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Kiseijuu é a história do Shinichi, e só dele. Existe o mundo em volta, existem pessoas que ele ama, pessoas que ele conhece, existe uma ameaça à toda a humanidade, mas tudo gira em torno do desenvolvimento do próprio Shinichi. No episódio passado me perguntei se a história subiria para outro nível, político, mas não foi o que aconteceu. E não tenho mais nenhum motivo para acreditar que acontecerá. As histórias paralelas a do Shinichi são apoio à história do protagonista, e essa é uma forma de narrativa fantástica. Os demais personagens, porém, não se desenvolvem muito, e prestar atenção a eles pode ser frustrante.

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Desde o começo essa é uma história de maturação. O Shinichi criança estava se tornando adulto, com todas as transformações que isso causa no corpo e na mente, e a confusão, dúvida, ansiedade e medo associados. No meio desse processo ele passou por uma dura separação de sua mãe. Todos passamos por um processo de desapego gradual de nossos pais conforme envelhecemos, mas Shinichi não teve esse luxo, sua mãe foi arrancada dele, e de uma forma particularmente cruel. Para encarar esse trauma ele foi compelido a matar o que restava de sua mãe, se livrar de suas últimas memórias. Mas não conseguiu fazer isso. No final, outra pessoa fez isso por ele. Ele ainda não superou a perda de sua mãe e agora precisa viver sem ela uma vida normal que ele não sabe como é, porque nunca viveu ou concebeu viver uma vida sem sua mãe. Como resultado disso ele mudou muito em pouco tempo, e se voltou para a outra mulher que ele ama, buscando talvez que ela preencha o vazio que ficou no peito dele depois da morte da mãe. Só que essa mulher ainda é uma criança. A Murano também precisa amadurecer, ela está bem atrás do Shinichi em termos de amadurecimento, a súbita mudança dele provocou nela uma sensação de afastamento, e isso vem causando problemas ao relacionamento entre os dois. Como resultado, Shinichi agora se sente sozinho.

Me pergunto se as dúvidas que Murano sente não são, na verdade, inseguranças e medos de seu próprio amadurecimento. Eles já eram amigos, gostavam muito um do outro, mas o que significa amadurecer um relacionamento desses? Shinichi amadureceu, ela percebe isso e se sente compelida a amadurecer também, mas tem medo. No último momento feliz que passaram juntos antes da morte da mãe do Shinichi (e no mesmo dia em que isso aconteceu) Shinichi tentou amadurecer esse relacionamento. Ele olhou para ela com luxúria e sugeriu que ela ficasse até mais tarde em sua casa. Para não deixar dúvida sobre o que aquela cena significava, Migi (que é o alter-ego adulto de Shinichi) disse depois que gostaria de ter conhecido o “acasalamento humano”. Murano não quis nada aquele dia e quando Shinichi voltou ele estava ainda mais amadurecido. Nesse episódio, depois de se beijarem, ela pensa que poderia esclarecer suas dúvidas se ficasse mais junto ao Shinichi. Mais junto que um beijo. Ela ainda está sentada naquele sofá, sendo cortejada e se recusando. Por essa interpretação, não foi o Shinichi quem não voltou de viagem, foi Murano quem não saiu do lugar.

A essa altura não espero que Murano seja pivotal para o desenvolvimento da história. Quero dizer, não espero que ela evolua muito, o suficiente para ajudar o protagonista ativamente, ou que ela protagonize alguma parte importante do enredo. Espero que ela evolua sim! Mas acho que ela estará sempre atrás do Shinichi, que terá que amadurecer o suficiente para conseguir lidar com isso. Sua mãe não soube lidar com seu amadurecimento, e Murano está tendo severas dificuldades para lidar com isso também. Shinichi precisa fazê-la entender o que está acontecendo, quem ele é, o que ele sente e o que ele espera dela. Nesse episódio, depois da explosão poucos episódios atrás, acho que ele está começando a tentar fazer isso.

O que não quer dizer que será fácil ou que ele conseguirá seguir com a Murano o tempo todo. Conforme Kana se aproxima, mais vivida mas talvez até mais inocente que a Murano em alguns aspectos, o relacionamento entre Shinichi e Murano deve se deteriorar por causa da insegurança dela e da solidão e do senso de responsabilidade dele. Aqui é onde o cenário tem um papel importante: é provável que por causa dos parasitas Shinichi acabe se aproximando de Kana, o que sem dúvida provocará forte ciúme de Murano. Shinichi só vai se sentir mais sozinho ainda se sua namorada demonstrar duvidar dele, e provavelmente é isso que Kana deseja. Kana sabe que está em desvantagem, e não é só porque Murano é a amiga de infância e já está junto do Shinichi. Kana costumava andar em más companhias antes de conhecer o Shinichi, e é bem provável que ela se considere “suja” por causa disso, independente do que possa ter chegado a efetivamente fazer. Ela não é a garota boazinha perfeita que, aos olhos dela, a Murano parece ser. Essa insegurança toda é revelada nesse episódio no pesadelo que Kana teve.

Outros comentários sobre o episódio: os parasitas, inicialmente solitários, já formam grupos coesos bastante organizados. Estão testando o exato alcance de seu poder e se misturando ativamente à sociedade humana. Isso faz deles humanos? O parasita que aparece no início do episódio não parecia ter nenhuma má intenção com a garota que o acompanhava, foi um infortúnio que ela o tenha descoberto. O que ele poderia fazer naquela situação? É a própria intenção ativa dos seres humanos de identificar e eliminar cada parasita que força os parasitas a se organizarem e se tornarem, potencialmente, mais perigosos para a humanidade. É uma história de discriminação, bastante pungente em um país que se gaba de sua “unidade racial” e discrimina os estrangeiros que nela vivem e trabalham (e os nacionais também, pesquise sobre o povo Ainu). Não, filipinos imigrantes não comem japoneses, mas essa é uma história de horror, não pode ser interpretada literalmente. Do ponto de vista de um japonês, o estrangeiro está ocupando o seu lugar e, simbolicamente, o eliminando – exatamente o que os parasitas fazem em Kiseijuu. Aliás, isso vale para qualquer país com problemas de imigração (ou para países continentais com grandes fluxos de migração interna, se você entende a que estou me referindo). Mas não espero muito desenvolvimento nesse departamento, afinal é uma história sobre o Shinichi, não sobre imigração no Japão. Para esse subenredo da história imagino que terá grande importância o bebê de Ryouko, que a essa altura já deve ter nascido. Estou ansioso para conhecê-lo.

  1. Gostei do episódio, achei que seria somente sobre Murano e Shinichi……Mas evoluiu e acabou mostrando um outro lado dos parasitas, quase que 100% adaptados a nossa sociedade, e com controle total sobre sua principal fraqueza, que seria a troca de corpos.

    • Fábio Mexicano Godoy

      Se refere aquele parasita que massacrou os yakuzas? A impressão que eu tive é que ele apenas pegou as roupas e mudou de rosto, o que já sabíamos muito bem que eles são capazes.

      Sobre esse outro aspecto do anime, eu acho-o importante sim, mas perceba como ele é instrumental para criar um mundo que provoque reações do Shinichi, balizando o desenvolvimento pessoal do protagonista. Não é como se o desenvolvimento do mundo fosse o foco desse anime. E essa é uma forma de contar uma história interessante pra caramba, porque se dão ao trabalho de criar um mundo verossímil só para suportar a história de um personagem. Quando você compara com outras histórias que ignoram o mundo ou o distorcem de forma inacreditável é que você percebe o real valor do que o autor fez aqui e sua dedicação.

  2. Meo Deus!
    Que comparação foi essa?

    – Parasitas são como estrangeiros no Japão ocupando seu território e por isso tem que ser eliminados!

    Afff…

    • Fábio Mexicano Godoy

      Eu não disse que DEFENDO isso. Quis dizer que simbolicamente eles ocupam esse espaço. A maioria dos países tende a ser mais ou menos refratária à presença de estrangeiros, e o Japão, com seu mito de pureza étnica, é um dos países onde esse sentimento é mais forte. O medo do desconhecido, a indisposição de entendê-lo e a vontade inata de eliminá-lo é comum tanto na obra em relação aos parasitas quanto no Japão real, com relação aos estrangeiros.

      Mas os parasitas são uma ameaça? São mesmo? Quero dizer, lógico que eles comem pessoas, mas não é como se eles fossem obrigados a comer pessoas, isso já ficou claro. Hipoteticamente nada impede um entendimento entre as espécies, e me parece óbvio que ambas se beneficiariam disso. Mas isso nunca vai acontecer porque ninguém está disposto a tanto, parasitas são apenas temidos.

      Se o autor pensou nisso quando escreveu a obra? Eu sei lá. Eu enxerguei isso e interpretei dessa forma, e isso para o meu propósito como espectador, consumidor de um produto cultural, é o suficiente. Não fui o único a interpretar dessa forma, acrescento. Naturalmente estou disposto a ouvir interpretações alternativas, se tiver alguma a oferecer.

      • Ah sim, eu entendi o que você quis dizer com relação aos estrangeiros no Japão, porém, garanto que a maioria são bem vindos, turistas e estudantes principalmente, afinal eles ficam, gastam dinheiro e vão embora, porém há um certo atrito quando se trata de estrangeiros vindo a trabalho, fato comum no resto do mundo, inclusive no Brasil, vide os bolivianos e Haitianos. E olha que nem é pelo fato de estarem a trabalho, mas por causa do choque de culturas, hábitos, língua e comportamento. Os brasileiros em particular, são malvistos por muitos japoneses devido ao mal comportamento e hábitos estranhos para eles como cantarolar e conversar em voz alta ou fazer algazarra dentro dos trens, lojas e ônibus, coisa que eles não estão acostumados, além disso há muita delinquência envolvendo brasileiros, o que acaba amedrontando muitos comerciantes que ficam em estado de alerta quando percebem a presença deles, por essa razão que muitos brasileiros e outros estrangeiros acham que estão sendo discriminados.
        Também há atritos envolvendo Chineses e Coreanos, mas esses são por razões históricas principalmente.
        Há também ressentimentos com a presença militar norte-americana, principalmente em Okinawa.
        E porque sei disso? Eu já morei no Japão.
        Bom, quanto ao anime, não sei se o autor realmente quis fazer essa comparação, apenas sei que ele deve ter tirado muita coisa assistindo
        filmes como “O enigma do outro mundo”(The Thing)

        Espero ter esclarecido alguma coisa, acho que é só isso.

        Obrigada pela resposta e boa noite!

      • Fábio Mexicano Godoy

        Foi justamente aos estrangeiros à trabalho que me referi. Parece que no fim das contas não discordamos tanto quanto o seu comentário inicial fez parecer, embora a essa altura eu confesso que estivesse de fato esperando alguma argumentação bastante oposta a minha, apenas pelo prazer que tenho em discutir ideias =) E não assisti esse filme, mas tenho quase certeza que já vi ele ser tratado como uma metáfora para o medo do desconhecido também, em particular o ódio à estrangeiros – mas não leve o que estou falando sobre ele a sério, é apenas uma vaga memória e você sabe como memórias podem enganar.

      • Bom, se o autor quis fazer essa comparação eu não sei mas a sua comparação dos parasitas com os estrangeiros no Japão é que eu achei estranha, sem sentido, afinal os parasitas são invasores enquanto que os trabalhadores vieram como contratados não para tomar o lugar dos japoneses mas para preencher as vagas disponíveis e eles devem obedecer as leis e regras daquele país. Creio que todos sabem dos problemas existentes por lá devido a falta de mão de obra. Já os parasitas, não obedecem regras e para piorar, matam não apenas para comer como vimos no massacre dos membros da Yakusa. O tal “entendimento” entre os humanos com os parasitas me parece impossível, afinal eles necessitam comer os humanos e a suposta convivência até aqui, nunca passou de uma dissimulação. Tudo pela sobrevivência…
        Então acho justo que Shinichi, que perdeu a mãe, não goste e queira acabar com eles, antes que eles o matem, pois a essa altura, eles consideram Shinichi como uma grande ameaça.
        Então dito isso, a convivência com os Parasitas me parece impossível. É uma situação bem diferente com relação aos gaijins, embora possa haver algumas semelhanças…

      • Fábio Mexicano Godoy

        Nem todos os estrangeiros chegam legalmente, com contrato. De todo modo a questão não é a legalidade, mas como uma pessoa média se sente (ou não) ameaçada pelo outro (seja ele um ser humano estrangeiro ou um alienígena parasita).

        E os parasitas não precisam comer carne humana. Eles meramente preferem isso. E essa agressão final pode muito bem ser vista apenas como o resultado (real ou imaginado pelo povo do país “invadido”) de fracasso no entendimento. Os parasitas estão cada vez mais integrados à sociedade, e se eles pararem de matar, o que irá diferenciá-los de um ser humano, para todos os efeitos? Lógico que são diferentes, mas me refiro aqui a diferenças sociais – quais diferenças importantes terão os parasitas, quando comparados a pessoas normais, para a vida de outras pessoas? O começo desse episódio mostra um parasita saindo normalmente com uma colega de trabalho. Em momento algum ele demonstrou vontade de matá-la. Mas quando descoberto ele teve que se defender, porque a sociedade não o aceita. É por isso que mesmo o Migi, que nunca comeu nem nunca teve vontade de comer carne humana, é tão refratário à ideia do Shinichi revelar a verdade para qualquer pessoa não importa o quanto o garoto possa confiar nela.

        E acho que outros parasitas quando notam a presença do Shinichi o enxergam como uma inconveniência, muito mais do que um “grande perigo”. Se ele fosse um “grande perigo” aquele grupo responsável pelo massacre da yakuza já teria se livrado facilmente dele. Claro, o Shinichi está bastante forte, mas o que ele poderia fazer contra um grupo de parasitas? E um grupo que ao mesmo tempo em que se mistura à sociedade também treina ativamente suas habilidades assassinas?

      • Pode ser que haja imigrantes que tenham entrado ilegalmente ou estejam em situação ilegal após expirar a validade do passaporte e da carteira de identidade mas hoje em dia isso é quase impossível devido as novas leis de imigração e pelo fato do país não ter fronteiras secas, aliás a própria lei impede que os ilegais tenham acesso a uma série de benefícios como escolas, hospitais, abrir contas, etc…a não ser que legalizem sua situação, caso contrario acabam deportados.

        Sobre os parasitas, eu acho que você está confundindo integração com infiltração que a meu ver, é o que eles estão fazendo. Até o momento, não vi integração alguma com os humanos, no máximo está havendo uma interação dissimulada com os humanos para não serem descobertos. Diria que o exemplo do parasita que você citou quando saiu com uma colega de trabalho é a prova disso.

        O episódio 12 mostra Migi e Shinichi concluindo que a razão pela qual os parasitas se organizaram entrando na política, foi para garantir a fonte de alimento(humanos) e de forma segura.
        Aliás, se eles comem outras coisas, já deveriam ter mudado de dieta, seria um motivo a menos para serem odiados/temidos.

        O Migi, eu nem diria que comeu a mão mas sim, absorveu a mão direita do Shinichi e se nutre de substâncias geradas pelo proprio corpo do hospedeiro ao contrario dos demais parasitas que precisam matar para comer, ato que eles vêem como normal tanto quanto humanos matando galinhas, porcos e bois.

        Eu diria que Shinichi se tornou uma ameaça para eles após a notícia se espalhar entre o grupo de que ele foi o responsável pelas mortes de vários parasitas através da Ryōko Tamiya, mas isso é o que talvez seja mostrado no próximo episódio…

        Veja bem, estou comentando aquilo que assisti até momento, pode ser que a tal integração com humanos possa ter ocorrido no manga que eu não li, a Tamiya pode ter sido uma delas. Por conta do bebê, ela pode ter desenvolvido algum sentimento afetivo.

      • Fábio Mexicano Godoy

        Eu também não li o mangá =) Uma coisa que sei sobre ele, contudo, é que ele é de 1990. Eu não sei como é a imigração hoje no Japão, mas você precisa levar em consideração que o título já é datado (ainda que estejam tentando atualizar a história com, por exemplo, celulares, mesmo que precisem tornar a Kana uma personagem muito mais idiota para isso fazer sentido – o Shinichi precisa ficar correndo e procurando ela ao invés de simplesmente telefonar) e muito pode ter mudado, inclusive essa questão sobre a imigração. E imigração ou “infiltração” não importa, o que estou falando aqui é o medo do outro, do desconhecido. Onde eu vejo um parasita tentando conviver em paz (a paz possível) com humanos você vê apenas um ato dissimulado. Talvez sobre isso só possamos concordar em discordar.

        O motivo para os parasitas terem entrado na política não poderia ser mais eloquente para demonstrar o quanto estamos enxergando isso de forma diferente: sim, os parasitas entraram na política usando bandeiras humanas (de que outra forma conseguiriam isso?) mas pretendem defender interesses de sua própria comunidade. Mais ou menos como qualquer imigrante ou migrante precisa fazer em qualquer lugar do mundo. Hoje é possível alguém se candidatar a vereador em São Paulo dizendo que defenderá a comunidade nordestina e talvez até tenha chances de ganhar, mas será que seria tão fácil assim 20 anos atrás? Ou será que ele teria que dizer coisas como defender saúde e educação só para ter uma chance de se eleger? Ele fazer isso o torna um dissimulado? Talvez. Mas de que outra forma ele poderia defender sua comunidade, vítima de preconceito?

        E não há realmente nada que indique que parasitas não possam se nutrir senão com carne humana. A Ryouko até mesmo disse que ela provavelmente poderia sim viver com comida humana normal, ela apenas não queria. De todo modo, repito que o ato de comer literalmente é só mais uma metáfora. Troque “comer” por “roubar nossos empregos”, se preferir.

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