazendo qualquer coisa que se goste, algo no que seja bom ou com o que consiga se divertir passando o tempo: internet, animes, jogos, pornografia. Não tenho conhecimento da existência de casos de reclusão extremos assim aqui no Brasil, mas muitas pessoas por aqui também se isolam em seus hobbies da forma que podem.  Mas e se existisse outro mundo, um mundo onde você não encontra essas barreiras que encontra no mundo real e onde pode continuar indo além dia após dia após dia. Um mundo onde o seu talento importa, onde se é desejado e necessário. Sora e Shiro, os protagonistas de No Game No Life, encontraram um mundo assim e nos levam para explorá-lo e conquistá-lo junto com eles.

Os dois irmãos são hikikomoris que passam o dia todo em um quarto escuro e cheio de máquinas rangendo junto ao som de sua digitação e seus cliques de mouse naquilo que eles fazem melhor do que ninguém: jogar. Sora é o irmão mais velho, inteligente, bom estrategista e o mais capaz de se comunicar com outras pessoas. Shiro é a irmã mais nova, muito mais inteligente e quem realmente possui o talento sobre-humano para jogar. Shiro (“branco” em japonês, cor associada à pureza) é protegida por Sora (“céu”), que se esforça para prover à irmã condições onde possa usar seu talento especial. Sora quer escoltar sua irmã imaculada até os céus, que é o lugar ao qual gênios como ela pertencem.

Esse mundo de jogos é convenientemente governado por leis que permitem aos irmãos irem aonde quiserem com seus talentos, sem as limitações que o mundo real os impunha. Longe de ser um mundo igualitário, é um mundo onde o mais forte se impõe sobre o mais fraco, tal qual o nosso, mas não existe nenhuma barreira artificial (dinheiro, política, fronteiras, apenas para citar algumas do nosso mundo) que impeça os mais fracos de chegarem aonde quiserem apenas com o seu talento se assim desejarem e se forem capazes. Percebendo isso, Sora e Shiro desafiam todos os poderes desse mundo com uma confiança que para qualquer um pareceria imprudência e só irão parar quando chegarem ao topo, vencendo esse jogo.

Confesso que antes de começar a assistir eu esperava algo que fosse centrado na temática jogos, algo do gênero de Liar Game ou Kaiji, apenas mais colorido, com uma história mais leve e protagonistas adolescentes. Por causa desse equívoco eu fiquei frustrado durante boa parte da temporada. Mas embora eu me sentisse frustrado, ao mesmo tempo eu queria continuar assistindo e sentia que estava vendo alguma coisa ali que eu não sabia o que era. Eu estava cegado pelas minhas expectativas e frustrações e demorei para chegar a essa conclusão que acabei de apresentar. Mas quando percebi tudo fez muito mais sentido. Porque roubar no jogo era tão comum (de fato, quase um requisito para vencer alguns jogos apresentados) embora não roubar no jogo fosse uma das regras do mundo, porque os jogos quase sempre mudavam loucamente de rumo durante seu curso, virando outra coisa totalmente diferente, porque os protagonistas não mudaram nada do começo até o fim, porque nunca estiveram ameaçados de fato. Quando eu entendi do que se tratava No Game No Life tudo isso fez sentido e posso hoje admirar com sinceridade a coragem e a determinação desses irmãos.

O anime é belamente animado, colorido demais para o gosto de alguns, mas eu particularmente adorei a paleta de cores de No Game No Life desde o começo. A animação consegue passar perfeitamente a sensação do que deveria ser um mundo de jogos. Os demais personagens, com exceção de Dora, são todos de alguma forma ou de outra mais maduros que Sora e Shiro. É como se eles representassem os adultos do mundo real que não acreditam que eles sejam capazes de coisa alguma. Estão lá para serem derrotados, para os irmãos provarem a eles que estão errados e estender a mão generosa em seguida. Generosos sim, mas ao mesmo tempo egoístas. Eles têm uma visão de mundo e nessa visão tudo será melhor. Eles permitem a qualquer um participar desse sonho mas não se importam nem um pouco se os outros querem ou não. Tipicamente adolescente. Dora representa todos aqueles que, na situação de Sora e Shiro, pensam em desistir. Os irmãos mostram continuamente a ela que é possível sim, que eles vão conseguir.

E para não dizer que esse anime é uma vitória de perfect, tenho que dizer que achei que humilharam demais a Dora. Eu sei que é piada e fanservice ao mesmo tempo, mas ver a pobre coitada ser feita de gato e sapato em praticamente todos os episódios foi um pouco incômodo, em alguns episódios a humilharam tanto que foi constrangedor assistir. Talvez incomode alguns também por terminar em aberto, mas não há muito o que fazer a esse respeito dado que o material original, uma light novel do autor Yuu Kamiya (brasileiro de ascendência japonesa), ainda está em andamento. Mesmo assim, No Game No Life com certeza foi um dos animes inesquecíveis de 2014, e se você ainda não assistiu mas se interessou pelo que leu aqui, se gosta de ver adolescentes desafiando seu destino e fazendo aquilo que querem por mais impossível que pareça ser, No Game No Life é para você, não perca mais tempo e assista o quanto antes.

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