Bom dia!

Bem-vindo ao Café com Anime, um bate-papo que eu e Vinicius (Finisgeekis), Gato de Ulthar (Dissidência Pop) e Diego (É Só Um Desenho) temos todas as semanas sobre alguns animes da temporada. Cada um publica em seu blog as transcrições das conversas sobre um anime diferente.

Mais uma temporada! E desculpe pelo hiato entre a última publicação e essa. Em primeiro lugar, não publicaremos um artigo de expectativas dessa vez porque tivemos que escolher os animes na unha, não foi fácil escolher o que iríamos cobrir, nada parecia especialmente promissor então precisamos esperar as estreias. Some a isso alguns contratempos pessoais, e o resultado é esse hiato e o que seria o artigo de expectativas acabou sendo completamente inútil.

No Dissidência Pop vamos acompanhar Zombieland Saga. O É Só Um Desenho e o Finisgeekis ainda não publicaram seus primeiros artigos então vou fazer segredo. E aqui no Anime21 vamos continuar com Banana Fish.

Nessa edição do Café com Anime, leia a nossa conversa sobre os episódios 12 e 13.

 

Fábio "Mexicano":
No episódio 12 pudemos mais uma vez testemunhar o quanto o Ash é inteligente. Sua capacidade de planejamento, sua habilidade em lidar com pessoas. E no 13 pudemos ver como isso tudo não vale tanto assim no mundo em que ele vive. Digo, vale muito, é lógico, mas para ele em particular, porque apesar de viver no inferno ele tem um código moral elevado, acaba anulado. Ele faz o que faz porque precisa fazer para viver, mas ele mesmo não tem certeza se essa é uma vida que vale a pena ser vivida, como ele disse ao Eiji. E … algo assim. Não quero gastar toda minha saliva de teclado agora, então digam lá o que acharam 😛
Gato de Ulthar:
O Ash está sendo o líder que ele se propôs a ser, mesmo que ele tenha consciência de que se tornou um monstro. É isso que ocorre quando você se torna o líder de uma gangue mas ainda possui sentimentos ternos, é realmente difícil conciliar o lado bom e o ruim no estado crítico que o Ash se encontra. Para ver como o Ash está dividido em seu coração, basta lembrar que logo depois dele afirmar que manteria o Eiji com ele mesmo sendo perigoso, resolve mandá-lo de volta ao Japão.
Vinícius Marino:
O Gato acertou o problema em cheio. O Eiji é o ponto fraco do Ash. Não importa que ele tenha habilidades “Batmanescas” de planejamento, uma mira sobrenatural ou garra infinita. Enquanto ele deixar o Eiji orbitar sua vida, ele estará vulnerável. Tem uma cena no episódio 13 que sintetiza bem esse paradoxo. Lá no fim, quando Ash está lutando contra o Arthur, o Eiji berra o nome dele a plenos pulmões. Para a surpresa de ninguém, isso faz o garoto perder a atenção e levar uma facada na barriga. É uma parábola perfeita do efeito que Eiji tem tido nos seus planos. Queira ele admitir ou não.

Eu até me surpreendo que as coisas não tenham ido pras cucuias ainda mais rápido. Depois do duelo, o Ash ainda berrou ao Eiji para voltar ao Japão. Fez uma DR pública! Isso é praticamente uma admissão de que ele tem um ponto fraco. Ou vocês acham que nenhum daqueles capangas assistindo um dia pode se ver no lado oposto da briga de gangues?

Fábio "Mexicano":
Mesmo que nunca se oponham ao Ash, nesse caso importa mais a possibilidade, que o Ash sabe que existe, do que o que o roteiro nos reserva.
Diego:
Bom, que o Eiji é a fraqueza do Ash é algo que o anime já vem apontando há um bom tempo, e mais de uma vez a ingenuidade do japonês trouxe consequências problemáticas para o Ash.

Mas falando sobretudo do episódio 13: eu juro que não entendo o que o Eiji quer. Digo, ele sabe do tipo de vida que o Ash leva. Lutar e matar, nessa situação, não é puro capricho: é uma necessidade. E ainda assim ele corre para onde o Ash está para tentar fazer ele parar de lutar, mesmo quando o Arthur está vindo para cima do Ash. Ingenuidade é uma coisa, mas há momentos que o Eiji parece beirar a estupidez, francamente falando.

Fábio "Mexicano":
Ele queria que o Ash não matasse. Pela conversa que Ash e Arthur tiveram, podemos assumir que isso não era uma opção: o Arthur ia continuar se levantando contra o Ash. O Eiji não sabia disso.
Vinícius Marino:
O Eiji obviamente não sabe de nada, para achar que dois gângsters no meio de uma luta de facas na linha de trem deserta não ia acabar em morte. Não que isso fizesse diferença. Como o Diego disse, violência no crime é uma necessidade. O crime é violência. É a lei do mais forte. Um gângster que se recusa a matar é um gângster prestes a ser morto.

Acredito que a única chance realista disso acontecer é se o Ash abandonar o crime. Será que isso acontecerá? Explica por que alguns leitores do mangá tipificaram a história como uma jornada para sair de um ciclo vicioso.

Fábio "Mexicano":
Na minha cabeça, é o que o Eiji deseja para o Ash, mas ele não tem muita coragem de dizer isso claramente, por diversas razões, não sendo a menos importante delas o fato de que ele não tem uma alternativa para oferecer ao amigo.

Mas vamos por essa linha então, esses episódios foram estrelados pelo Ash, mas me digam o que acham que se passa no fundo da mente do Eiji, o que o move, como ele vê o Ash e o que espera dele.

Gato de Ulthar:
O Eiji ainda entende parcamente o mundo do Ash, e o centro da questão foi ver o Ash ser esfaqueado por culpa do Eiji, que tirou sua atenção. O rapaz é tão puro e inocente que está demorando para cair a sua ficha de que o Ash é um líder criminoso.
Diego:
Eu concordo que o Eiji quer que o Ash abandone essa vida, ele só não parece conseguir entender que isso não é uma opção. Ou, pelo menos, não ainda. Tanto pelo status do Ash como líder de gangue, mas sobretudo porque, para todos os efeitos, ele sabe demais. O Dino, e mesmo quem quer que esteja acima do Dino, jamais irá permitir que o Ash simplesmente fuja. Muito me espanta que pareça ser possível o próprio Eiji simplesmente fugir, dado que ele também sabe bem mais do que deveria.
Vinícius Marino:
Engraçado. Estava aqui pensando sobre as coisas que o anime nos trouxe e reparei que sabemos muito pouco sobre isso. A despeito do Eiji ser colocado como deuteragonista, Banana Fish apresenta as coisas do ponto de vista do Ash. Mesmo as cenas marcantes entre ambos – o “Halloween”, o choque cultural na hora do café-da-manhã – são focadas muito mais em como o Eiji afeta o Ash e não o contrário.

O meu “chute” eu já dei antes: é amor. Por si só, isso já explicaria a vontade de tirar o Ash do pecado e construir uma vida juntos, longe do crime. Mas Banana Fish tem sido um BL bem tímido, então não acho justo enfatizar muito esse ângulo.

Acredito que o diálogo entre o Eiji e o Max na estação dá umas pistas nesse sentido. Para alguém como um Eiji, um atleta podado da profissão ainda jovem, encontrar um estrangeiro decidido, individualista, em uma vida tão diferente da sua gera um fascínio óbvio. Só não sei se compro a história toda. Para todos os fins, ele parece ter grudado no Ash porque o roteiro quis. 😝

Fábio "Mexicano":
Acho que já havíamos reclamado de como o Eiji incomodava, narrativamente falando, antes, não é? E a hipótese do “amor” também já havia surgido. Tanta coisa se passa e o Eiji parece ainda no mesmo lugar.

Para encerrar, vamos falar dele, porque é a última oportunidade que temos e nunca falamos muito porque o anime nunca revelou muito. Sei lá, especulem sobre ele também, vamos tentar fechar as lacunas. E o Arthur?

Minha hipótese com base no nada é que ele odeia o Ash porque quando o Ash escapou de ser prostituído ele (loirinho, bonitinho) se tornou o mais “querido” do bordel. Mas pode ser só porque ele era um líder de gangue realmente teimoso (e isso é tudo o que o anime nos permite concluir com as evidências mostradas mesmo).

Diego:
Até aqui me parece que ele odeia o Ash primeiro por tê-lo derrotado – e consequentemente tomado o seu território -, mas também pelo que fez com seus dedos, que ele parece ver como adicionar ofensa à injúria. Ele é do tipo que quer poder, e ter esse poder tomado dele de uma forma tão clara – ficou bastante óbvio o quanto o Ash era superior na luta – parece ter ferido bastante o seu orgulho, ao ponto dele aceitar qualquer coisa para dar fim no inimigo.
Fábio "Mexicano":
O Ash ter dito que não era culpa dele e o Arthur ter concordado com isso (ou foi o contrário, enfim) torna essa narrativa estranha para mim, mas sim, pode ser.
Gato de Ulthar:
Acho que esse papo do Ash dizer que não teve culpa e o Arthur admitir diz mais respeito à inevitabilidade deste tipo de ocorrência entre gangues, é o próprio ônus da vida criminosa. Penso que não era como se o Arthur realmente odiasse o Ash, mas algo como se fosse necessário e indispensável se vingar dele.
Vinícius Marino:
Eu também acho. O cara derrotou ele – humilhou ele em público. Com direito a uma cicatriz que ele nem pode esconder. Já dissemos aqui antes como a sociedade do crime é baseada em honra. Alguém faz isso com você, você precisa se vingar. Para alguém que esteve tanto tempo “por baixo”, ver-se finalmente “por cima” também abre as portas para o pequeno poder. Dá um certo gostinho ver quem te pisava finalmente pagar pelos pecados. Em suma, o Arthur parece ser o gângster mais “clássico” de todos. O que talvez faça dele justamente o antagonista menos interessante. E aquele que foi jogado fora na metade do anime. 😝
Fábio "Mexicano":
Eu realmente torci até o final para que ele fosse mais do que isso. Mas a não ser que eu escreva minha própria fanfic, parece que foi em vão. Até agora, Banana Fish parece só gostar do Ash mesmo.

E eu já tinha dito que a anterior era “pra encerrar”, mas já está atrasado mesmo e estou decepcionado com algumas coisas, então mais uma (essa vai encerrar de verdade, prometo): o que acham do desenvolvimento de personagens em geral em Banana Fish? Só o Ash está tendo chance de brilhar mesmo? Essa é uma história plot-driven mascarada de character-driven por um casal quase-homoafetivo?

Vinícius Marino:
Boa pergunta. Acho que pelos requisitos do próprio gênero ela acaba sendo plot-driven mesmo. Afinal, é um grande tributo aos filmes americanos de ação dos 1980. Por mais “coração” e conteúdo que tenha, não escapa da sua essência.

Não acho que só o Ash tenha tido desenvolvimento, no entanto. Tivemos alguns snippets sobre a vida e o passado do Max, do Eiji, do Ibe. Em alguns casos, por flashbacks; em outros, por linguagem visual mesmo. Por exemplo, os aparatos de fotografia que o Ibe sempre leva consigo. É pouco, mas é mais do que muitos animes fazem. Nós sabemos que essas pessoas existem de verdade, tem hobbies, profissões, gostos pessoais. Mas é bem claro (e cada vez mais gritante) que a autora “gosta” muito mais do Ash mesmo. 😝

Gato de Ulthar:
Também creio que seja um “Plot Driven”, mas que o Ash é o queridinho supremo, isso ele é! E como o Fábio lembrou, Banana Fish sente uma falta de algum inimigo interessante além de capangas genéricos ou algo um tanto sem graça como o Arthur, e o Papa Dino não preenche essa lacuna, ele é o “Big Boss”, seria legal algum assecla ou adversário menor interessante. Minha esperança é aquele chinês andrógino, mas nem sei dizer ainda qual é o seu papel nisso tudo.
Diego:
Eu gosto de distinguir entre personagens bem caracterizados e personagens bem desenvolvidos. Todo mundo em Banana Fish é bem caracterizado: como o Vinicius apontou, são pessoas com seus próprios interesses, ideias, hobbies, etc. Mas ninguém aqui me pareceu particularmente bem desenvolvido. Isto é: eu to ainda pra ver alguém mudar nessa história, porque pra mim tá todo mundo exatamente no mesmo ponto que começou. Em compensação, o plot vem sempre avançando, então nesse sentido acho justo dizer que o avanço do plot é o que move a história.
Fábio "Mexicano":
Gostei da distinção do Diego, é mais ou menos a que eu faço também. Os personagens de Banana Fish certamente não são meros arquétipos ambulantes, e isso é um baita de um ponto positivo. Mas tirando o Ash, a maioria deles está mais ou menos onde estava quando começou o anime. O Eiji em particular não mudou quase nada desde aquele Eiji que estava preocupado com o Ash quando ele estava preso – o comecinho do comecinho do anime.

E agora sim, encerrada essa edição de Café com Anime de Banana Fish! Até semana que vem, agora que devemos retornar à normalidade ☺️

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