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Esse foi o episódio mais slice of life de Princess Principal até agora. Dada a premissa da série e seus personagens, acho difícil ficar mais slice of life do que isso. Mas isso está certo, isso faz sentido em um anime de ação e mistério? Dependendo das suas expectativas, faz sim, bastante sentido.

Embora nada faticamente importante tenha acontecido, como esperado de um slice of life, simbolicamente esse episódio teve algo muito interessante para mostrar. Ou eu estou viajando na maionese, mas se for o caso garanto que o artigo vale a leitura só pela diversão.

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Sujeito aleatório metido a besta

Indo direto ao assunto, a cena principal do episódio e da qual pesquei esse título foi o duelo entre a Chise e aquele sujeito aleatório metido a besta. Pelo que sabemos sobre a Chise, se fôssemos dizer quem é o fraco e quem é o forte entre os dois, para fazer valer a comparação bíblica, sem dúvida a Chise está muito mais para Golias do que seu adversário. Mas as condições do duelo trataram de fazer os personagens respectivos se conformarem aos papeis mais adequados às suas estaturas: com uma arma de fogo inutilizada, o máximo que a japonesa poderia fazer é torcer pela sorte do adversário errar os três disparos e o desafio terminar em empate, o que para ela é tão bom quanto uma derrota. Dado que ele provavelmente não é um mal atirador, como seu primeiro tiro demonstrou ao raspar o cabelo da garota, se deixasse as coisas nas mãos do destino sorte é a última coisa com a qual Chise poderia contar.

E ela não contou. Usando o laço do uniforme como uma funda, Chise se tornou ainda mais como o Davi bíblico. Só não atingiu seu inimigo na testa e o matou porque esse anime não é desses – e se fosse, o duelo nessas circunstâncias não faria sentido em primeiro lugar. O acertou bem acertado no ombro e, como a pedra de Davi, também seu balote de chumbo penetrou e derrubou. Como o herói e futuro rei judeu, Chise logrou a vitória improvável.

O meu salto argumentativo é que o duelo da Chise não emula o bíblico apenas na concepção que a expressão “Davi e Golias” assumiu na cultura popular, significando qualquer vitória improvável do mais fraco sobre o mais forte, tampouco é apenas estética, representada pelo tamanho dos personagens e pela funda que a Chise usou, mas também ideológica. Como acabo de dizer, o senso comum interpreta como uma situação de “Davi e Golias” qualquer uma em que o mais fraco vence o mais forte. Mas essa não é a interpretação mais importante do ponto de vista teológico. Davi não era apenas Davi e Golias não era apenas Golias. Golias invocou todos os seus deuses e escarneceu de Davi e seu deus único, sendo assim um representante de todos os paganismos. Davi, por sua vez, invoca o nome de seu deus. E Davi saiu vencedor. A sua vitória não é apenas um triunfo militar de um homem, mas o triunfo de uma visão de mundo sobre a outra. E isso tem seu paralelo no anime também.

Chise buscou o duelo em primeiro lugar por sua concepção de mundo – uma na qual as pessoas não são medidas por sua origem, na qual toda a vida é respeitada, na qual ninguém se impõe sobre outros apenas por capricho e posição social. Ela já havia demonstrado isso nesse mesmo episódio algumas vezes, como na cena do banheiro por exemplo. É uma visão de mundo compatível, talvez contida ou até mesmo idêntica à da princesa, que a apoiou nesse duelo. No final Chise diz para o embaixador japonês que não sabe se o plano para que a princesa chegue ao trono dará certo, mas ela quer que dê certo. Ela se comprometeu com isso. Vale mencionar também que, naquela época, como o embaixador bem lembrou, também o Japão não era senão um mísero Davi no jogo das nações.

A princesa e a Chise

Claro que esses valores da Chise são anacrônicos – exceto pelo fim da ordem feudal e dos direitos dos samurais, o Japão era uma sociedade provavelmente muito mais estratificada que o Reino Unido na virada do século 19 para o 20. Mas steampunk é um gênero necessariamente anacrônico, então não vejo conflito nenhum no fato de os valores que a Chise defende e aqueles que eram dominantes no Japão real daquela época serem tão diferentes. Ela sequer estaria onde está se o Japão do anime fosse o Japão real em primeiro lugar, bem como provavelmente todas as suas colegas de espionagem.

Chise escolhe ter fé na princesa

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