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Segundo estimativas do Population Reference Bureau, entre pessoas vivas e mortas, 108 bilhões de seres humanos já nasceram no mundo desde cerca de 50 mil anos. Isso significa que para cada vivo há pelo menos 14 que já morreram – e isso só nos 50 mil anos após o homo sapiens ter adquirido as características anatômicas atuais.

E se todas elas retornassem do Tártaro para se vingar, punir ou no geral nos reclamar de volta para o pó de onde viemos?

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A gente estaria ferrado. Eu não dou conta dos meus 14, você garante os seus? Mas convém nos perguntar, em primeiro lugar, o porquê da morte nos fascinar.

Nenhuma das sessões desse artigo têm a pretensão de esgotar seus assuntos ou listar todos os seus respectivos itens.

A Morte

Sobre nossos progenitores ocultos por uma densa névoa de dezenas de milênios não sabemos muito. Eles não sabiam escrever e nem paravam por muito tempo em um só lugar para deixar muitos registros inteligíveis. Mas muito antes da agricultura (cerca de 12 mil anos atrás) e da escrita (cerca de 3500 anos atrás), o homem e seu primo próximo neandertal já se davam ao trabalho de enterrar seus mortos desde cerca de 300 mil anos. Reverência pelo morto? Ritual para passar para o além-vida? Medo de maldição, danação ou qualquer coisa ruim que um cadáver insepulto possa decidir fazer? Um pouco de cada ou nada disso? O inegável, em qualquer hipótese, é que muito antes de tudo o que você considera normal para um ser humano, ou mesmo do que sabemos ou especulamos ser normal em populações antigas, os seus ancestrais já tinham um tipo de preocupação relacionada com a morte.

Conforme o ser humano evoluiu, seus conceitos e crenças relacionadas à morte também. Se é possível ir daqui para lá, deve ser possível voltar de lá para cá. Como? A ressuscitação da carne morta ou a reencarnação da alma em carne nova? Será que rever os mortos é bom? Será que eles se levantariam e retornariam à sua vida normal? Ou isso poderia ser um perigo em potencial?

Tememos a morte. Tememos os mortos. Tememos os mortos-vivos!

Mitos e folclores de criaturas que morreram e voltaram a vida, simples cadáveres reanimados ou possuídos, além de toda sorte de aparições, fantasmas e assombrações são uma constante no desenvolvimento de qualquer cultura durante a história humana. Entre costumes culturais e monstros folclóricos relacionados aos mortos, gostaria de destacar alguns.

A Cultura

O Antigo Egito, provavelmente uma das primeiras grandes civilizações da história (senão a primeira), tornou-se famoso por seus complexos rituais de mumificação e sepultamento. Os antigos egípcios acreditavam na separação entre corpo e alma, e a alma em si era separada em duas partes também: o ka, a força vital em si, e o ba, a individualidade. Juntos, formavam o akh. O ka abandonaria o corpo no instante da morte (embora continue precisando de nutrição), enquanto o ba permaneceria ligado ao corpo. Os rituais religiosos serviam para, entre outras coisas, separar o ba do corpo, de forma que ele pudesse reunir-se ao ka e formar o akh, garantindo a vida além da morte para o falecido ou permitindo que ele continuasse a ajudar sua família em forma espiritual. O ba retornaria ao corpo todas as noites para buscar nutrição. Com tanta importância dada aos sepultamentos e aos cadáveres, a inscrição de maldições em tumbas (especialmente tumbas de faraós) não seria algo inesperado. Mas embora existam sim casos de maldições inscritas em tumbas egípcias, elas são bem mais raras do que se imagina.

Essencialmente, todas as grandes religiões pregam alguma forma de permanência após a morte, seja através de ressurreição, reencarnação ou passagem da alma para o além. Não seria diferente com a religião dominante no ocidente, a cristã, que vai ao extremo ao defender que seu próprio deus, em forma humana, morreu e ressuscitou. E por ele ter passado por isso, todos os dignos irão um dia (no fim dos tempos) ressuscitar em carne também.

revenant da Europa Medieval é, às vezes, associado com fantasmas (seres astrais, incorpóreos), outras com cadáveres reanimados. Qualquer que seja o caso, você não vai querer topar de frente com um desses. Entre outras coisas associadas aos revenants, diz-se que alimentariam-se de sangue ou, mais especificamente, sangue humano – tornando-o semelhante ao que hoje chamaríamos de vampiro. Outra criatura folclórica medieval morta-viva notável é o nórdico draugr. Revenants, vampiros e draugar comeriam a carne e beberiam o sangue dos vivos, a depender de quem, quando e onde estivesse contando uma história de terror para convencer as pessoas a sepultar adequadamente e com respeito os mortos e a não mexer nos túmulos depois.

Os árabes têm seu próprio monstro que habita cemitérios e devora pessoas: o ghoul. A diferença do ghoul para os exemplos europeus até agora é que o ghoul não é um morto-vivo, mas um demônio – e a origem mítica do ghoul vem desde antes a civilização árabe dominar o Oriente Médio, via sumérios e acádios.

O jiangshi chinês é um tipo de morto-vivo reanimado, controlado por um feiticeiro. Aparentemente, a intenção original da criação de um jiangshi era benigna: enviar o falecido de volta à sua família sem precisar carregá-lo. Mas se a criatura se liberta do controle mágico (porque o feiticeiro foi fraco demais ou morreu) ele sai de controle e passa a atacar pessoas para absorver sua força vital – e, através de trocas culturais recentes com o ocidente, o mito adquiriu também a característica de beber sangue. É conhecido também como “vampiro chinês”, embora seja em muitas outras coisas mais parecido com um zumbi vudu.

O zumbi vudu é a origem da palavra zumbi como a conhecemos e de algumas de suas características. O vudu é uma religião africana, trazida junto com escravos para partes do Caribe, em particular o Haiti. O zumbi vudu é, como o jiangshi chinês, reanimado por um feiticeiro e controlado por ele. A religião vudu desenvolvida no Haiti e o mito do zumbi possuem profundas ligações com o escravismo – o cadáver após a morte continuava sendo, pois veja só, um escravo. O vudu prega a separação entre corpo e alma, e a criação de um zumbi vudu se trata de animar um corpo já sem alma, ou de retirar a alma de um corpo que ainda a possui – existem supostamente drogas de zumbificação para pessoas vivas. De alguma forma, isso foi parar até na lei haitiana, no artigo 246 de seu Código Penal de 1864.

O zumbi vudu e os folclores europeus são as influências mais importantes no surgimento do zumbi moderno.

O Zumbi na Ficção

A primeira referência literária a volta dos mortos ao mundo dos vivos aparece na obra literária mais antiga e conhecida, a Epopeia de Gilgamesh, que data de mais ou menos 2100 a.C., escrito na Suméria (muito provavelmente uma coleção de outros textos mais antigos, talvez não diretamente relacionados). No poema épico, Gilgamesh recusa os avanços sexuais da deusa Ishtar e ela, irada, pede a Anu, seu pai, que envie o Grande Boi do Céu (Gugalanna) para vingá-la. Quando Anu se recusou, Ishtar ameaçou derrubar os portões do submundo para que os mortos voltassem e devorassem os vivos. Anu recuou e enviou Gugalanna para a terra (e Gilgamesh o derrotou). A referência é interessante de todo modo, mas não se anime demais, pois é controversa: os “mortos” de que fala Ishtar, de acordo com a tradição suméria, talvez não fossem corpóreos, mas apenas astrais (fantasmas).

O que interessa para os nossos zumbis são livros escritos na Europa a partir do século 19. Frankenstein, de Mary Shelley, conta a história de um monstro criado a partir de partes de cadáveres e trazido à vida pela ciência. Ele se torna violento e agressivo, reproduzindo a fúria contra os vivos dos mortos-vivos folclóricos. Também é notável pelo seu caminhar desajeitado, que no seu caso seria resultado de um corpo mal construído, mas que iria, mesmo assim, influenciar na criação do zumbi moderno. Ambrose Bierce e Edgar Allan Poe escreveram contos de horror sobrenatural que influenciariam outros autores, muito especialmente H.P. Lovecraft, que escreveu vários contos sobre zumbis na primeira metade do século 20, com destaque para a série Herbert West-Reanimator, que retrata zumbis como cadáveres reanimados de forma científica, violentos e instintivos. Vários desses contos seriam adaptados para quadrinhos na década de 1950.

O ocupação americana do Haiti (1915-1934) trouxe a palavra zumbi com significado atual (zombie já existia no vocabulário inglês graças ao nosso Zumbi dos Palmares) para os EUA bem como todo o mito vudu, conforme os americanos o entenderam então. The Magic Island foi escrito por William Seabrook e publicado em 1929, sendo provavelmente a primeira obra em inglês a retratar o zumbi vudu. O primeiro filme sobre esse tipo de zumbi foi White Zombie, de 1932, e vários outros se seguiram.

A última obra relevante, antes do zumbi como conhecemos e amamos, é Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, publicado em 1954. Não é uma história de zumbis, embora seus vampiros sejam muito parecidos com o que hoje chamamos de zumbis. No livro de Matheson, uma pandemia de vampirismo varre o mundo. É uma das primeiras, senão a primeira, obra apocalíptica do gênero. Também é uma das pioneiras na ideia de transmissibilidade, de modo que seus monstros se multiplicam em escala geométrica.

Os zumbis vudu haitianos, Eu Sou a Lenda de Richard Matheson e os contos de Lovecraft foram as principais influências, sem prejuízo de todo o contexto cultural, do codificador do zumbi moderno: George Romero.

Noite dos Mortos Vivos

Lançado em 1968, dirigido por George Romero e roteirizado por ele e por John Russo, Noite dos Mortos Vivos é a obra seminal do zumbi moderno. Curiosamente, tomado por si só, esse filme ainda não é apocalíptico. Mais curioso ainda, a palavra “zumbi” jamais é mencionada no filme, com os personagens falando em ghouls, comedores de carnes, e outros. Romero depois diria que foram críticos e fãs que passaram a usar o termo, e ele apenas o adotou. Praticamente, todas as características do zumbi estão lá: cadáveres que retornaram à vida de alguma maneira, devoram os vivos, tem baixa capacidade cognitiva (mas retém alguma inteligência, já que são capazes de utilizar ferramentas simples, como pedras, para quebras janelas), não sentem dor, andam com dificuldade, morrem com um tiro ou uma pancada na cabeça (destruindo o cérebro), entre outras. Comum a todos os filmes de Romero, os zumbis contudo não são o maior problema: o ser humano é o verdadeiro monstro, o verdadeiro inimigo de si mesmo ao ser incapaz de cooperar. Lerdos, burros, não especialmente fortes, os zumbis são facilmente evitados ou derrotados. Um bando de caipiras armados mata uma grande quantidade de zumbis sem suar, e teriam salvado os personagens do filme se eles tivessem cooperado dentro da casa durante a noite – mas por orgulho ou medo eles cometeram uma série de erros e terminaram todos mortos. O filme refletia a sociedade americana dividida da época da Guerra do Vietnã e dos Movimentos dos Direitos Civis.

George Romero e John Russo se separariam depois da Noite, mas ambos continuariam contribuindo de forma decisiva para o gênero.

A Evolução do Zumbi

Romero transformaria sua obra em uma trilogia com Despertar dos Mortos (1978) e Dia dos Mortos (1985). Se na Noite as coisas pareciam ainda estar sob controle, ou pelo menos potencialmente controláveis, apesar da morte dos protagonistas, no Despertar ficou claro que o apocalipse era iminente, com a dissolução da sociedade. A maior parte do filme se passa dentro de um shopping, e Romero fez do consumismo a crítica da vez. A palavra “zumbi” é usada pela primeira vez. O Despertar foi ainda mais gráfico que a Noite, exibindo suicídios de quem preferia morrer a se tornar um zumbi, cabeças de zumbi explodindo e pessoas sendo devoradas por uma horda. A opção atômica é aventada como forma de lidar com a praga, mas é descartada.

O Dia dos Mortos, por sua vez, é pós-apocalíptico, provavelmente, ainda, um dos poucos do gênero. Os sobreviventes não sabem mais se qualquer estrutura governamental ou social ainda existe, e diferentes grupos de pessoas começam a enlouquecer cada qual a seu modo. Ambientado em um abrigo criado pelo governo, quando ele ainda existia, cientistas, militares e civis convivem, cada qual com suas funções: os cientistas devem descobrir uma solução (vacina, cura, qualquer coisa) para a praga zumbi, os militares devem lhes fornecer proteção, e os civis executam todas as tarefas mundanas e de zeladoria para apoiar os outros grupos. Cientistas loucos, comandantes militares abusivos, que deixam o poder subir à cabeça, e, no meio de tudo, pessoas comuns, cada vez mais assustadas e menos cooperativas, geram uma expectativa sombria para a sobrevivência da humanidade. Um diário pós-apocalíptico é escrito, é provado que os zumbis retém pelo menos parte de suas memórias, e, pela primeira, vez é dado um tiro de misericórdia para evitar que alguém se transforme em um zumbi.

Além da trilogia Noite, Despertar e Dia, Romero ainda filmaria Terra dos Mortos (2005), que retrata uma cidade murada onde os últimos humanos vivem, ameaçada por zumbis do lado de fora e pelos abusos e vícios dos ricos do lado de dentro, Diário dos Mortos (2008), em que um grupo de estudantes documenta ao vivo, com ajuda da internet, o avanço da praga zumbi, e A Ilha dos Mortos (2009), no qual um grupo de mercenários foge para uma ilha em busca de proteção apenas para encontrar um lugar dividido e em conflito entre os que querem exterminar os zumbis e os que querem curá-los. São filmes bem mais recentes e menos influentes que a trilogia original, mas por serem do próprio Romero, faz-se justo mencioná-los.

John Russo, que escreveu a Noite junto com George Romero, seguiu por outro caminho, preferindo a literatura ao cinema. Escreveu Return of the Living Dead em 1977, como uma continuação direta (e alternativa aos filmes de Romero) da Noite. Violento, retratava um culto religioso sinistro (que, no entanto, estava certo em seu modo de lidar com os cadáveres) e um pai abusivo. Não confundir com O Retorno dos Mortos Vivos, do qual Russo participou também, ajudando a escrever a história e depois novelizou (o que faz com que ele tenha dois livros com praticamente o mesmo título e histórias completamente diferentes), que inaugurou o zumbi moderno e trash, focado na comédia, e não no horror.

No Retorno (o filme), os zumbis precisam pela primeira vez comer cérebros. Por quê? Ora, porque eles sentem a dor de estarem mortos e sentir seus corpos apodrecendo, e o cérebro é rico em hormônios que aliviam a dor e etc, enfim, o tipo de explicação esperada de um filme trash. Seus zumbis são muito mais inteligentes, sendo capazes até de conversar, e apenas destruir o cérebro ou a cabeça inteira não é mais suficiente para matá-los. Tacos de beisebol são usados, fanservice é inaugurado no gênero, mordidas não infectam e a Noite é mencionada como um documentário fictício que o governo criou para encobrir a real causa da praga zumbi: um gás criado pelos militares. A maior parte da ação ocorre sem que o governo sequer saiba que algo está acontecendo, até que um personagem finalmente consegue telefonar para um general do exército que promete resolver a situação – uma bomba nuclear é lançada no local afetado, matando os pobres diabos que sobreviveram até o final e pediram por ajuda. Ironicamente, isso se prova inútil: a explosão espalha o gás e cria mais zumbis.

Esse já é o maior artigo que escrevi aqui no Anime21 e ainda nem falei de animes! Bom, mas agora todo o contexto do gênero está mais do que estabelecido, então vamos ao que interessa!

Zumbis no Japão

Em 1969, Kazumasa Hirai escreveu a história de um mangá chamado Death Hunter. Nele, alienígenas sem forma corporal definida infectam seres humanos, os matando e assumindo o controle do corpo do hospedeiro, podendo viver insuspeitos dessa forma. Uma adaptação em livro foi escrita no começo da década de 1970, chamada Zombie Hunter. Por tudo o que consegui pesquisar, a história é idêntica. Zombie Hunter seria novamente adaptado para mangá em 1999, embora nunca tenha sido terminado. Não encontrei imagens de Death Hunter então não posso garantir que seus monstros fossem idênticos aos de Zombie Hunter, mas apostaria que sim. Os zumbis de Zombie Hunter, quando necessitam exercer o poder mais que humano que possuem, desfiguram seus hospedeiros, que assumem uma aparência monstruosa (como Parasyte, de Hitoshi Iwaaki, 1989), com predomínio de estruturas fibrosas e que lembram raízes de plantas. Nenhuma das encarnações dessa que parece ser a mais antiga obra de zumbis modernos japonesa teve anime. Pelas datas, é possível que sequer tenha sido planejada para ser uma história de zumbi no começo (Noite dos Mortos Vivos foi lançado no final de 1968, acho realmente pouco provável que Kazumasa Hirai tenha tido contato com ele antes de publicar Death Hunter).

O interessante dos zumbis de Zombie Hunter é que eles são algo semelhantes aos zumbis de outra obra japonesa muito mais famosa: Resident Evil. Semelhantes apenas em aparência, quero dizer, porque os zumbis de Zombie Hunter têm origem extraterrestre, são inteligentes e não infectam (embora haja uma personagem aparentemente capaz de criar novos zumbis, mas não consegui descobrir como ela faz isso porque o mangá foi cancelado e não encontrei os livros ou o mangá Death Hunter).

Shiniku no Otoko, de Hideshi Hino, 1986, embora bem mais recente que Death Hunter / Zombie Hunter, também me deixa em dúvida se seu autor se inspirou ou não nos zumbis modernos ocidentais em sua concepção. É uma história de horror de um protagonista que não se lembra de quem é, não sabe onde está, percebe que todos estão fugindo dele em pânico e quando vê sua imagem refletida entende o porquê: ele está pálido, infestado por vermes, apodrecendo.

Os zumbis chegariam com certeza nos mangás japoneses no final da década de 1990 e início dos anos 2000: Zombie ya Reiko (Rei Mikamoto, 1999), Tokyo Zombie (Yuusaku Hanakuma, 1999), Biomega (Tsutomu Nihei, 2004), Franken Fran (Katsuhisa Kigitsu, 2007), só para listar alguns.

O ano de 2007 foi também o ano de lançamento do mangá que daria visibilidade à onda zumbi no Japão: Highschool of the Dead, de Daisuki Sato e Shoji Sato (eles não são parentes, apesar do nome). É com ele que começarei a sessão final desse artigo.

Animes de Zumbis para Você Assistir

Highschool of the Dead, o anime, foi lançado em 2010, baseado no mangá de 2007. É uma homenagem aos filmes clássicos do gênero até no título, imitando os filmes de Romero cujos títulos, no original, em inglês, sempre terminavam em “the Dead” (exceto pela Noite, o primeiro de todos, que era Night of the Living Dead; “Living Dead” depois seria a marca dos livros e obras de John Russo). É trash e é cheio de fanservice, como O Retorno dos Mortos Vivos. Bombas atômicas são usadas, embora nesse caso fique implícito que não é tanto uma resposta à ameaça zumbi quanto é apenas uma oportunidade que as potências nucleares aproveitaram para tacarem bombas umas nas outras. Como no Despertar dos Mortos, tem um arco que se passa em um shopping e suicídios. Golpes de misericórdia (embora não tiros) como no Dia dos Mortos. Provavelmente tem ainda muito mais referências e homenagens diretas, mas já deu pra passar a ideia, eu acho.

Sankarea é outro anime baseado em mangá (como quase todos dessa sessão). De Mitsuru Hattori, o mangá começou a ser publicado em 2009 e o anime o adaptou em 2012. Não é um apocalipse, não é sequer uma ameaça, não há zumbis surgindo e matando pessoas por aí, mas seu protagonista (e provavelmente o autor também) é fanático por obras de zumbis e, olhando bem, tem sim várias referências, não apenas uma garota zumbi. Em Sankarea, zumbis são criados administrando drogas para cadáveres – como os zumbis vudus. Mas ao contrário de seus parentes caribenhos, os zumbis fatalmente saem de controle dado tempo suficiente – algumas semanas. A garota morre e vira zumbi por culpa do próprio pai – e ela queria morrer e virar zumbi por culpa do próprio pai em primeiro lugar, só não esperava que fosse de forma tão violenta. Como os zumbis de Romero, Sankarea tem uma crítica por trás da história e os zumbis não são os vilões principais. Vale a pena tanto para quem gosta de zumbis, porque é divertidíssimo procurar referências em uma obra com uma ambientação tão distante dos clássicos (tem um shopping! ache o resto, hahaha!), quanto para quem quer apenas assistir um bom drama.

Gakkou Gurashi, de Norimitsu Kaihou, é um mangá de 2012 adaptado para anime em 2015. Tem um shopping também! Japoneses fãs de zumbis adoram o shopping, aparentemente. A causa da infecção zumbi é desconhecida, mas parece ser um tipo de vírus ou arma biológica semelhante desenvolvida pelo governo e que saiu de controle. Garotas traumatizadas, diários apocalípticos e zumbis que aparentam reter algo de suas memórias, como vivos, são elementos presentes nesse anime com uma narrativa deliciosa e criativa.

E tem também os “quase zumbis”, né? Animes que possuem vários dos tropos e clichês do zumbi clássico, mas cujo monstro não é exatamente um zumbi. É preciso cuidado para não sair vendo zumbis em cada sombra, então, para evitar maiores riscos, vou listar apenas dois animes aqui – se achar que esqueci de algum, não deixe de comentar depois!

Ataque dos Titãs, de Hajime Isayama, é um mangá em lançamento desde 2009 e com adaptações para anime em 2013 e 2017 (e uma terceira temporada prometida para 2018). Seus titãs são basicamente zumbis bem grandes. Eles também já foram humanos um dia, em circunstâncias muito especiais podem recuperar sua consciência humana (por meio de mecanismos ainda não revelados no anime), são implacáveis, comem pessoas e só podem ser mortos se atacados em seu ponto fraco (que não é o cérebro, mas ainda assim). O que achei mais notável, contudo, foi descobrir que o cenário inicial de Ataque dos Titãs também já havia sido inaugurado em um filme de zumbi antes (e um do Romero, não menos): a cidadela onde os últimos humanos se escondem dos monstros devoradores apareceu primeiro em Terra dos Mortos, de 2005.

Kabaneri of the Iron Fortress é o único anime original aqui. Com história de Ichiro Okouchi, o anime foi lançado em 2016 e no geral não foi tão bem recebido como eu acho que deveria, seja porque produzido pela mesma equipe de Ataque dos Titãs e com vários elementos obviamente semelhantes, seja por sua espécie particular de zumbi, o kabane, não ter despertado muita simpatia, ou seja por detalhes do enredo. Acho que o mais notável, que eu não me apercebi nem mesmo quando assistia o anime, ano passado, é que é uma obra de zumbi que se passa em um trem, assim como Train to Busan, filme coreano que eu me recuso a chamar pelo nome oficial brasileiro, e que ambos foram praticamente contemporâneos: o anime estreou em abril, enquanto o filme estreou em maio. Mas sobre Kabaneri em si, os kabanes também possuem um único ponto fraco (infelizmente para os habitantes desse mundo, protegido por uma gaiola metálica difícil de atravessar) e a infecção é transmitida pela mordida. Assista esperando por alguma tentativa de comentário social e sabendo que, mais uma vez, o ser humano é o verdadeiro monstro.

Bônus: Samurai Champloo tem um episódio fora da cronologia que é basicamente uma grande homenagem à O Retorno dos Mortos Vivos. Até mesmo termina com um meteoro fazendo às vezes de bomba atômica.

Dicas sobre como sobreviver a um apocalipse zumbi você encontra em qualquer lugar. A informação mais importante – os verdadeiros inimigos são os vivos! – é só aqui. Durante as semanas em que pesquisei, descobri que o gênero zumbi era muito mais fascinante do que eu imaginava. Espero que tenha gostado do artigo. Compartilhe, comente! E volte sempre, até o próximo artigo!

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Referências e Bibliografia

More on the Gilgamesh Zombies

How Many People Have Ever Lived on Earth?

Zombies in folklore

The history of zombies

Ressurreição dos mortos ou ressurreição da carne?

Night of the Living Dead (TV Tropes)

Dawn of the Dead (TV Tropes)

Day of the Dead (TV Tropes)

Land of the Dead (TV Tropes)

Diary of the Dead (TV Tropes)

Survival of the Dead (TV Tropes)

Return of the Living Dead (livro) (TV Tropes)

The Return of the Living Dead (filme) (TV Tropes)

Attack on Titan (anime) (Anime News Network)

Kabaneri of the Iron Fortress (anime) (Anime News Network)

Living Corpse (manga) (Anime News Network)

Jason Thompson’s House of 1000 Manga: 10 Great Zombie Manga (Anime News Network)

Ancient Egyptian religion (Wikipedia)

Epic of Gilgamesh (Wikipedia)

I Am Legend (Wikipedia)

Zombie (Wikipedia)

Zombie Hunter (Wikipedia)

Frankenstein (Wikipedia)

Living Dead (Wikipedia)

  1. Que artigo Fábio. Valeu a pena ler cada linha deste artigo, nunca imaginei ver-te a fazer um artigo tão detalhado sobre o género zombie. Gostei bastante da tua introdução (eu nem um zombie conseguiria matar, quanto mais 14), mas foi a parte cultural que eu mais gostei no artigo inteiro. Eu sempre tive uma admiração pela história do antigo Egipto, mas tem lá coisas que sempre me deram medo e uma delas eram os rituais fúnebres e de mumificação. E eu acredito bastante na maldições dos túmulos dos faraós, afinal estes eram demasiados importantes, para serem profanados. O Zombie Vudu ainda é bastante conhecido, mesmo na tv, os feiticeiros ou bruxos que fazem isso, costumam usar um pó branco feito com fígado de peixe balão seco. A pessoa que inalar esse pó, fica num estado de morte, mas não está morta, dai alguma pessoas os chamarem de zombies vivos. A tua referência aos vampiros da Europa Medieval foi excelente, só faltava ali a referência ao mito e lenda do Vlad Tepes, que deu origem às mais variadas histórias sobre vampiros. Essa dos ghouls não fazia ideia, eu já tinha lido sobre eles num livro, mas não tinha a certeza sobre a origem dessa expressão, por isso obrigado pela explicação.
    Os animes que recomendaste, eu já os vi todos, mas destaco Gakkou Gurashi que é um excelente anime engana trouxa e eu considero o melhor anime dessa lista. O anime do High School of The Dead é bem trash, para mim só se aproveita a parte das armas e dos destroyers a lançarem as PEMS sobre os países. Sankarea é um anime bem estranho que nem ouso falar nada sobre ele. Kabaneri nem preciso dizer nada, simplesmente uma cópia mal feita de Ataque dos Titãs, onde se aproveita os episódios iniciais (mas os teus artigos semanais sobre ele são excelentes).
    Como sempre, mais um excelente artigo Fábio.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      E tinha muito mais que eu poderia ter escrito, mas olha o tamanho que o texto já ficou, hehe, achei melhor resumir nos exemplos.

      Sobre a maldição nas tumbas de faraós, a maioria (das raras que existem) parece que estavam dirigidas aos sacerdotes encarregados de cuidá-las, para que fizessem direito o seu trabalho. Existe muito mais lenda (e algumas coincidências) do que maldição de verdade.

      E sim, os zumbis vudus continuam um arquétipo bastante popular. Mas raramente fazem muito sentido em cenários apocalípticos, né? Nesses o zumbi de Romero é muito mais comum. E eu li tudo isso sobre a fórmula do veneno usada, hehe – que de todo modo foi algo que um estrangeiro foi ao Haiti e pesquisou, mas sua pesquisa está cheia de furos, enfim.

      Não falei do Drácula porque ele é um mito já da era romântica dos vampiros, depois deles serem reimaginados e terem divergido dos zumbis. O vampiro original, sejam os revenants corpóreos, sejam os vampiros dos mitos eslavos, eram essencialmente zumbis. Em algum momento (que eu não estudei) vampiros se tornaram essa coisa refinada que conhecemos hoje, e Drácula vem dessa fase, e da Europa Ocidental – na Romênia e na Moldávia, Vlad Tepes III, Príncipe da Valáquia, Conde de Dracul, o Impalador, é herói nacional até hoje. Sua história (real) é mesmo incrível, tendo conseguido resistir tanto aos poderosos Otomanos em um país pequeno, fraco, com praticamente nenhum apoio estrangeiro.

      Poxa, adoro Kabaneri, não fala assim não D= Tem mais ano que vem =D

      Obrigado pela visita e pelo comentário! =)

      • Eu acredito muito nas maldições dos túmulos dos faraós, principalmente depois das mortes dos descobridores do túmulo de Tutancamon, que na sua maioria entraram num sono profundo e morreram (história muito bem contada, nos desenhos das aventuras de Tintin). Eu acho que na maioria das vezes, essas ditas maldições, não eram nada mais que armadilhas que os engenheiros e mesmo os sacerdotes colocam no túmulo dos faraós para proteger o sarcófago e as riquezas que eram sepultadas com eles. É por estas e por outras, que a história do antigo Egipto é tão interessante (principalmente a parte dos deuses).
        Quanto aos zombies vudu, eu não queria ter inimigos no Haiti e nesses países que usam venenos, que não nos matam na hora, mas transformam-nos em mortos vivos.
        Eu já fazia bastante tempo que tinha lido a história de vida, do Vlad Tepes III, mas só agora é que começo a perceber que ele de certa forma era um herói e não um vilão, como a história o pintou. Ele conseguiu resistir ao Império Otomano num país pequeno sozinho, sem um exército decente, coisa que nem o Império Bizantino conseguiu fazer. Ainda me questiono, como o Vlad, conseguiu resistir ao exército mais avançado do mundo naquela época, os soldados dom império Otomano eram os mais bem equipados, com espadas e lanças feitas de aço de Damasco, armaduras de aço extra fortes, que resistiam até a tiros de canhão e das primeiras armas de fogo, fora que os otomanos adoravam usar canhões como factor psicológico (foi assim que as forças de Maomé II, conseguiram trespassar as muralhas impenetráveis de Constantinopla). Se formos a ver, o Vlad Tepes, é bastante semelhante à Joana D´Arc, ambos combateram para proteger o cristianismo, a Joana contra os ingleses e o Vlad contra os pagãos. Só é pena que ambos tenham morrido de forma inglória, a Joana morreu queimada na fogueira entregue pelo seu próprio povo aos ingleses e o Vlad morreu prisioneiro dos otomanos. Em ambos os casos, ser um herói do povo, não foi a melhor escolha, mas ao menos as suas histórias e lendas, permanecem até hoje.
        Ou eu interpretei mal a tua última frase da tua resposta, ou estás a dizer que para o ano vai haver alguma coisa relacionada com Kabaneri? Eu até ao episódio 5 de Kabaneri não tinha críticas, a partir do episódio 6, é que o anime, entrou numa montanha russa e só fez porcaria.

      • Fábio
        Fábio "Mexicano" Godoy

        Bom, o Impalador manteve os muçulmanos afastados por algum tempo justamente pelo que lhe rendeu sua alcunha, sua fama de cruel e, séculos mais tarde, sua transformação em vampiro: ele forrava os campos com soldados inimigos mortos atravessados por lanças, para infligir medo.

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