Sejam bem-vindos ao Salão de Dança uma última vez!

Ballroom e Youkoso é um anime peculiar, pois entre altos e baixos, consistências e inconsistências, qualidades e defeitos, houve sempre algo que se manteve uma constante: o quão instigante é acompanhar a jornada de um personagem em seu caminho de dedicação aquilo que ele ama.

Abraçando a natureza da história, seu último episódio enquanto anime expressa isso através de danças, diálogos e de todos os artifícios mais eficientes possíveis afim de tornar essa final de torneio uma experiência extremamente significativa a nível de personagem, a nível de tema e a nível de enredo, realçando cada simples e ínfimo momento no intuito de dar contornos grandiosos e emocionantes a um episódio que, tal qual uma dança bela e envolvente, tinha o objetivo de prender o olhar do telespectador e conseguiu fazer isso ao dançar satisfatoriamente conforme a sua música.

Um dos pontos altos dessa despedida foi justamente um dos pontos fracos de toda a obra, a animação nas cenas de dança, que nesse episódio foi bem mais fluida e longa que o comum, superando em muito a média do anime e conseguindo dar um vislumbre do que ele poderia ter sido na maior parte do tempo. Não é consistente “guardar o ouro” só para o finalzinho, mas em prol de construir todo o simbolismo e dar a importância almejada para esse momento foi uma atitude compreensível e se não repara os erros de outrora ao menos fecha um ciclo em sua melhor forma.

“Sim, um segundo até o contato. Dois segundos, cheque a ponta do meu pé. Três segundos, então eu seguro a sua mão, não é?”

Aliás, o trecho em que a animação muda e se torna mais “livre” condiz completamente com a própria inclinação da dança em si, um ato de expressão alegre e verdadeiro que em tal momento usa dos movimentos dos corpos de seus personagens para dar vida ao que eles são, ao que a dança os tornou. Em um anime que poderia até se gabar por suas ótimas “peripécias visuais” nada mais justo que usar uma para a dança derradeira, transmitindo a imponência e beleza que eram requisitadas.

“Vão, Tatara e Chinatsu, ser dançarinos na vida!”

Um detalhe interessante sobre as danças é que a primeira, a valsa vienense, acabou foi trabalhando em favor do par principal por causa de toda a experiência deles em dividir a responsabilidade da liderança, não desperdiçando todo o tempo gasto trabalhando na relação desses dois e nos seus problemas de formação, tornado aquilo que seria um erro, um acerto sem forçar nada, tudo dentro das possibilidades e das características dos diversos tipos de dança de salão dentro do estilo Padrão.

“Uma dança em harmonia, dois corpos em unidade.”

Terminando a última dança, logo após o ótimo trabalho de roteiro que culminou na aceitação do valor do parceiro e na conciliação de objetivos e meios entre dançarinos, todos os esforços em prol da vitória foram feitos e o que restou foi a sensação de dever cumprido e a ansiedade dos personagens, assim como do público, em saber qual par se consagraria campeão, se seria a história da dança ou a sua evolução, o que se mostraria mais admirável e marcante nesse jogo de soma zero.

De um lado a história e ao lado a evolução, nessa noite quem se consagrará campeão?!

E eis que é chegada a hora do resultado, a hora de comemorar a glória e lamentar o fracasso, ou a hora de sorrir pelo esforço e desejar passar por tudo aquilo de novo? Pelo resultado e pela reação dos pares principais acredito ser a segunda opção, pois mesmo com a derrota o Kugimiya e a Idogawa só reafirmaram cada vez mais as suas vontades de continuar dançando, as suas paixões que ardem pela dança e são capazes de superar os mais diversos obstáculos e derrotas para continuar dançando. Fiquei feliz também porque vi algumas pessoas comentarem por aí que queriam que o Kugimiya ganhasse, então seu par ter perdido deve ter significado algo para o público, o que acredito que fosse a intenção da autora e deu ainda mais importância e força à conquista do querido par 23.

Sim, a tensão pairou no ar até o último segundo antes do anúncio, mas no final venceu a cartilha narrativa mais manjada de todas, o resultado que costuma ser mais previsível, mas dessa vez até o último segundo não era tão previsível assim não, e se não foi surpreendente, isso se deveu mais a todo o trabalho de direção e roteiro em elevar as conquistas e a evolução dos protagonistas a um patamar que os colocassem em pé de igualdade para brigar por esse troféu. Merecido? Com certeza, pois quem ganhasse mereceria do seu próprio jeito, pois se esforçou muito para isso, e creio que a vitória do par que representava a evolução da dança, a ambição da dança em sempre seguir em frente e se adaptar e se modificar de acordo com quem a pratica e com a época na qual se vive, representa bem a vitória da transformação, a vitória da dança enquanto expressão que instiga sempre mais e mais, que instiga sempre o fascínio pelo novo e o deleite através da surpresa com novos passos, variações de ritmo e combinações que tornam tudo mais emocionante e singular.

Em um anime que antes de estrear foi erroneamente “vendido” como um anime de esportes com romance, terminar ele com um meigo beijo da heroína na bochecha no protagonista pode ter sido decepcionante para alguns que queriam formar casais de forma mais concreta, mas acredito que foi ótimo por ter sido uma evolução natural para uma relação que se desenvolveu em muitos quesitos, mesmo que não muito no romântico. No mangá nem isso tivemos até agora, esse foi mais um detalhe particular ao anime e ver que de forma bem sutil, a Mako demonstrou uma pontadinha de tristeza ao ver o Tatara se dar tão bem com a Chinatsu, ao menos foi como eu interpretei o olhar dela, me faz pensar no que parte dos fãs comentam desde o arco da garota, que ela é apaixonada por ele. Gostaria de ver isso sendo desenvolvido no mangá, pois não seria nada incomum alguns casais se formarem entre os pares de dança e explorar um pouco mais o romance em uma obra cheia de personagens que estão na idade de “descobrir o amor” pode ser bem legal.

Por fim, houve a dança dos vitoriosos e a música do encerramento em um momento típico de final de anime, bonito e até “nostálgico” para quem acompanhou esses personagens por vários meses e agora se vê prestes a se despedir deles. Uma coisa interessante que ocorreu antes desse momento foi a reflexão dos amigos de dança do Tatara, sobre como ele aproveitou bem o que era discutido desde o começo do anime, que experiência é uma vantagem sim na dança, mas não é tudo, que em um ano um dançarino pode sim evoluir ao ponto de meio que compensar por todo o tempo que outros tiveram antes dele. O protagonista aproveitou bem esse tempo e agora o Kiyoharu e os outros o vê como um verdadeiro rival, alguém que chegou ao ponto de partida para alcançar feitos e encarar desafios maiores no mundo da dança. Bem-vindo ao Salão de Dança mais uma vez Tatara!

Os garotos com o Kugimiya são personagens do mangá que não apareceram no anime

Após o encerramento simbólico com os personagens do anime, era chegada a hora de um momento mais íntimo, simbólico a nível pessoal para o protagonista, um personagem que começou na dança meio que no susto e desde o primeiro movimento aprendido se dedicou ao máximo para aperfeiçoá-lo e se sentir parte de algo, e fazer parte do universo da dança de salão. A hora em que o Sengoku entra no estúdio e vê seu pupilo fazendo a caixa traz à tona tudo aquilo que ele passou nesses vinte e quatro episódios sem precisar de mais flashbacks para tal. Apenas ao vermos o sorriso de alguém que em um ano se transformou de um garoto franzino e sem confiança em um jovem que tem paixão pela dança e se dedica em prol de ser visto, em prol de ser notado, em prol de dar alegria as pessoas através de seus movimentos e da expressão de seus sentimentos em concordância com o ritmo, em forma de dança. Dança essa que nesse último ano ele aprendeu a amar e tudo graças a um dançarino profissional meio malandro e metido que o chamou para esse mundo e cuidou dele até ele poder andar com as suas próprias pernas, até ele poder perseguir seus objetivos só e junto da sua parceira.

Todo esse ano valeu a pena, não valeu, Sengoku-san?!

Ballroom e Youkoso fechou com chave de our. Mesmo não tendo sido um anime maravilhoso e inteiramente consistente, ele soube manter a sua história envolvente e muito bem equilibrada, dizendo tudo o que queria dizer e fazendo tudo o que precisava fazer para cativar o público e contar a história que a sua autora queria contar. Houveram problemas que diminuíram o potencial dessa adaptação, principalmente no que tece a problemática animação das cenas de dança, e a tornaram, ao menos para mim enquanto prévio leitor do mangá, uma experiência não tão satisfatória quanto seu material original, mas que mesmo assim passou longe de ser uma perda de tempo, pois conseguiu me fazer ver que a essência da obra estava ali, que o anime não diminuiu ou manchou o nome de uma obra tão admirada e respeitada, tão amada e esperada, por todos os seus fãs.

Todos as minhas homenagens a Shizuko e a Mako, mas a Chinatsu foi a garota de Ballroom! ❤

No meu coração esse anime merece todas as 5 estrelas, na minha mente ele merece 4. E para vocês, o quanto a história de um garoto que encontrou umas das paixões de sua vida na dança brilhou em seus corações?! Me despeço com o desejo de um dia poder falar de novo sobre uma obra que amo tanto para vocês. Como foi dito no próprio anime, esse pode ter sido um fim, mas também foi o ponto de partida para muito mais.

Obrigado a todos que prestigiaram meus artigos e que acompanharam o anime, espero que tenha sido uma experiência prazerosa para vocês!

“Obrigado por tudo! Todos serão sempre bem-vindos no Salão de Dança!”

  1. Ballroom e Youkoso foi uma experiência bem interessante pra mim! Comecei não gostando muito, principalmente por causa da animação estática (ainda mais depois de todo o estardalhaço nesse meio otaku por causa de Yuri on Ice, onde meio que só queríamos mais obras com movimentos fluidos), mas entre seus probleminhas de animação e sua história, consegui me cativar bastante pela segunda. E por incrível que pareça, aos poucos a direção da obra conseguiu ir substituindo aquela falta de animação que parecia necessária nas danças, sem contar a incrível trilha da obra, que dá a atmosfera ideal à mesma.

    Até tentei ler o mangá em um certo ponto da história, como muitos fizeram, mas já estava acostumado com o estilo da animação e as danças não me impactavam como na adaptação animada (muito pela falta da trilha sonora). Não que o mangá seja ruim, porque sua quadrinização e trabalho com a expressividade dos personagens é incrível, mas me surpreendeu como o anime conseguiu, ao menos pra mim, ser bem competente com sua pouca animação nas movimentações dos personagens. O desenvolvimento no relacionamento dos personagens é outro ponto muito bacana, a obra soube usar-se bem dos conflitos, teve uma boa direção nos dramas, usou-se bem de metáforas visuais, dentre tantas outras coisinhas que só enriqueceram o storytelling.

    Mesmo com seus problemas, Ballroom se tornou uma obra bastante querida por mim. Não o melhor no gênero esporte ou romance, não aquele com a melhor das trilhas e animações, nem o mais criativo. Ainda assim, uma boa obra que trabalhou bem diversos aspectos e, particularmente, acredito ter um dos melhores trabalhos com expressões, que conseguiram me transmitir toda sorte de sentimentos.

    Acompanhei suas análises e gostei demais delas! Bem humoradas, bem aprofundadas, soube nos comunicar algumas diferenças do mangá para o anime sem cair em spoilers, muito bem escrita, não sendo apenas um checklist, dentre outras qualidades.

    Seguindo um costume bastante japonês, lhe digo de coração: Bom trabalho com essas 24 análises!

  2. Fico feliz de coração que tenha gostado das minhas análises, mas me alegra ainda mais saber que também apreciou o anime, pois é sempre melhor quando gastamos tempo com algo que nos diverte e que nos toca através da mensagem que se quis passar, não é? Ballroom e Youkoso é um dos meus mangás favoritos e foi muito gratificante poder comentá-lo semanalmente aqui no blog. Espero algum dia poder falar novamente sobre a obra e vou me esforçar para que meus artigos melhorem cada vez mais para poder agradar ainda mais leitores, Agradeço pelo comentário e desejo que daqui em diante possamos conhecer ainda mais animes tão bons quanto esse foi!

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