[sc:review nota=4]

Todos amam a Anna! Só eu que não? Ela nem parece tão bonita assim. Ou talvez não seja só eu e esse seja um efeito proposital. Você acha a Anna tão atraente assim? Bonita? Interessante? Não importa o que eu e você achamos, o fato é que todo mundo nesse anime gosta da Anna. Quase todo mundo ama a Anna. Afinal, o que há de tão atraente nela?

Como está claro desde o primeiro episódio e como eu disse sobre o episódio anterior, a Anna é a representação da pureza. É o protótipo de “novo ser humano” que está sendo gestado pelas leis de defesa da moral no Japão. Poucos japoneses podem ter sua aparência alvíssima por razões genéticas, claro, o que a torna mais do que um protótipo: ela é um ideal. Nunca haverá alguém tão puro quanto ela, mas se todos se espelharem em Anna, então os objetivos dessas leis estarão cumpridos e o novo mundo estará pronto para que o admiremos.

As implicações das próprias leis e do padrão Anna contudo não são tão brilhantes quanto seus olhos: sob severa censura, os jovens não apenas não sabem mais como funciona a reprodução ou sua etapa anterior, o cortejo, como estão começando a perder a noção do sentimento que eles ativam. São muitos os que dizem amar a Anna e certamente outros tantos que, como Goriki, a amam mas não sabem, mas nem os primeiros nem os últimos sabem o que é o amor, por isso não dá para confiar em alguém que diz amar Anna bem como não dá para confiar que alguém não ama Anna. É a morte do próprio sentimento “amor”. Em poucas gerações mais e ninguém saberá que tal sentimento um dia existiu, ou talvez a palavra adquira um significado totalmente diferente. Há muita química envolvida no amor, mas há também muita construção social e é ela que está sendo destruída – se intencionalmente ou não, ainda não sei.

Tendo uma aparência bela e que se destaca com facilidade (mas, e isso pode ser a minha opinião, não uma aparência necessariamente atraente para o espectador de animes, ou não retratada de forma a parecer atraente), aliada a sua posição social e a educação acadêmica e moral que sempre recebeu (e certamente ajudada por suas próprias qualidades pessoais), não é de se espantar que tantas pessoas nesse mundo se apaixonem ou acreditem se apaixonar por Anna. É quase uma pena que ela seja uma farsa.

Eu sei bem que eu disse que em algumas gerações o próprio conceito de amor pode desaparecer por completo ou ser substituído por algo muito diferente, mas o mesmo não se pode dizer dos instintos humanos. Muita coisa boa e muita coisa ruim que carregamos conosco até hoje devemos diretamente aos nossos ancestrais nas cavernas. Isso não é algo que se mude com facilidade em tão pouco tempo. Ainda que Anna não saiba o que é amor, não saiba como funciona ou o que é a reprodução humana, não tenha a menor ideia das convenções sociais (agora proibidas) sobre romance, ela ainda é capaz de se sentir sexualmente excitada. Bastou um acidente no fim do episódio para a máscara da Anna ganhar mais uma rachadura. Outra ela já havia ganhado no episódio anterior: não há muita pureza na violência fria e desmedida. Anna pode ser bela e pura, mas tem habilidades físicas de uma militar treinada. Sem coincidência nenhuma, Tanukichi foi o responsável pelas duas perturbações na imagem da Anna que por enquanto só nós espectadores pudemos notar.

Não obstante ser uma farsa, todos amam Anna. Tanukichi eu já sabia desde o começo que se apaixonou por Anna quando ainda era uma criança ostracizada porque seu pai foi preso e condenado. Provavelmente não é coincidência que a história da Kajou seja praticamente a mesma, e ela até tentou mudar um pouco por influência da Anna, mas ao contrário do Tanukichi vê-se que ela fracassou de forma retumbante. Goriki, como bom animal que representa ser, está mesmo física e sexualmente atraído pela Anna, apenas é incapaz de compreender isso porque a censura o impediu de ter qualquer informação a respeito e saber o que está sentindo. E todos aqueles marmanjos perigosos que foram pegos na armadilha no fim do episódio também não sabem o que é isso, e mais importante, não sabem como se comportar, por isso são tão perigosos. Porque quando você não sabe o que fazer mas sente urgência de fazer algo, acaba fazendo o mais fácil. Saotome, a artista que estreou de verdade nesse episódio é um caso diferente. Sentindo-se atraída pela Anna mas não necessariamente tendo se apaixonado, ela simplesmente assumiu que fosse amor. Também no caso dela porque não sabe o que é amor.

Tanukichi e Kajou, jovens que ainda tiveram o privilégio de crescer e aprender sobre todas essas coisas (ainda que não necessariamente da melhor forma possível), são a esperança desse mundo perturbado enquanto a mãe da Anna se prepara para dar mais um golpe contra a liberdade e contra o amor. O que ela pretende? O seu chute é tão bom quanto o meu. Em um assunto realmente não relacionado com os temas tratados nesse artigo, esse episódio deu o primeiro sinal de que o Tanukichi irá se apaixonar pela Kajou. Uma comédia escolar pervertida não poderia ficar sem um romance de verdade, né. Ainda assim, acredito que haverá algum significado maior nisso. A ver.

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