Bom dia!

Eu estou sempre ansioso para assistir um novo anime da Mari Okada! E o tema desse é provocante: o começo da vida sexual de garotas adolescentes.

Araburu Kisetsu no Otome-domo yo, em tradução livre fica algo como “Donzelas na temporada selvagem”, o que é basicamente o título em inglês dele, Maidens in Your Savage Season (na verdade é “O Maidens in Your Savage Season”, mas esse “O” aí no começo não tem significado nenhum e me recuso a usá-lo).

Muitos no meu lugar se sentiriam inadequados para escrever sobre esse anime. Quero dizer, eu sou um homem! O que eu sei sobre o despertar sexual de garotas? O que elas sentem, desejam, fazem durante a adolescência por conta disso? Pois eu respondo com confiança: não sei.

Mas eu também não sei o que garotos fazem nessa mesma circunstância, porque, bem, digamos apenas que eu comecei tarde. Ok, eu me sinto inadequado para escrever sobre o tema em si, tá bom? Mas não tanto para escrever sobre as personagens desse anime.

E você, como foi a sua “savage season”?

 

Sugawara e Hongou

 

Eu não posso evitar pensar o quanto há de pessoal, seja experiência, seja desejo, da própria Okada nessa história. Ela é uma roteirista que coloca muito de si em suas obras, afinal. E logo no começo do anime uma das garotas diz: “Estou interessada em saber se autores passam a abordar juventude e sexo [em suas obras] conforme envelhecem”.

Parece uma auto-inserção descarada ou não parece? Em todo caso, o artigo não é sobre a autora, mas sim sobre o episódio, então vamos lá.

 

O Clube de Literatura

 

A protagonista é Kazusa Onodera, uma garota normal, tímida, que parece estar vivendo apenas um dia depois do outro enquanto evita pensar em coisas complicadas.

Uma vida normal de uma garota normal é algo especial para ela, como ficamos sabendo depois, por certos motivos dos quais tratarei adiante. Ela é feliz com sua vida normal, e é isso o que mais importa para ela nesse momento.

E essa sua vida normal consiste em participar de um clube literário escolar que só possui garotas. Elas leem livros e os discutem. É isso que ela faz e ela parece querer que continuem assim para sempre.

Mas as coisas não podem ficar assim para sempre como estão, podem? É biologicamente impossível que fiquem, quero dizer. Elas estão naquela idade.

Ela vislumbra isso pela primeira vez quando seu clube começa a ler livros adultos, que descrevem cenas de sexo. Das cinco garotas do clube, Onodera inclusive, três ficam extremamente constrangidas com esse conteúdo quando fazem uma leitura em conjunto. Por que as outras duas não ficaram é motivo de especulação, embora pelo menos uma delas pareça ser por uma razão bastante simples, pois experiência real ali nenhuma delas tem.

Depois dessa experiência todas elas ficam mais sensíveis ao assunto. Conversas de colegas de escola não passam batidas. Onodera chegou até mesmo a despertar a consciência de que sua própria mãe, que ela conhece desde sempre, que é tão infantil, em suas próprias palavras, não é mais virgem.

E esse não seria o maior golpe de realidade a atingi-la, mas antes de chegar ao clímax do episódio quero tratar das demais garotas do clube.

 

Onodera quando realiza que sua mãe não é virgem

 

A presidente do clube é Rika Sonezaki, e ela parece ter sido afetada tanto quanto ou até mais que a Onodera pela súbita realização de que ela é uma criatura sexual. Que ela tem pulsões e desejos, que seu corpo foi feito para realizar certas atividades e provavelmente anseia por isso.

Ela é também quem fica mais atenta e quem mais se perturba com as conversas de cunho sexual de terceiros. Sonezaki fica ofendida que “meros estudantes” pensem e falem essas coisas, ainda mais na escola.

Logo fica claro que o que ela sente provavelmente é insegurança, e está apenas extravasando isso na forma de negação. Ela não é tão bonita quanto outras garotas, não tem o corpo que elas têm. Ou melhor dizendo: ela sente que não é bonita, sente que seu corpo não é bom como o delas.

Um dia ela era uma criança. No outro dia ela cresceu, seu corpo mudou, e ela começou a sentir coisas que não sentia antes, e se sente inadequada.

 

 

A outra veterana do clube é Hitoha Hongou, e ela é uma das duas que não ficaram chocadas com o conteúdo do livro. Provavelmente foi ela quem sugeriu esses livros em primeiro lugar. Hongou quer ser uma escritora, afinal.

Mas será que ela entende os sentimentos envolvidos ou está entendendo apenas as palavras? Na cena mais assustadora do episódio Hongou entra em um bate-papo de cunho sexual para adultos, do qual ela parece ser frequentadora assídua, e começa a digitar coisas como “estou molhada” sem nem piscar ou corar. Ela só hesita quando tenta escrever o que a presidente Sonezaki disse quando descreveu como seriam os fluídos vaginais de uma garota a quem estava tentando ofender.

Para ela, isso é apenas material de estudo para escrever seus próprios livros. Claro que é perigoso uma adolescente se meter nesse tipo de conversa com pessoas desconhecidas pela internet, por isso a cena assusta, mas de algum modo eu meio que não espero que isso vá dar em nada demais. Se qualquer coisa, é capaz até do sujeito com quem Hongou se corresponde nesse bate-papo também ser, convenientemente, um adolescente fingindo ser adulto.

 

Sugawara parece triste quando diz que gostaria de fazer sexo antes de morrer

 

A com mais potencial de todas as secundárias é Niina Sugawara. Ela foi a outra garota que não se perturbou com o conteúdo sexual do livro, junto com Hongou. Com efeito, foi ela quem o leu em voz alta na sala do clube, sem que se percebesse em seu rosto qualquer traço de nervosismo, o que foi o pontapé da construção de sua aura de mistério.

Seu tom de voz é mais baixo e mais suave do que todas suas colegas, o que só torna mais desconcertante o quão inquisitiva ela é, ou a facilidade com a qual ela diz coisas chocantes e inesperadas.

Sugawara vai mesmo morrer? Provavelmente não. Seria dramático demais e fora do tom para uma história sobre garotas descobrindo a sexualidade. Mas o tipo de mentalidade que ela revela ao dizer isso provavelmente será muito importante para o desenvolvimento da série, e talvez tenha a ver com o seu passado.

Qual outra razão faria uma garota tão destacada das demais, inclusive em beleza, a ponto de ser a única do clube que desperta a atenção geral dos garotos da escola, escolher participar de um clube de, na prática, párias?

Ela quer fazer sexo? Ela com certeza poderia. Basta Sugawara levantar a mão que se forma uma fila e daí é só escolher. E, no entanto, ela é virgem, e não parece ter sequer intenção de fazer nada para mudar isso tão cedo. Mas seu desejo soou sincero.

 

Sudou é a melhor amiga

 

Fechando o clube, a atual melhor amiga de Onodera, Momoko Sudou. Não há ainda nada especial sobre ela exceto ser a melhor amiga da Sudou. Provavelmente as duas entraram na escola e se tornaram amigas de classe e depois entraram para o clube e é isso aí.

Quando Onodera está se auto-depreciando, falando sobre como não tem nada de especial, Sudou tenta animá-la dizendo que não ter nada de especial é em si algo especial. Ela provavelmente só falou da boca para fora, mas isso me fez pensar que se ela acha que a Onodera pode ser especial por não ter nada de especial, então Sudou deve considerar que ela própria tem algo de especial, entendeu?

O que não seria nada especial seria duas pessoas próximas serem igualmente especiais exatamente da mesma forma, afinal. Mas confesso que posso estar lendo demais nessa cena. É que realmente não há muito o que escrever sobre a Sudou por enquanto, ela só aparece junto com a Onodera e é quase um espelho dela.

E se hoje elas são melhores amigas é porque a Onodera perdeu seu antigo melhor amigo.

 

Izumi é pego no flagra

 

Onodera tem um amigo de infância, Izumi Norimoto. Ele é, até agora, o personagem mais importante depois das garotas do clube (acredito que ele seja até mesmo mais importante que várias delas).

Na animação de encerramento, além dele, aparecem outros quatro garotos, então suponho que cada uma das garotas do clube terá seu próprio crush ou algo equivalente. Até o momento, só apareceram Izumi e um outro garoto, que defendeu a presidente em sua classe quando todos começaram a zombar dela.

Izumi e Onodera são amigos desde que eram crianças bem pequenas e completamente inocentes, mas quando chegaram à adolescência ele cresceu e passou a chamar a atenção de outras garotas, que por sua vez hostilizaram Onodera.

Há muito o que especular sobre esse episódio. Talvez Onodera não tivesse se tornado alguém “sem nada de especial” se não estivesse sempre à sombra do Izumi e não tivesse começado a sofrer bullying por causa disso. Ela poderia ter se tornado mais vaidosa, poderia ter desenvolvido hobbies e interesses próprios, poderia até ter chamado a atenção de outros garotos.

Mas ela sofreu bullying, então ela se isolou e procurou não chamar mais atenção de forma alguma. Os anos se passaram, agora ela está no ensino médio e evita ter qualquer tipo de contato público com o Izumi.

Ela provavelmente sente falta da amizade deles. Ela provavelmente não quer mudar, e ela chora por causa disso ao final do episódio, porque ela se ressente que o Izumi tenha mudado e essa mudança os separou. Ela era feliz antes, então passou a ser infeliz, e se afastou do amigo de infância para reconstruir sua vida.

Mas agora ela descobriu que o Izumi continua mudando, e ela própria também está passando por mudanças.

 

Cabe ou não cabe? Era essa a maior dúvida de Onodera ao final do episódio

 

Será que ela gosta dele? Não dá para responder agora. O anime provavelmente seguirá pela rota do romance, não a de um romance normal de anime porque esse é desde o começo fortemente sexualizado, mas não obstante um romance.

Isso não significa, todavia, que ela esteja apaixonada por ele. Ela deve se excitar com ele porque é o único garoto algo próximo dela, e tê-lo visto se masturbando ao final do episódio deve tê-la deixado constrangida de desejo – por isso ela correu.

Por isso a primeira coisa com sentido que ela disse quando parou de correr foi que “não tem como isso caber lá”. Há alguma dúvida sobre o que se passava na cabeça dela quando disse isso?

Onodera é, contudo, apenas uma adolescente descobrindo sua sexualidade.

 

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    Contrariando a maioria das pessoas que estavam ansiosas por Fire Force e Dr. Stone, eis o anime que eu mais estava esperando. Eu já tinha lido um pouco do mangá antes e devo dizer que o episódio de estréia não foi apenas fiel, como também bastante divertido. Esse anime toca em assunto que eu não tinha visto em animes ou mangás: sexualidade de jovens garotas. Isso realmente me impressionou, visto que, no que toca esse assunto, eu sempre só via uma abordagem, um tanto rasa, somente para a lascívia masculina, deixando, na maioria dos casos, às meninas somente os papeis de inocentes e alheias a tais assuntos, principalmente em mangás shoujos e yuris. Ainda achei bastante interessante o design das personagens que são fofos e bonitos e a princípio passa a imagem de meninas fofas fazendo coisas bobas e inocentes gerando uma grande quebra dessa expectativa. É como se a autora falasse: “ei, meninas também pensam nessas coisas”. Bom estou bastante ansiosa pelo o desenrolar da história bem como pelas sulas resenhas.

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá Ana, tudo certinho?

      Bom, sobre sexualidade adolescente, com uma garota como protagonista, tem Kuzu no Honkai também, mas Kuzu no Honkai é o “lado sombrio” da sexualidade, por assim dizer. Nada contra, é um excelente anime, mas assistir a sexualidade “normal” também é bom, obrigado por existir, Araburu! Também era o anime que eu estava mais ansioso 😊

      E pode apostar que vou resenhar os episódios, hehe.

      Obrigado pela visita e pelo comentário!

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    Olá peoplesss!!! Lascivia, Luxuria, fluidos, pele, muita pele….É o que para mim promete esse aí….Ou muita comédia (ah vai ter de ter) que nossas mocinhas vão ter de pelear muito!!!
    Não espero um hentaizão descarado, mas alguns momentos hentai divertidos em ritmo de comédia e alguns sublimes. Mas o mais engraçado e isto é original (talvez nem tanto) é que as meninas começam a se enfronhar no maravilhoso mundo do sexo (e é uma pena ter de tirar a roupa para adentrar no mesmo) através da alta literatura, o que venhamos não é o primeiro contato de muita gente (que geralmente é uma revista masculina ou feminina…E sua maravilhosa fartura de fotos) a alta literatura que tem o erotismo para elas é melhor, as palavras são mais interessantes e tem mais impacto do que uma cena liveaction. A experiencia imersiva nestas palavras são mais envolventes e provocantes pq é a sua cabecinha que vai construindo o cenário e os corpos dos atores. E eu senti isso lendo Germinal de Zola (Étienne e Catherine) O cortiço de Azevedo, Os Maias de Eça e por aí vai….

    E um aviso ao menino Izumi, o meu, escuita o tio aqui, nada de portas abertas na hora do “gerenciamento da sua libido” entendeu ò impiastro!!! Existem protocolos de segurança há tempos imemoriais e damas não aceitam a visão proporcionada e as incomodam deste esses mesmos tempos….Bom peoples essa é uma que vou acompanhar com gosto a historia dessas meninas! Nós vemos bjtus!

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá James, tudo certinho?

      Claro que não vai ser hentai. Vai ser mais um coming of age da Mari Okada, como Hanasaku Iroha ou Hisone to Masotan, mas com o tema da sexualidade – um mais universal do que de costume para a criadora, note-se.

      Sobre a “originalidade”, bem. É tecnicamente baseado em mangá da própria Mari Okada, que começou a publicação provavelmente na mesma época que a produção do anime começou (3 anos é um tempo normal para isso) e que já foi anunciado que vai acabar em setembro, quando creio então que o próprio anime acabará também. Não é original, no sentido estrito, mas foi feito sob medida para o anime, por uma roteirista de animes experiente.

      Quanto a como garotas têm seu primeiro contato com a pornografia (ou sexo na ficção de forma geral), tenho a intuição que para elas o mais comum seja a literatura sim, alta ou nem tanto. Quero dizer, a maior parte da pornografia gráfica (revistas, filmes, quadrinhos e ilustrações) é claramente produzida para homens, e não é uma maioria pequena, é esmagadora. E note que Araburu reconhece isso: as garotas leem livros, o moleque assiste hentai.

      Sobre a porta do Izumi, bem. Ele estava sozinho em casa, sua mãe estava viajando. Acho que não é tão “errado” assim – e, mesmo que seja, adolescentes fazem tudo errado. É assim que aprendem.

      Obrigado pela visita e pelo comentário! 😊

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    Depois de ler os comentários da Ana Pereira e do James Mays, não tenho nada a acrescentar.
    Com uma estreia sólida aposto as minhas fichas que Araburu será uma jornada interessante e talvez um dos melhores trabalhos da Mari Okada.
    Excelente artigo de primeiras impressões de Araburu Kisetsu no Otome Domo Yo Fábio.

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    Que é isso rapaz teria a acrescentar em muito por exemplo nos dizendo: qual a obra literária de grande vulto portuguesa que faz arrepiar os cabelinhos da nuca da moça aí do outro lado do lago?

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    Pq me lembro de um tempo no final do Colégio a mulherada comprava (lá nos meados dos anos 80) para ler o Corydon do André Gide e explodia a cabeça da mulherada…Seria aí o começo do yaoi? Será André Gide (um escritor marginal francês) o primeiro influenciador?

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    James tem tantas obras de autores portugueses muito bons no quesito romance/erotismo. Aquela obra que até a mim me arrepiou os cabelos da nuca foi o Crime do Padre Amaro do grande Eça de Queirós. Tem outros escritores muito bons, na sua maioria de romances de qualidade. como Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett e Alexandre Herculano. Depois tem um poeta que às vezes é esquecido, o Bocage ao longo da sua vida escreveu uns belos poemas ordinários cujo tom erótico faria frente aos escritores de romances japoneses (recomendo a leitura do SONETO DO PRAZER MAIOR).
    Não esquecendo, nos anos 80, aqui foram lançados imensos livros de romance e erotismo pela Editora Europa-América que agradavam muito as mulheres.

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    Grande K-San…Prazer inenarrável em encontra-lo mais uma vez!! Prezado, o Bocage aqui no Brasil nos meus anos de colégio era dificilimo de encontrar nas livrarias novo, só nos sebos (eram os anos finais da ditadura militar por aqui) e em edições portuguesas…Li o Almeida Garrett bem depois, na verdade só li o “Viagens na minha terra” (espetacular! E que se mencione a biografia de Almeida Garrett que é interessantíssima)…E imagina o “Crime do Padre Amaro” em anime?!!!

    E prezado “Mexicano” grato pelo comentário, constatamos que mulheres são muito mais sofisticadas nesse quesito. E não adianta somos homens, somos seduzidos pela imagem bruta mesmo, mulheres são com sonetos…Abços a todos!

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    Olá James, como vai? Aqui Bocage é deixado de lado nas escolas, quando estava no ensino secundário só vi um excerto de um poema dele no manual de português e esse excerto estava muito “adaptado” (tiraram tudo o que poderia ser considerado brejeiro e ofensivo). Hoje em dia, para ler os poemas de Bocage em toda a sua glória, só na internet, todos os livros que têm poemas dele à venda estão todos “demasiado” adaptados. Da obra de Bocage recomendo a leitura do Poema A Água (leitura apenas para maiores de idade), o Soneto Napoleónico entre muitos outros (deixo aqui um link com muitos poemas desse grande poeta: https://www.elsonfroes.com.br/bocage.htm).
    De Almeida Garrett só li trechos de “Viagens na minha Terra) quando estava no secundário e gostei bastante (Garrett é um dos melhores escritores da língua Portuguesa e como alguns dizem, só fica atrás do Grande Camões por pouco). Garrett teve uma vida plena e foi ele que impulsionou o Teatro por aqui.
    E o Crime do Padre Amaro em anime, só em formato filme e ainda assim levaria com uma censura total.

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