[sc:review nota=4]

Charlotte é mesmo uma série sobre mutantes. Sim, já estava na sinopse e o primeiro episódio não traiu a expectativa, mas ainda assim os “poderes especiais” poderiam ser apenas um detalhe, uma característica, algo que servisse de motivo para unir os personagens principais e pudesse ser usado aqui e ali para resolver problemas no enredo que são mais facilmente resolvidos com super-poderes. Nesse segundo episódio, porém, eles são arrastados para o centro da trama conforme o passado sobre a Tomori é revelado junto com um conflito maior por causa deles e o Yuu se torna mais consciente dos perigos e problemas que envolvem a posse e uso de super-poderes. Pessoas como ele, que possuem tais poderes, são raras, e isso está longe de ser uma vantagem para ele como sempre acreditou.

Agora quero desenvolver mais essa questão da “raridade”. Não sei se foi a intenção do anime, mas ele tocou nisso em vários momentos. Pessoas com super-poderes são raras sim, mas não tanto quanto o Yuu imaginava. Existe adolescentes com super-poderes ou com chance de desenvolver super-poderes em quantidade suficiente para encher pelo menos um colégio – e esses são só os que um número minúsculo de alunos desse mesmo colégio consegue encontrar sozinho e convencer a tranferirem-se para lá. Mesmo assim, em comparação à população geral, eles são raros. Tão raros que os poucos que existem podem ser separados da sociedade, tratados como cobaias, e não vai haver quem sinta falta deles. Seu poderes são únicos e despertam interesses de todo tipo, e o governo e cientistas malvados (oh, bem, o governo e cientistas sempre são malvados nesse tipo de história) estão dispostos a jogar qualquer conceito de ética que possam ter na lata do lixo para colocar a mão nesses poderes para entendê-los e, com sorte, usá-los. Até para os portadores de poderes o próprio poder é algo raro: surge na adolescência e desaparece depois. Quando desaparece, eles deixam de ser úteis para os objetivos excusos de gente excusa e são simplesmente abandonados – eles deixam de ser raros. E não é como se portadores de poder fossem tão raros assim, como já vimos, então não há problema algum em jogar um ex-portador fora. É fácil para uma organização gigante como o Estado capturar outras, por mais raras que sejam. No final do episódio há um momento de poesia quando a Ayumi diz que ela não quer ver qualquer cometa, ela quer ver um de órbita longa, que só passa pela Terra uma vez a cada centenas de anos – ela quer ver um cometa raro. Mas eu penso que, assim como os poderes são únicos, as pessoas também são. Mais raras que cometas de órbita longa: enquanto esses passam pela Terra uma vez a cada centenas de anos, uma pessoa passa pela Terra uma única vez. Você é mais raro que qualquer cometa de órbita longa.

Como eu disse no artigo de primeiras impressões em que tratei do episódio inicial de Charlotte, acredito que a Ayumi irá ter um papel maior na história. Ela ter citado cometas de órbitas longas me soa um presságio: depois de passar o episódio inteiro vendo pessoas com poderes especiais que apesar de tudo parecem ser do “mesmo nível” (teleporte, possessão, controle de ondas de ar), e saber que esses já despertam a ganância do governo, como seria se surgisse um portador de um poder de um nível totalmente diferente, algo que estivesse para os poderes normais como os cometas de órbita longa estão para os cometas comuns? Ayumi ainda é jovem e, tendo um irmão mais velho com poderes, é perfeitamente possível que venha a desenvolver seus próprios poderes em algum momento.

Yuu chega a se preocupar com a irmã depois de tudo o que descobriu sobre Tomori e seu próprio irmão. Ele se identifica com a situação da colega, pensando o que seria de sua irmã e o quanto ela sofreria caso ele fosse pego pelo governo. Enquanto faz sentido que ele tenha esse tipo de preocupação com a irmã mais nova, afinal não só ela é a única família dele mas ele, ao fim e ao cabo, é o responsável por ela, eu achei que foi uma preocupação meio deslocada, desnecessária nesse momento, além de não combinar com a personalidade dele (mesmo que ela mude na presença da irmã, a ponto de aguentar a tortura de comer todo dia algo que não gosta só porque deixa a irmã feliz). Como eu disse, é desnecessário: ele já sabe de tudo, sabe que precisa tomar cuidado, e está em um colégio que existe exatamente para protegê-lo. E foi deslocado não tanto pela Ayumi, mas pela forma como ele se identificou com o irmão da Tomori, e não com a própria, que ele conhece muito mais e que tem a mesma idade que ele. Suponho que isso sirva a dois propósitos: primeiro, abrir espaço para um possível relacionamento romântico entre os dois e segundo, desviar o foco da Ayumi, como se o único problema dela fosse o irmão. Como eu disse, ela pode desenvolver poderes a qualquer momento e aí esse vai ser o maior problema dela. O fato do Yuu aparentemente nunca ter conversado sobre seu poder com a irmã não ajuda. Se e quando ela desenvolver poderes, não saberá o que fazer nem se deve ou não conversar com o irmão (é perfeitamente possível que ela já tenha um poder e apenas esteja escondendo dele, embora eu duvide que seja o caso).

Para muitos propósitos, Charlotte parece ser o “Plastic Memories” da temporada: um romance adolescente em um cenário de realidade fantástica. Ok, não há romance nenhum até agora, mas eu aposto que há de haver, e não é porque gosto muito de romances (até gosto, mas não de romances forçados) ou porque acho que Yuu e Tomori formem um bom par, mas apenas porque costuma ser a lógica nesse tipo de série com esse tipo de cenário. Pode ser que o romance nunca se concretize ou nunca deixe de ser insinuado, mas acredito que pelo menos até esse ponto (o da insinuação) ele vá chegar. A seu favor nessa comparação, Charlotte parece que vai usar melhor seu elemento fantástico (em Plastic Memories realmente não fez diferença a Isla ser um androide ou sequer haver androides na história). Acredito que o drama não será focado no casal principal, mas na Ayumi, o que não é problema nenhum. Por enquanto estou me divertindo com os mistérios desse anime e acho que ele tem potencial, embora seus personagens ainda precisem de um bocado de desenvolvimento para se tornar interessantes.

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