Dessa vez eu decidi fazer uma resenha de Classroom Crisis (CC). É um anime que eu sempre achei que merecesse uma análise. Logo, eu fiz uma pesquisa rápida e só encontrei sites/blogs com publicações de primeiras impressões, nada além disso. Sendo assim, sintam-se privilegiados, pois somente aqui no Anime21 vocês encontrarão uma resenha fechada desse anime. Ou melhor, pelo menos em português, sim. E, modéstia parte, eu caprichei. Então relaxem onde estiverem e aproveitem.

CC é aquele típico anime que a sinopse e o vídeo promocional não fazem jus ao que o anime de fato mostra ser. E, embora eu não seja do tipo que coloca textos externos nas minhas resenhas além do que eu mesmo escrevo, vamos lá, vamos dar uma olhada na sinopse rapidamente e analisá-la:

“A humanidade colonizou com sucesso todos os planetas do Sistema Solar, com a intenção de continuar em novas fronteiras. Indivíduos vivem vidas estáveis nessas colônias, incluindo jovens estudantes do ensino médio que vivem na 4ª Tóquio em Marte. Duas dessas estudantes são Shirasaki Iris e Sera Mizuki. Iris está terminando seu último ano do ensino médio enquanto estuda para ser uma piloto de teste, e sua amiga Mizuki trabalha como mecânica na aeronave. Seu próprio irmão, Kaito (irmão da Mizuki, no caso), supervisiona a Mizuki e a Iris como seu professor de sala de aula e diretor de programa (de engenharia). ” 

Fonte: Anime News Network. Tradução: Elaboração Própria.

Pela sinopse, muitos pensaram se tratar de uma série do gênero slice of life e talvez até de comédia, por ter estudantes do ensino médio e um professor para acompanhar a vida estudantil de tais alunos. Somando-se a isso, o vídeo promocional e os trailers reforçaram essa sensação de dia a dia escolar e também passaram mais uma outra sensação, a de que teria uma certa ação envolvendo aeronaves, embora o vídeo promocional tenha também mostrado muito de relance e superficialmente outras facetas da obra. Muito bem, esqueçam disso, ok? Eu vou lhes dizer as ideias básicas que resumem a essência do enredo.

Essa é uma resenha bem pessoal e longa, então eu tive motivos bem específicos para ter gostado do anime e há uma quantidade de informações muito grande nesse texto. TUDO ISSO SEM DAR SPOILER!!! Por isso já agradeço a você que eu tiver conseguido fisgar o suficiente para ler essa resenha.

CC é um anime com foco em desenvolvimento de personagens, principalmente o personagem chamado Nagisa Kiryuu, que é um jovem gênio que já acumulou diversas conquistas empresariais formidáveis em torno do sistema solar a serviço da Kirishina, um conglomerado empresarial com sede em Marte, que decidiu trazer o jovem de volta para o planeta vermelho com a finalidade de dá-lo a chefia da subdivisão de desenvolvimento de aeronaves chamada A-TEC. Essa A-TEC funciona como uma sala de aula para alunos geniais em diferentes áreas do conhecimento, isto é, somente alunos absurdamente fora da curva fazem parte dessa turma, um pouco similar aos alunos que passam no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) aqui no Brasil, a grosso modo, muito grosso modo.

Isso é só para vocês entenderem que CC requer suspensão de descrença, isto é, você precisa se desligar o suficiente da realidade como ela é para aceitar uma realidade fictícia (ou pelo menos até certo ponto fictícia) sem ficar se queixando demais de certas coisas, por exemplo: “Ah, esse cara é inteligente demais”, “Essa mulher tem cara de que é mais nova do que qualquer adolescente desse anime”, “Ah, essa turma é surreal, eles não fazem muito sentido pra mim, eles são chatos com esse papinho deles, falam demais”, etc. Você precisa compreender que CC busca trabalhar não totalmente na nossa realidade, ou mesmo nos moldes das nossas típicas relações humanas, mas sim em sua própria realidade com suas próprias condições de mundo e situações possíveis dentro dela.

Outra característica da essência do anime foi a utilização de aspectos do mundo administrativo, tanto público/político como, principalmente, privado/empresarial. Na época em que eu assisti, ou seja, quando lançou na temporada de Verão/Julho 2015, eu ainda estava cursando administração na universidade e pude sentir todo o feeling empresarial que a obra carregava do início ao fim, desde alguns conceitos básicos como eficiência e eficácia até panfletos pregados contendo informações a serem lembradas ou dizeres motivacionais escritos nas paredes e lousas; ou até mesmo o fato de cada aluno ou professor ser excepcional em alguma(s) área(s) como finanças, contabilidade, tecnologia da informação, mecânica, engenharia, gestão de produção, logística, estrutura organizacional, recursos humanos. Além da formulação de projetos, entrega de resultados a superiores, lobbys com políticos, formação de sindicato, exigência de direitos trabalhistas, etc. Sim, CC também possui uma faceta política, a qual eu diria que foi muito bem trabalhada no que tange a como essas negociações podem se destrinchar em reviravoltas que requerem novos planos de ação das várias partes envolvidas.

Atendo-me agora ao aspecto enredo, esse anime deve ter sido chato para provavelmente muitas pessoas, uma vez que os dois primeiros episódios se assemelhavam mais àqueles vídeos institucionais de empresas do que um anime em si, isto é, pode ter dado a sensação de que nós estávamos simplesmente sendo instruídos sobre as conquistas e os planos da empresa Kirishina e não exatamente vendo uma história rolando — ainda que houvesse uma história rolando ali, sim. E eu considero isso um defeito, porque isso deixou o anime auto-explicativo demais. Em nível conceitual ou de concepção, fazer dessa forma foi uma ideia até interessante, mas na prática eu achei um tiro no pé por parte da produção. Mas o diretor Kenji Nagasaki (No.6, My Hero Academia, Gundam Build Fighters) conseguiu introduzir e trabalhar suficientemente bem com a grande quantidade de personagens ao ter demonstrado a ligação de algumas ideias apresentadas no episódio 1 com o episódio 2, começando a formar, assim, algo minimamente interessante em torno do enredo. Até aí eu achei mediano, mas eu via um potencial enorme no anime. Veio então o episódio 3.

Continuou com uma história mediana e demandando a suspensão de descrença do espectador, mas a aparição de uma nova personagem deu um tom diferente ao enredo e até divertido à série. Veio então o 4, que foi um bom episódio, começando a estabelecer as linhas gerais de enredo que o anime deveria seguir e mostrando um desenvolvimento mais consistente com a expectativa de uma possível crescente disputa de interesses. O episódio 5 mostrou um pouco de mistério em relação ao passado de alguns personagens. E aí teve o 6, que foi o que se mostrou como o melhor episódio até então, com uma aprofundada muito boa no enredo geral, mas principalmente no protagonista da história, o Kiryuu Nagisa. A partir desse episódio, o anime entra em uma crescente de desenvolvimento e de ritmo maior do que já vinha imprimindo. Até que chegamos no último episódio, o 13, que não foi um final impecável, é verdade, ele teve um defeito um tanto chatinho, que foi…

A formação repentina de um triângulo amoroso.

Entretanto, pelo menos, isso ocupou uma parcela muito pequena do episódio e foi algo até dispensável. Agora, eu pessoalmente adorei o final do anime, pois foi muito simbólico pra mim, foi a entrega de um projeto. Isso foi algo maravilhoso. E eu vou explicar a maravilha disso, introduzindo vocês em um conceito clássico de administração que permeia todo o anime: O ciclo PDCA.

O ciclo PDCA é uma das diversas ferramentas administrativas de auxílio e de otimização na tomada de decisões, como a 5W2H, o Balanced Scorecard, a Matriz Trade-off, o Gráfico de Pareto, etc. Contudo, o ciclo PDCA é de longe a mais utilizada, pois é muito prática e fácil de usar. A letra P significa Planejar (do verbo inglês Plan); a letra D significa Fazer (do verbo Do); a letra C significa Checar (do verbo Check); e a letra A significa Agir (do verbo Act). Planejar é avaliar os recursos (humanos, materiais e de tempo) e definir metas e datas. Fazer é simplesmente o planejamento sendo desenvolvido na prática. Checar é fazer o acompanhamento do que está sendo feito, coletar dados, gerar informações com esses dados através de indicadores quantitativos, diagnosticar a situação e prognosticar. E Agir é agir corretivamente, isto é, criar planos de ação para resolver imprevistos que surgiram na colocação em prática do planejamento. Assim o ciclo se repete até que se consiga atingir as metas definidas. E, caso não tenham acontecido imprevistos, você pode então se focar em um novo projeto/empreitada. Isso tudo é possível observar acontecendo no anime do início ao fim, é só prestar atenção. Aliás, a própria staff do anime certamente deve ter utilizado essa ferramenta para fazer o anime de Classroom Crisis.

Mas, enfim, eu expliquei tudo isso para poder dizer que o processo de desenvolvimento de uma nova tecnologia pela A-TEC passou por essas diversas fases, até finalmente conseguirem atingir as suas metas, entregando e apresentando um produto final de um projeto não coincidentemente justamente no final da série. Foi por toda essa jornada que eu adorei o final de CC. E eu devo dizer que foi um final bem fechadinho, porém com certas aberturas que possibilitariam uma 2ª temporada, o que eu acho totalmente improvável, haja vista a pouca audiência que o anime teve pelo que eu pude observar. Muita gente subestimou o enredo por causa do que foi apresentado desde a sinopse até os dois primeiros episódios.

Partindo agora para os personagens, CC possui um monte deles. Isso dá um medo no início, porque é fácil esperar que desenvolver tantos assim tiraria o foco do que realmente importa na história e terminar tudo mal resolvido, entretanto, rapidamente, ainda no episódio 1, o diretor apresentou quase todos eles; de uma maneira um tanto clichê, isso é verdade, mas de forma eficiente e convincente com a concepção da obra. Cada um é uma espécie de gênio em alguma área do conhecimento. Existe um empreendedor nato, uma garota tesoureira (finanças), uma mecânica de aeronaves, um professor engenheiro de aeronaves, um expert em T.I. (tecnologia da informação) e em OSM (organizações, sistemas e métodos), um garoto de aparência andrógina que é especialista na parte de combustão/ignição das aeronaves, um designer de aeronaves, uma engenheira de materiais que auxilia a área de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), uma garota da contabilidade e recursos humanos, uma supervisora de propaganda e promoção pública, uma especialista em manutenção de motores, etc.

Cada personagem desde o começo teve suas funções e personalidades bem delineadas. Isso foi um ponto que resvalou no “clicherismo” inicialmente, mas foi bem colocado em prática, pois proporcionou um desenvolvimento mais consistente com um background mais denso. Em especial, o protagonista Nagisa Kiryuu teve um desenvolvimento exemplar, que já era um jovem empreendedor de respeito por tantas conquistas e por ser corajoso, mas conseguiu se tornar alguém com uma personalidade melhor e com ainda mais poder e capacidade de influência nas mãos.

O roteiro do anime não se destacou, mas foi outro aspecto bem aproveitado na obra. Do contrário, não teria sido possível criar um enredo envolvente e personagens com diálogos convincentes e coesos.

A animação de CC ficou legal, com uma paleta de cores bonita, embora às vezes parecia pouco vívida. Não foi uma animação pra lá de especial, mas os animadores do estúdio Lay-duce e dos estúdios terceirizados merecem aplausos, pois, apesar de o design de personagens ter sido bem parecido com muita coisa que já se tenha assistido, principalmente com Ore no Imouto, a gigantesca maioria das cenas foi bem desenhada, fluida e até bem finalizada.

O último aspecto técnico do qual vou falar é a trilha sonora. Eu fui inesperadamente cativado. A trilha sonora interna não teve nada de especial que eu queira destacar, mas foi competente. Em nenhum momento ela me deixou cansado. Deixou-me focado, isso sim. Agora, a abertura e o encerramento… Minha santa Super Pochaco do céu, eu gamei em ambas músicas. Nooossa, como eu gamei… A abertura tem uma baita de uma energia positiva envolvente e um trabalho de tempos e de harmonia muito bons. E o encerramento tem uma sonoridade meio anos 90 e meio atual, que particularmente me lembrou muito a pegada dos encerramentos de um anime que me marcou na infância, o Jibaku-kun, ou Bucky, como é mais conhecido aqui no Brasil. Se quiser conferir, clique em 1º encerramento e 2º encerramento de Bucky.

Finalizando, foi um anime que me surpreendeu muito no seu desenvolvimento e que muita gente acabou se precipitando e largando o anime por causa dos primeiros episódios. Infelizmente. O anime começou a melhorar e a melhorar e a melhorar e a melhorar cada vez mais a partir do episódio 4~5, tanto que pra mim se tornou o melhor da temporada e um dos melhores do ano de 2015.  Recomendo fortemente que assistam por tal desenvolvimento que o anime imprimiu.

E é isso. Espero ter sido útil e “entretível” de alguma forma.

Comentem, se desejarem.

Até uma próxima!

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