Escrevo esse artigo morrendo de dor nas costas, e seria bom se fosse dor de felicidade, mas é só dor de idade mesmo (e de ficar o dia inteiro ao PC em móveis inadequados e com má postura). Como hoje já saíram outros dois artigos (Myriad Colors episódio 11 pela Josiane, e minha coluna Meu Anime no OtakuPT) eu quase me esqueci de escrever Rakugo Shinjuu enquanto tentava me esquecer da dor nas costas. Me desculpe pelo atraso.

Mas senti outro tipo de dor enquanto assistia esse episódio de Rakugo Shinjuu. Uma dor no peito (e não era ataque cardíaco, não sou tão velho – se bem que …). Por tão pouco eles estão todos tão felizes, a Konatsu é uma menina tão fofa e alegre, Yakumo recuperou a esperança e Sukeroku parece ter recuperado a razão para viver. Mas eu já sei como tudo isso vai acabar. Não precisava nem ter assistido a prévia para saber, porque desde o primeiro episódio esse desfecho é um dado. Aqui é Rakugo Shinjuu, não é BokuMachi, não dá para mudar o passado. Ai que dor…

Konatsu "gruda" no Yakumo quando descobre que ele faz rakugo

Konatsu “gruda” no Yakumo quando descobre que ele faz rakugo

A Konatsu é como um gato arisco, é muito bonitinha e não nega comida (e dinheiro), mas além disso ela não quer muita intimidade com o Yakumo não. Arranharia o rosto dele e morderia sua mão se fosse um gato de verdade. A atitude dela só muda completamente quando descobre que o Yakumo é um contador de histórias. Tendo crescido em um vilarejo pequeno no interior, o que terá a tornado tão arredia assim? Bom, não vou especular muito porque ela talvez seja assim só com o Yakumo, só porque ele é alguém de fora e ela sabe disso. Há mais para dizer sobre ela em sua relação com sua mãe, contudo.

Como era de se esperar, Miyokichi proibiu o Sukeroku de fazer rakugo. A minha surpresa não foi ele ter aceito isso, mas sim não ter procurado nenhuma outra forma de ganhar a vida. Por que seguiu a Miyokichi para o interior então? A desculpa dele era a gravidez dela, mas se ele não trabalha não tem como ajudar a sustentar a criança. Pretendia ser um “dono de casa”? Se mesmo hoje em dia homens que não trabalham e ficam cuidando de casa enquanto suas esposas saem para trabalhar ainda são estigmatizados no Japão, tente imaginar naquela época. E não creio que isso fosse opção de todo modo considerando o quão pobres os dois eram. Mas ele sempre foi teimoso e irresponsável desse jeito né, então acho que era de se esperar.

A Miyokichi continuou fazendo rigorosamente o que já fazia em Tóquio também, porque é só o que ela sabe fazer e, como Sukeroku, não tem a menor intenção de mudar. Ela sai com homens, e bom, você pode imaginar todo o resto, ganha algum dinheiro e sustenta um marido vagabundo e uma filha. Às vezes precisa (ou quer) ficar muito tempo fora de casa, pelo que entendi essa não foi a primeira vez que isso acontece. Me pergunto quais os sentimentos dela pela filha. Porque a Konatsu cresceu adorando o rakugo do pai, e rakugo é o que a Miyokichi mais despreza. Será que ela passou a desgostar da própria filha, ainda tão nova? É uma possibilidade triste.

Que personagem triste e amargurada a Miyokichi, que era tão brilhante no começo, se tornou. É verdade que ela já era amargurada por dentro quando apareceu na história, descobre-se isso depois, mas os anos que passou com o Yakumo, os anos em que o amou apenas para ser rejeitada no final, a destruíram. Ela se agarrou a um orgulho tolo pela única coisa que fez a vida toda (prostituir-se, de todas as coisas!) apenas para continuar vivendo. E como já defendi antes, tirar o Sukeroku de perto do Yakumo e do rakugo foi a sua vingança do último homem que ela ousou amar de verdade. Depois ela brincou com o Sukeroku e o desafiou a fazê-la esquecer do Yakumo, pedindo que ele fizesse ela se apaixonar. O que provavelmente já era impossível àquela altura.

Por adorar o rakugo e porque a Miyokichi proíbe o Sukeroku de praticá-lo, a Konatsu odeia a própria mãe. Ela também não gosta do estilo de vida que ela leva e, principalmente, deve odiar os períodos em que ela some de casa. Sobre o estilo de vida da Miyokichi: como pode uma criança fazer um juízo de valor? Provavelmente ela só repete coisas que escuta os outros dizer. Também deve ver a tristeza nos olhos do pai quando a mãe não volta para casa. É essa Konatsu que o Yakumo encontra. O nome dela é escrito em japonês dessa forma: 小夏. E o significado é o título do artigo: Pequeno verão.

Para o Yakumo, entre a morte de seu mestre e a subsequente pressão para assumir o título, e a morte de Sukeroku que está por vir, certamente esse período que ele passa com Konatsu e Sukeroku no interior é um “pequeno verão”. Um curto período de tempo brilhante, iluminado, caloroso. Nada é fácil, mas nada nunca foi fácil. O Sukeroku está muito reticente sobre voltar ao rakugo, não por causa da proibição da Miyokichi, mas porque sabe que vai ser difícil conseguir voltar depois de tanto tempo sem praticar – fora que o público diminuiu ainda mais. O esforço do Yakumo e a alegria da Konatsu estão começando a convencê-lo, e ele chegou até mesmo a se “apresentar” junto com o irmão para a filha no final do episódio.

A apresentação foi um sucesso!

A apresentação foi um sucesso!

Uma “apresentação” curta, improvisada, mas que não poderia ter sido melhor. Durante a apresentação o Yakumo fez o papel de uma mulher e Sukeroku de um homem, o que deve ter alegrado muita gente por aí que imagina os dois juntos, hahaha! Eu só acho que os dois foram intérpretes fantásticos e que são íntimos o bastante para conseguirem se apresentar daquela forma sem ensaio e sem pudor. Foi uma apresentação complexa, que o Yakumo começou sozinho, e que fez a Konatsu sentir diversas sensações diferentes: medo, alegria, rubor. E no final o Sukeroku chora, aposto eu que já convencido a retornar para o rakugo. Mas notícia em cidade pequena voa, e a Miyokichi logo descobre. O verão está acabando e vai levar consigo toda a alegria debaixo daqueles cabelos ruivos.

Algumas feridas nunca cicatrizam ...

Algumas feridas nunca cicatrizam …

  1. Olá, Fábio! Para variar, peço desculpas pelo meu atraso. m(_ _)m Sabe que sou lerda mesmo, mas eventualmente venho aqui! Como sempre, post muito bem escrito, parabéns! Adorei você ter usado a imagem das flores de cerejeira no começo do post, confesso. A Konatsu dando a mão para os dois e saltitando entre as flores de cerejeira (que, como já disse, representam crescimento e maturação, né?) foi extremamente adorável, né? Pena, realmente, que a gente sabe o que vai rolar.

    Adorei sua comparação da Konatsu com um gato arisco, porque é a pura verdade, haha. ^_^ Acho que ela é arredia sim, porque, bem, olha para os pais dela… a mãe, mais “gata arisca” impossível; o pai não faz nada, e ela tem que “cuidar da casa”, na sua cabecinha… ela parece muito simpática, mas dura na queda. Chega pro moço desconhecido e fala: “ouviu, tem que pagar”. “Quer saber do meu pai? Não falo, você é estranho.”

    Ah, quanto ao Sukeroku ter seguido ela, eu acho realmente que foi por outras coisas: porque ela queria, não para ele cuidar da Konatsu nem nada, ela queria que ele fosse com ela com a desculpa de cuidar da criança, mas vemos que ela não liga muito para nenhum dos dois (isso é o que eu acho, e se você viu o episódio 12 sabe o que está por trás disso!); ela queria é fugir daquela sua vida, e queria um homem com ela, e que ótimo se esse homem for a sua “vingança”… é isso que eu pessoalmente acho que aconteceu. O Sukeroku foi porque ele se sentiu responsável, acredito eu, mas ele teve a opção de ficar. O Kikuhiko implorou para ele ficar. A escolha dele não foi mostrada no episódio, também queria saber como se deu, mas acho que ela o convenceu no fim das contas… Sabemos que ela é persuasiva, por natureza e por encargo. Bem perigosa. Ah, sim, e eu fiquei muito triste ao vê-la realmente no quarto com um homem, realmente tendo fugido de casa. A personalidade dela sempre foi bem problemática e nada subserviente. Ela mesma sabe disso e sabemos disso também. Ainda assim, como comentei no meu post, essas histórias em que uma mulher enlouquecida acaba com uma parceria me deixam triste. O bom é que tem a Konatsu como contraponto, a moça que detesta sua mãe pelas besteiras que ela faz. Nem nisso eu posso criticar esse anime, haha.

    E sim, muito bem notado sobre a Konatsu talvez não fazer os juízos de valor por si mas sim pelo que ouve dos outros – e me pergunto se não ouve do seu pai, até porque eles devem brigar muito… enfim, ela diz que Sukeroku está melhor sem Miyokichi, com certeza passa por maus bocados com eles.

    E afinal, minha memória está ruim, mas em algum momento no episódio 10 alguém não fala que queria dar esse nome a ela por conta do verão? Eu tenho a impressão de que ouvi isso, talvez o Sukeroku dizendo que gosta das estações ou algo assim, mas já faz uns episódios. Enfim, comparação muito bem feita.

    E senti uma cutucada nesse “muita gente”… 😛 HAHA! Brincadeira a parte, fui dessas sim… apesar de que na verdade o que me deixou mais feliz mesmo foi a Konatsu encabulada, aquele easter egg de “é pra parecer romântico mesmo, relaxa”. Muito obrigada, autora! E a gente já sabia que eles eram intérpretes fantásticos, mas a Konatsu concordando com a gente e se divertindo com o rakugo improvisado dos dois foi a coisa mais fofa. Eu achei no entanto que o Sukeroku tinha chorado por ver a Konatsu assim, feliz, de emoção mesmo.

    Enfim, mais uma vez, parabéns pelo post super bem escrito, e peço mil desculpas pelo atraso. Até mais!~

    – Chell
    http://www.notloli.com.br

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Nossa, desculpe eu, podia jurar que havia respondido esse seu comentário e só hoje percebi que deixei passar em branco D= Desculpa!!! E obrigado pelo comentário!

      Sabe que eu não queria usar aquela imagem de capa? Porque eu já a havia visto sendo usada em dois blogs e eu mesmo já a havia usado no meu artigo no OtakuPT. Mas simplesmente não consigo encontrar outra imagem que sintetize esse episódio melhor do que essa =)

      Tenho duas gatas aqui em casa então é fácil para mim ver gatos por todo lado, LOL, mas sim, ter os pais que tem certamente foi fator crucial para a Konatsu ser quem é. E qual será a contribuição do Yakumo, hein? Espero que o último episódio mostre um pouco disso.

      Mesmo sem amar de verdade o Sukeroku, tenho para mim que ela realmente esperava que ele cuidasse dela e ela não precisasse mais fazer aquele “trabalho”, mesmo ela já tendo internalizado aquilo como parte dela. Mas sim, ela escolheu o Sukeroku em primeiro lugar como vingança, e eu mesmo disse isso em artigos anteriores. Esse era o primeiro objetivo dela, e por isso ela engravidou e fez ele a acompanhar por senso de culpa e responsabilidade. Uma vez no interior, contudo, ela o proibiu de praticar rakugo porque isso a lembrava do Yakumo, e aí o Sukeroku, que já havia se acostumado a viver pendurado nela do tempo em que viveram em Tóquio, se pendurou de vez e nada mudou de verdade na vida deles. Não é à toa que ela ficou esse tempo todo “esperando” o Yakumo.

      Eu não tinha pensado como seria a vida doméstica do Sukeroku com a Miyokichi. Realmente, para a garota escolher um lado assim não deveria ser fácil. Se fosse só algo que ela ouvia na rua creio que a tendência seria ela defender a mãe na rua de quem quer que falasse mal dela (parece consoante com a personalidade da menina), ou pelo menos vir confirmar em casa com a própria mãe o que andam falando dela (como ela fez com o Yakumo quando falaram que havia um artista de rakugo procurando por ela).

      No 10 eu não lembro, mas no 12 ele contou todos os nomes que tinha preparado =D

      Sim, foi uma cena para parecer romântica mesmo, sem dúvida. Se é só atuação ou se há algo no coração dos dois acho que nunca vamos ter certeza, não é? O que é parte da graça desse tipo de coisa em ficção. E foram tantos sentimentos ao final da apresentação que sim, você pode estar certa quando à Konatsu ao mesmo tempo em que eu estou certo sobre o próprio Sukeroku com seu rakugo. Pode ter sido várias coisas ao mesmo tempo que ele sentiu e só conseguiu expressar através de lágrimas.

      Obrigado de novo pelo comentário, e mil desculpas por ter demorado dois dias para responder, prometo me esforçar para que isso não aconteça mais =x

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