Ao lado dos EUA, o Japão é o país com o cânone de super-heróis mais famoso do mundo com seus Ultramans, Super Sentais, Kamen Rider, Metal Heroes, Henshin Heroes e tantas outras franquias disponíveis em mangás, animes, cinemas e, sobretudo, programas de TV. Várias tentativas foram feitas para adaptar e/ou transcrever essas produções para o formato animado, desde curiosidades como o anime de Ultraman produzido pela Sunrise, passando pelo obscuro OVA Hikaruon do estúdio AIC, lançado em 1987, até a demência charmosa de Samurai Flamenco cometida pelo finado estúdio Manglobe em 2013. Nenhum dos citados, porém, teve o grau de ambição e de relativo sucesso na empreitada quanto Concrete Revolutio.

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Chega ao fim um dos meus animes preferidos de 2015. Eu já devo ter dito, mas se não disse digo agora: essa segunda temporada foi bem inferior à primeira. Ainda assim foi boa, mas bem inferior. E mesmo o final sendo, como um arco fechado, isolado, bom, acima da média do anime, acho que ele contribuiu para rebaixar a segunda temporada e Concrete Revolutio como um todo. Acima da média mas que abaixa a média? Ora, se você assistiu Concrete Revolutio até o fim, como eu, sabe que esse anime não é famoso por ser ortodoxo. Em Concrete Revolutio isso faz total sentido.

O que eu não sabia era como arrancar algum sentido desses dois episódios finais. Eu deixei de escrever a semana passada porque sinceramente não sabia bem o que escrever. Quero dizer, eu poderia ter escrito muita coisa sobre a decisão do Jirou e sobre as revelações do episódio, mas elas sozinhas não eram suficiente para concluir nada. Eu seria forçado a especular loucamente para escrever um artigo que não fosse fraco. E eu adoro especular! Mas ter que especular tanto, faltando apenas um episódio, e ainda por cima em Concrete Revolutio, é pedir pra errar. Digo com convicção: nada do que eu imaginei de específico após o episódio 10 se provou verdadeiro. Apenas coisas bem gerais, como a Kikko e o Fuurouta estarem no exército que contra-atacava o Jirou apenas para reencontrá-lo – e, quem sabe, fosse o caso do Jaguar também? Era. E daí?

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Mais uma edição atrasada da coluna e eu realmente quase não consegui assistir anime nenhum essa semana. A coisa está tensa, mas estão aí os comentários do pouco que assisti e por favor comente tudo o que você viu, conforme eu for recuperando o tempo perdido eu respondo!

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Pesado esse episódio, não foi? Ele não é complexo, mas dentro do contexto de um anime tematicamente rico como Concrete Revolutio achei por bem deixar para analisá-lo junto ao episódio 11, final, dado que eles formam um único arco. Esse décimo episódio foi apenas o prelúdio do fim, que será, supostamente, uma “guerra”. A não ser que tenham guardado todo o dinheiro para o último episódio, não espero assistir muitas cenas de ação desenfreada – a animação nessa segunda temporada tem sido uma droga afinal, e olha que na primeira já não era grande coisa. E o mais importante: há muitas pontas soltas no enredo, muitos conflitos entre personagens para ser resolvidos.

Assim, para não deixar meus leitores (os dois ou três) sem nada sobre o anime essa semana escrevo esse artigo curto onde destaco uma cena sobre um dos temas principais do episódio. O grande tema, lógico, foi a tomada de decisão do Jirou, e embora eu pudesse especular muito sobre isso aqui (com grande chance de acertar), deixo para o futuro eu comentar sobre as motivações e implicações dessa decisão quando elas já forem completamente conhecidas. Separação por outro lado foi um tema exclusivo desse episódio (não que não possa ressurgir no próximo). Houve várias cenas que eu poderia ter escolhido que representam esse tema, mas escolhi essa: o momento em que Chinatsu, funcionária há décadas do Magotake, que viu o Jirou crescer, vai embora do laboratório. Até onde ela e nós sabemos até aqui, para sempre. Logo antes disso ela rasgou um cartaz do filme maldito que manchou irremediavelmente a imagem da família a quem serviu ora como secretária, ora como empregada doméstica. Ela não os odeia, ela queria continuar com o doutor e com o Jirou, mas ela não pode. A guerra faz isso com as pessoas.

A guerra obriga todos a escolher um lado – e não escolher lado nenhum é interpretado como escolha também. Na maioria das vezes ninguém tem escolha. Chinatsu não teve. Como não tiveram, esteja certo disso, Jirou, Emi, Kikko, Fuurouta, Raito, o casal Megasshin, o Planetário S, e quero acreditar que Jaguar também. Foram o Mestre Última e o Satomi quem tramaram durante anos à fio essa situação. Eles é que escolheram deliberadamente o caminho do conflito. O caminho que não deixou opção para muitas pessoas, super-humanos, youkais. O caminho que levou a tantas separações.

Esse episódio funcionou muito bem como uma recapitulação da série. Não uma recapitulação de tudo o que já aconteceu, mas uma recapitulação dos momentos chave da história do Jirou, que são também chave para o enredo de Concrete Revolutio. Isso não foi feito através de uma recapitulação tradicional, com flashbacks ou memórias dos personagens, mas de duas formas paralelas e criativas: um filme produzido pela Imperial Propaganda com a intenção de difamar os super-humanos (especialmente o Escritório de Super-Humanos e o Jirou) e a imagem produzida pelo capacete do Claude que o Jirou usou que retrata o próprio Jirou aos olhos do Claude.

O assustador: o vídeo produzido com a intenção de difamar tecnicamente não contou uma única mentira. Não no que realmente importa, pelo menos. Os Super-Humanos que formariam o Escritório são retratados como uma sociedade secreta maligna, mas enquanto essa nunca foi a intenção deles (bom, talvez tenha sido a intenção do Akita em algum momento), do ponto de vista das demais pessoas suas ações, corretamente retratadas no filme, sem dúvida podem ser sim consideradas malignas. Ou pessoas nunca morreram por causa dos gigantes criados pelo Escritório de Super-Humanos?

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Liberdade, Igualdade e Fraternidade é um lema tríptico comumente associado à Revolução Francesa, embora a anteceda e sua adoção durante as várias fases dela não tenha sido universal – vários outros lemas circularam, bem como diferentes interpretações de seus significados. O conceito de liberdade varia pouco e é normalmente tratado como um direito natural, mas igualdade teve duas interpretações antagônicas principais: a igualdade perante à lei (todos têm os mesmos direitos e deveres) e a igualdade de resultado (todos os homens serem de fato iguais). Fraternidade é mais complicado ainda e nem vou entrar nessa questão para não alongar desnecessariamente esse artigo.

Concrete Revolutio, como a Revolução Francesa, também tem sua tríade, conforme foi recitada pela primeira vez por Claude no arco final da primeira temporada: Justiça, Liberdade e Paz. Liberdade é liberdade, sem segredos, justiça inclui sem grandes problemas o conceito de igualdade perante à lei, e paz, no anime, significa segurança, a garantia de que não será ferido, molestado ou de qualquer forma terá sua integridade física ou mental ameaçada. Mas Claude não elaborou esse conceito como um lema, um objetivo: ele afirmava que era impossível ter os três ao mesmo tempo. Escolher um significa implicitamente confrontar os outros dois. E foi com essa convicção que ele conseguiu fazer o que fez. Várias interpretações do lema francês também afirmam ser impossível a coexistência de seus três elementos. Jirou certamente discordaria, assim como ele discordou de Claude. O diabo é que até agora ele não encontrou a resposta para esse problema – se é que ela existe.

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Foi um bocado difícil escrever esse artigo porque me incomodou muito a forma extremamente reducionista com a qual o anime retratou a Guerra do Vietnã, conforme interpretada por alguns de seus soldados, bem como a própria história de formação dos EUA ao comentar sobre o massacre dos povos indígenas. Não quero de forma alguma dizer que na verdade os EUA estavam certos nos dois casos (principalmente no segundo!), é que mesmo se fosse uma descrição absolutamente correta da história a forma maniqueísta e caricata com que foi apresentada me parece sempre uma escolha ruim. Mesmo se fosse verdade que os EUA cometeram apenas crimes atrozes e sabiam disso desde o começo, o tom induz a acreditar que só haviam duas escolhas possíveis: a errada, adotada pelos americanos, e a certa, que seria necessariamente o total oposto do que foi feito. Não só não é verdade que os EUA tenham cometido crimes absolutos irredimíveis mesmo para sua época como a realidade é muito mais complexa do que uma moral em preto e branco sugere.

Mas no fundo isso foi só uma alegoria. Como quase tudo (ou seria tudo?) o que acontece em Concrete Revolutio, o que aconteceu nesse episódio ou foi narrado nele não é uma representação da realidade, mas sim um elemento retirado da realidade e modificado para servir de metáfora para a história do próprio anime. O episódio serviu não para criticar a Guerra do Vietnã e o massacre dos povos indígenas da América do Norte (embora faça isso também, sem dúvida), mas para que Jirou se enxergasse em Jonathan, o soldado idealista caído.

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