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Se você leu e guardou na memória meu artigo do episódio anterior, eu dizia que ao contrário de todos os outros salões, Jaheim era o único que não carregava o nome de um dos mundos da cosmologia nórdica. Isso só alguém que pesquise um pouco ou conheça a mitologia em questão poderia saber (é uma pesquisa de dez minutos, de todo modo), mas havia um outro sinal que qualquer um poderia reparar: Jaheim era também o único salão que não era guardado por um guerreiro deus, mas pelo Kamus, um cavaleiro de ouro. Jaheim e Helheim eram os salões que mais chamavam atenção, mas o mistério de Helheim estava mais ou menos compreendido, ou encaminhado nessa direção. Jaheim era apenas uma esquisitice a espera de uma explicação. E ela veio! Parte considerável da diversão de uma série que usa elementos de conhecimento público é usar eles para encontrar elementos que destoam e tentar especular tendências. Cavaleiros do Zodíaco sempre foi legal por causa disso.

Antes de entrar no episódio em si, quero fazer uma digressão sobre o comprimento da série Soul of Gold. Apenas doze episódios. Será que isso é um problema quando comparado às antigas e longas séries de Cavaleiros? Uma consequência de você esticar uma história em mais de uma centena de episódios é que tudo é esticado. Combates duram várias lutas. Você vai ver isso em Dragon Ball Super, que já estreou e tem 100 episódios confirmados. Mas Cavaleiros do Zodíaco: Soul of Gold é o contrário. É uma série normal de 12 episódios, que só vai durar duas temporadas porque é quinzenal. Normal para os dias de hoje, mas não para quando Cavaleiros surgiu para o mundo, razão pela qual essa diferença cria um contraste forte entre Soul of Gold e qualquer outra série da franquia, mesmo as recentes Lost Canvas e Ômega. Com pouco tempo, tudo tende a ficar muito condensado e precisa ser resolvido rapidamente. E também isso já havia acontecido antes na franquia, com os filmes, inclusive o mais recente Lenda do Santuário. Mas para uma história com a quantidade de personagens e batalhas como Cavaleiros um filme  pode ser pouco tempo demais e a coisa toda fica meio boba (e alguns dos filmes sequer são longa metragens), os personagens se apresentam a as lutas acabam em um ou dois golpes. As vezes até mais ridículo que isso. Com doze episódios, contudo, embora eu não consiga evitar o estranhamento, acho que os combates estão ficando bacanas. São curtos sim, e faz uns episódios já que vários combates são intercalados em tela, o que dá uma sensação de estranheza ainda maior. Mas não são os combates longos das séries anteriores praticamente iguais aos combates de Soul of Gold, só que repetindo várias vezes o que aqui só tem tempo de acontecer uma vez, talvez duas? Pensando dessa forma, não consigo mais achar que doze episódios seja pouco. Pelo menos por enquanto o ritmo está bom, palmas para a direção.

Voltando ao episódio: a parte mais épica e divertida foi a luta do Aldebaran. Acho que essa é a primeira versão de Cavaleiros que não pinta o Aldebaran como um pateta, estou errado? Ah, claro, tem a Saga de Hades também, mas ela não é isolada, é parte da história original onde ele ficaria conhecido como “Cavaleiro de Tartaruga” ao esconder a cabeça dentro da armadura para escapar do golpe de um general marina. É verdade que gigantes gentis existem aos montes e geralmente são engraçados também, e o Aldebaran encarnou bem esse clichê. Mas assistir ele sendo simplesmente badass de vez em quando também é legal, e não lembro de tê-lo visto tão badass antes como nesse episódio, onde ele sequer se deu ao trabalho de esquivar dos golpes do inimigo, que no entanto batiam nele como se batessem em uma muralha sólida. E o tapa na cara que arrancou sangue e quebrou o elmo. E tudo. Aldebaran foi o cara desse episódio.

Jaheim, o lugar que não deveria existir, foi palco da luta entre Kamus e Shura. Ambos usaram seus mais poderosos golpes e Shura caiu porque não mirava em Kamus, mas na estátua. Mal sabia ele que aquele salão escondia um segredo. Nós espectadores sabíamos! Eu não sabia qual segredo, claro, mas aquele salão era estranho e destoava dos demais. E a farsa foi desfeita: Jaheim era na verdade a fachada de Muspelheim, que na mitologia nórdica é o mundo dos gigantes de fogo governados por – adivinhe só – Surtr. Muspelheim em Soul of Gold é protegida pelo guerreiro deus Surtr e possui sua própria estátua, então o sacrifício de Shura havia sido em vão. Quando Surtr desfere o golpe de misericórdia em Shura, Kamus decide que ficar ao lado do ex-amigo não o está ajudando em nada, e então eles lutam. Kamus eleva sua armadura à forma divina, derrota Surtr, destrói a estátua, e fim. Somando com Aldebaran, foram três cavaleiros de ouro caídos após derrubarem três estátuas – o que deixou Andreas bastante irritado.

O maior potencial desse episódio, contudo, está na luta de Dohko, que nem começou. A razão é que essa batalha pode revelar o que realmente está acontecendo com Lifia, e o oponente ser o guerreiro deus mais misterioso de todos, Utgard, só aumenta a expectativa. Será Utgard outro morto revivido? Considerando o cabelo dele, vou fazer um chute aqui: Utgard é o Kanon. Ele sempre dá um jeito de arranjar uma armadura e se meter em encrenca contra ou com os cavaleiros mesmo. Talvez ainda não seja no próximo episódio que descobrirei, já que pela prévia o foco será um combate entre Shaka (e as shaketes piram) e Baldr, o guerreiro deus imortal.

Imortal? Mais uma pitada de mitologia nórdica aqui: Baldr era um deus imortal que não poderia ser ferido por nada. Sua mãe Frigga saiu pelo mundo pedindo a todas as coisas (não apenas criaturas, mas também pedras, objetos em geral, etc) que não ferissem Baldr depois que Odin descobriu que sua morte era iminente. Mas Frigga não fez esse pedido a uma planta pequena e de aparência inofensiva (justamente por ser pequena e de aparência inofensiva): o visco. Pois eis que Lóki descobriu isso e em uma festa onde os deuses estavam se divertindo arremessando coisas contra Baldr, Lóki (disfarçado) deu um ramo de visco a Hodr, irmão cego de Baldr, que atirou-a contra ele e o matou (dependendo da fonte, Hodr teria atirado uma flecha de visco; bom, o efeito final é o mesmo). Então espero um combate difícil mesmo para Shaka, que terá que descobrir uma fraqueza (provavelmente estúpida) de Baldr para derrotá-lo e derrubar sua estátua.

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