É um conto de fadas cru, realista e doloroso que vai te proporcionar muito mais que uma reflexão, ele vai te fazer sentir.

O que seria do mangá/animê se não fosse Tezuka? A figura mais importante da história do nosso meio e eu só tinha visto um animê dele até agora.

Sim, eu sei, é um absurdo. Mas sanei esse problema com uma overdose que incluiu a obra do artigo de hoje e mais inúmeros curtas, tanto da década de 1960, no início dos trabalhos da Mushi, como da década de 1980.

 

 

A primeira coisa que veio à cabeça quando vi Mori no Densetsu (Legend of the Forest): como é difícil contar uma história sem usar palavras! Por mais que a comunicação não se dê apenas pela fala, ela é o fator mais importante e mais facilitador do processo. Sem a língua, é necessário expressar sentimentos utilizando apenas a expressão corporal, é necessário contar uma história apenas com a montagem da obra. Mas, bom, estamos falando de Tezuka aqui.

Já estudei muito sobre ele, sua história, relevância, influencia, trabalho. Mas foi ao ir para a prática, assistindo o que ele fez, que consegui compreender e admirar perfeitamente a sua genialidade.

 

 

Mori no Densetsu é um conto de fadas que, a princípio, narra a história de um esquilo que acabou se separando dos pais assim que nasceu e foi obrigado a crescer sozinho, contando apenas com o auxílio de uma árvore.

Parece algo extremamente simples, uma bobeira estilo Disney, historinha para criança, mas ela segue por rumos um tanto quanto… inesperados.

 

 

Logo de cara tem uma das coisas mais incríveis que eu já vi em um animê: o processo de crescimento do esquilo. Tezuka usa a evolução da animação como analogia para demonstrar a história do animal. No início, temos apenas uma sucessão de quadros estáticos, que se transformam em desenhos muito simples com movimento e vão evoluindo até chegar às cores.

Per se o uso dessa ferramenta já é genial. Mas, quando sabemos que o cara que utiliza vivenciou todas essas fases da animação, que esteve lá desde o início da história, que lutou para que a indústria se formasse e crescesse, tudo fica com sabor muito mais especial. É como se o Tezuka estivesse colocando em uma obra tudo que ele já fez, tudo pelo que passou. Essa sequência tem um caráter extremamente autobiográfico e esse movie merecia nota 10 apenas por isso. É muito emocionante ver essas cenas, é a história da mídia passando na sua frente durante 13 minutos.

 

 

Seguindo com o enredo: após crescer, um lenhador começa a cortar as árvores e, claro, ele vai chegar naquela que se tornou a única família do esquilo. O desespero toma conta e ele ataca a casa do homem, causando uma boa confusão. Para se vingar, ele vem com todo ódio e armado. E, com um tiro, ceifa a vida da esquilinha (sim, eu sei que o termo está errado, mas esquilo fêmea é muito feio xD) que nosso herói tinha acabado de começar a ficar junto.

 

 

O lenhador segue destruindo a floresta e, num ato de vingança, o esquilo engenhosamente usa um garfo para canalizar um raio e jogá-lo em cima da barraca do assassino. Obviamente que ele também morreu, mas, pelo menos, teve seu momento de glória.

 

 

Não é possível precisar se o esquilo sabia que morreria ao realizar essa ação, mas não vejo isso como um ponto relevante. Ele já tinha perdido o pouco que tinha e viver carregando esse peso seria muito difícil, já que, de certa forma, o lenhador foi para matá-lo, o que jogava um pouco de culpa em suas costas pela morte da esquilinha.

E, no Japão, uma morte honrosa, lutando por aquilo que se acredita, é algo muito valorizado. Foi um sacrifício em prol de justiça e da proteção da floresta, afinal, o homem ia continuar cortando as árvores.

 

 

Na segunda metade, a história passa da perspectiva particular para a geral: a floresta inteira está a perigo. Com a morte do lenhador, enviaram uma empresa com máquinas poderosas para cortar as árvores. As cenas de desespero, aflição e desapropriação dos seres da floresta são incríveis, conseguem transmitir perfeitamente as sensações. E é uma floresta mística, com criaturas fantásticas, além dos animais normais.

 

 

Os moradores da floresta fazem um conselho, que me lembrou muito O Senhor dos Anéis, quando as raças se reúnem para definir o que fazer com o Um. Cada grupo tem uma ideia diferente, uns querem usar a força, outros negociar. A decisão é pela negociação.

 

 

E aí temos mais um momento icônico: os gnomos levam um vaso de flor, aquilo que eles possuem de melhor e valioso, com toda paz, amor e ingenuidade do mundo. O chefe da operação os recebe, ri, quebra o vaso, e os mata. A antítese entre crueldade humana e paz mística é muito bem exposta.

 

 

É muito curioso que ninguém fale de Mori no Densetsu. Eu, pelo menos, nunca vi ninguém comentando a respeito, nem nos livros/artigos científicos. É um movie onde o Tezuka mostra toda sua capacidade artística, de uma forma universal, já que ele não tem a prisão da língua, ficando 100% acessível a qualquer um que se interessar.

 

Sayonara. Bye, bye o/

 

(〜 ̄▽ ̄)〜 Oh, Madoka, já passou da hora de dar reset no mundo.

 

 

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      Fico feliz que tenha gostado o/
      É só esse mesmo. Mas vale muito assistir outras obras de Tezuka, seja os curtas da década de 60 ou os mais recentes, existem muitos animês de altíssima qualidade.

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