Bom dia!

Para quem está chegando agora, o Café com Anime é um bate-papo sobre alguns animes da temporada entre mim, pelo Anime21Vinícius Marino (Finisgeekis), Gato de Ulthar (Dissidência Pop) e Diego (É Só Um Desenho) . Cada blog irá hospedar as transcrições das conversas de um anime: ao Anime21 caberá publicar os artigos sobre Violet Evergarden; ao FinisgeekisCardcaptor Sakura Clear Card; ao É Só Um DesenhoKokkoku; e ao Dissidência PopMahou Tsukai no Yome e Junji Ito: Collection.

Sem mais atraso, leia a seguir a conversa que tivemos sobre o episódio 8 de Violet Evergarden.

Fábio "Mexicano":
Violet Evergarden finalmente vai ter um arco. A história que começou nesse oitavo episódio claramente não terminou ainda. Quero dizer, esse recorte e colagem de flashbacks e cenas do presente, com a Violet desesperada atrás do “Gilbert”. E o mais triste é que ela não o encontrou: aquele túmulo está vazio. Não acharam o corpo dele, afinal. Mas a gente já sabia disso. A gente também já sabe como vai terminar aquele flashback. Para quem queria finalmente ver cenas de guerra, ação, e a Violet sendo uma super-soldada em campo de batalha, a hora é agora.
Diego:
Acho que aqui é um bom momento pra trazer a tona uma crítica a esse anime: eu simplesmente não consigo engolir o passado da Violet, nem por um segundo. Sério, nada aqui faz o menor sentido que seja. Que soldado um dia acordou e disse “hey, e se a gente catasse uma órfã qualquer e fizesse dela uma máquina de matar?”, e pior ainda, quem diabos achou isso uma boa ideia?! Pior que ela nem parece ser algum tipo de projeto ultra secreto ou coisa que o valha, o anime realmente parece querer indicar que ela é uma garota normal muito bem treinada. Porque sim. E a única, ainda por cima. E pior, super treinada pra matar, mas não pra obedecer, justamente a característica mais esperada de um soldado!!! Tudo bem, tem vezes que um autor pensa na premissa primeiro e na lógica depois, mas o passado da Violet parece um caso de alguém que pensou na premissa e falou “que se dane a lógica”.
Gato de Ulthar:
Nem vi o episódio ainda, mas antes de tudo estou passando para discordar do Diego. Já é problemático exigir uma grande lógica de uma obra de ficção, mas só para informar, crianças são usadas como soldados desde sempre, e hoje em dia não é diferente, basta dar uma conferida em qualquer nação africana genérica assolada por uma guerra civil ou em algum reduto do Estado Islâmico, e sim, essas crianças podem ser muito bem treinadas, não tanto como a Violet, que é uma personagem de ficção, FICÇÃO. Além disso, esse tropo já foi utilizado muitas vezes na ficção com uma boa dose de sucesso.

“Que se dane a lógica” é uma frase que passa 500 km de distância de Violet Evergarden.

Diego:
Não é assim tão simples. O problema não é a pura existência de uma soldado criança, o problema é todo o contexto em torno dela. Para começo de conversa, o cenário de Violet Evergarden está bem longe de uma nação africana ou do oriente próximo. Não estamos falando de guerras civis entre guerrilheiros ou terroristas, mas sim de – supostamente – estados nacionais com exércitos regulares engajados em uma guerra “normal”. É uma situação bem diferente daquela onde normalmente vemos soldados crianças. Até faria sentido se o país da Violet estivesse nas últimas, já quase esgotado e tendo perdido muito pessoal, mas esse parece bem longe do caso.

E mesmo assim! Gato, note que você mesmo fala no plural o tempo todo. Até onde sabemos, Violet é única. Por quê? Porque o roteiro quis, só por isso. Não faz sentido nenhum treinar só uma pessoa ao nível que a Violet foi treinada, pelo menos não no contexto de uma guerra moderna, onde se prioriza a efetividade do conjunto à efetividade do indivíduo. Fosse todo um pequeno batalhão, uma unidade especial só de soldados como a Violet, ainda faria mais sentido, mas não, o anime quer que eu engula que treinaram só ela como arma porque sim. E que mesmo durante todo esse treinamento, ensinaram ela a dar saltos dignos das olimpíadas, mas não a obedecer ordens simples!

Fábio "Mexicano":
Você está partindo de um pressuposto errado, Diego: por tudo o que eu entendi, a Violet não foi transformada em super soldado depois de capturada. Lembra do flashback do barco, que deixou a gente até meio confuso? Então, ela já era um super soldado quando foi capturada. Ela foi treinada depois para, provavelmente, usar armas de fogo, trabalhar em grupo e, justamente, obedecer. Esse pedaço do passado dela, antes da captura, tão importante se você faz questão de entender como ela é tão forte, o anime nem deu pista ainda. Ela nem sabia falar, então não creio que tenha passado por um treinamento formal para isso.
Diego:
Eu pensei nessa possibilidade, mas me parece ainda mais absurdo que uma garotinha de uns 10 anos seja naturalmente uma máquina de matar. Eu assumi que ela ficou assim depois do treino porque ainda faria um pouco mais de sentido.
Fábio "Mexicano":
A gente aceita tanto absurdo maior em tanto anime… De todo modo, não sabemos se é “natural” ou se ela foi educada de alguma forma, pode imaginar o que achar melhor, a única certeza é que ela já chegou matadora no irmão do Gilbert
Gato de Ulthar:
Finalmente vi o episódio, e apreciei bastante, acho que foi uma quebra necessária do que vinha sendo apresentado até o momento, a fim de que a história pudesse prosseguir. E eu sempre gosto de meninas assassinas boas de briga 😛

Pois é, agente aceita tanto absurdo maior em tanto anime. Entendo o ponto do Diego, mas isso é o menor dos problemas, só para ter uma ideia, deem uma olhada no tropo “Child Soldiers” do site TV Tropes, a lista é imensa, só em animes há diversos exemplos.

Se bem que acho que a Violet também se encaixa em outro tropo, o “Little Miss Badass“, esse com certeza faz mais jus à Violet.[/cafecomanime]

Vinícius Marino:
Olha, eu não costumo concordar com o Diego, mas em termos de consistência, pura e simplesmente, não tenho como fazer diferente.

Crianças-soldado só são usadas por exércitos que tem enormes deficiências de manpower e precisam agregar volume em um curto espaço de tempo (como as milícias africanas). Alternativamente (nos animes, especificamente) jovens lutam porque são “especiais” de alguma forma que os adultos não são (o fator “Evangelion”).

Nenhum dos dois parece ser o caso de Violet. A protagonista é a única criança super-soldado de seu universo, e em momento algum o anime explica por que ela existe – ou porque, num cenário em que há zero mulheres nas forças armadas, alguém escolheria justamente uma loli para brincar de Steve Rogers.

“Ah, mas isso é topos”. Sim, e bolinação acidental também é topos. Mostrar a calcinha também é topos. Parar o combate para explicar sua técnica ao inimigo também é topos. Violet usa seus topoi arbitrariamente e, embora isso não estrague o anime, é uma derrapada.

Eu li que na light novel há muitas cenas de batalha (violentíssimas) envolvendo a Violet. Então talvez a razão esteja aí: há um fetiche em ver lolis arrancando as tripas de marmanjos com as mãos. Posto que isto não foi adaptado ao anime (e é uma ideia ruim de qualquer forma), acho que a objeção continua valendo

Fábio "Mexicano":
Ela parece mais uma criança-feral que depois de capturada foi treinada para ser soldado do que uma criança-soldado, caso ache esse arquétipo mais palatável… Em todo caso, estamos acostumados com o formato episódico de Violet Evergarden, mas esse arco em particular não é assim. Ainda não acabou. Pode haver mais flashback da Violet, até algo que a explique melhor. Eu não faço questão, mas pode ter.
Vinícius Marino:
Uma criança kriptoniana feral, você quer dizer. Que tem super-força, super-reflexos e super-lealdade-seletiva.
Fábio "Mexicano":
São os olhos do Gilbert…
Vinícius Marino:
Enfim, eu também não faço questão de ver mais disso. Essa é a parte mais fraca do anime e eu adoraria voltar ao seu ponto forte.
Fábio "Mexicano":
Ah sim, eu também achei esse o episódio mais fraco. Porque desnecessário. Não acrescentou de verdade nada que ainda não soubéssemos, e para alguém que já não está com toda boa vontade do mundo com o anime, como o Diego, deve ter sido de revirar os olhos. Se vai contar, que conte direito. Mas não é uma história tão interessante, não acrescentou nada relevante, e não contou direito. Eu preferia zero flashbacks, ou vá lá, se algum é necessário enquanto a Violet viaja metaforicamente ao passado, que fosse o mínimo. O curioso é que era isso que muita gente estava esperando e querendo desde o primeiro episódio.
Gato de Ulthar:
Esse episódio só foi interessante pelo visual, pelo fato de ver a Violet em modo berserk, fora isso, realmente não contribuiu em nada ao anime. Tenho um fraco por lolis sanguinárias, mas isso é algo pessoal 😛. O episódio foi algo realmente extravagante para o anime.
Diego:
Eu até gosto do conceito do personagem de aparência frágil que é na verdade um tremendo badass, então não é como se eu não entendesse o apelo que a Violet pode ter. Mas é de fato preciso uma enorme boa vontade pra aceitar aquela história – o que talvez fosse até mais fácil se Violet Evergarden fosse menos “pé no chão”. Pra um anime até que bastante sóbrio, o passado da Violet se destaca justamente pelo absurdo da situação. Não vi o episódio revirando os olhos, e nem o consideraria o mais fraco (esse título ainda vai praquela horrível história de mãe e filha do episódio… 4? Acho?). Mas foi de fato desnecessário.
Fábio "Mexicano":
O episódio da Iris foi muito bom, ok? 😛

Enfim, desnecessário, coisas que a gente já sabia … se esforcem aí, digam uma coisa sobre o passado da Violet que não sabiam ou não tinham certeza e que acham que o episódio esclareceu.

Diego:
Que ela não sabia falar até ser pega pelo Major? Acho que não tinham mencionado isso ainda.
Gato de Ulthar:
A Violet aprende as coisas muito facilmente. Ela é muito inteligente.
Diego:
Isso já não estava meio que estabelecido depois do curso que ela fez pra se tornar uma ghostwriter?
Gato de Ulthar:
Sim, mas este episódio ressaltou este fato, em mostrar o aprendizado da Violet.
Fábio "Mexicano":
De fato, reparei nessas duas coisas também, que no fundo são uma só, não é? Ela sabe bem poucas coisas (por motivos que ainda desconhecemos), não sabia sequer falar quando capturada, mas tem uma facilidade tremenda para aprender. Talvez o episódio da escola de ghostwriting seja mais palatável agora, Diego? 😃 De todo modo, ela sempre aprende tudo muito rápido.

Sobre a ação em si: acham que ela, alguma parte dela pelo menos, era necessária no anime? Não necessariamente nesse momento, mas talvez noutro? Acrescentou ou poderia ter acrescentado algo? E foi, em qualquer caso, bem produzida pelo menos?

Vinícius Marino:
Olha, eu tenho uma curiosidade mórbida de saber como a Violet perdeu os braços. Diga o que for desse episódio, seu foreshadowing há algumas semanas foi incrivelmente efetivo. A despeito das minhas restrições com esse flashback supérfluo, tenho que admitir que seu gancho final foi uma obra de mestre. Sim, é pornografia da violência, mas com uma produção primorosa como essa até gore se torna bonito.

Sobre ser necessário…. bom, não é, por razões que vocês mesmo já disseram. Ficaria melhor em outro momento? Se fosse no início, o choque com o andamento natural da série seria brutal. Se fosse no final, teríamos o problema Mahoutsukai no Yome de séries querendo se tornar outra coisa. É, acho que esse foi o lugar ideal mesmo. Já vimos o suficiente de Violet para comprar o conceito e avançamos o suficiente para relutarmos em dropar.

Diego:
Considerando que não aprendemos nada de novo, acho que era melhor deixar esse passado um mistério mesmo. Talvez dando mais alguns flashbacks curtos da relação entre a Violet e o Major, e isso poderia sim ter sido feito agora mesmo (é o momento ideal, até). Mas mostrar as lutas, invasões, e por ai vai, isso foi desnecessário, e o anime não realmente perderia nada se não tivesse isso.
Vinícius Marino:
Esse episódio é uma lição àqueles que acham que mais é sempre mais e que histórias só tem a ser melhoradas com universos expandidos e passados discriminados. Em boas histórias, o que não é contado é tão importante quanto o que é contado. Eu disse acima que fiquei curioso em ver como a Violet perdeu os braços, mas agora direi algo quase contraditório: se eles não tivessem mostrado nada da guerra, eu preferiria ficar 100% no escuro. Quão mais efetivo é ver uma garota com braços mecânicos e se perguntar que espécie de horrores ela enfrentou para ficar daquele jeito? O que me lembra de uma das melhores “histórias de seis palavras” que eu já li na vida: “Sorry soldier, shoes sold in pairs”
Diego:
Essas histórias de seis palavras são fenomenais, e de fato expressam muito bem como a omissão pode ser bem mais impactante. Sempre lembro daquela: for selling: baby shoes, never worn.
Fábio "Mexicano":
Lembram-se de especulações que fizemos sobre o Gilbert ter sido enviado para essa missão como se fosse alguma forma de punição? Era uma história tão melhor do que essa simples e direta do anime. Da forma como está, me vejo em dificuldade de entender porque o Hodgins se sente culpado, ou porque ele disse que viu acontecer e nada fez. O que ele poderia ter feito? Aquele general de gabinete mandou a Violet pro campo de batalha, e ela foi.
Gato de Ulthar:
Sei lá, esse ponto ficou realmente complicado, também não consegui perceber a implicação do Hodgins nisso tudo. Não é bem o que eu queria, mas provavelmente veremos mais disso no próximo episódio.
Vinícius Marino:
Bom, o Hodgins é oficial de artilharia né? Vai ver a explosão que matou o Gilbert e aleijou a Violet foi culpa dele. Pode ter aberto fogo antes dos dois conseguirem evacuar
Diego:
Ou talvez ele simplesmente se sinta culpado de não ter ido contra as ordens de cima e impedido a Violet de ir para o combate. Acho que o próximo episódio deve responder melhor essa questão – e se não responder, já temos algo pra criticar no próximo Café 😛 kkk

Fábio "Mexicano":
E eu vou criticar, pode apostar! Até semana que vem!

  1. Explicaria se ela tivesse fugido de algum tipo de laboratório de teste de um alquimista maluco? kkkkkkk
    Brincadeiras aparte, também achei muito flashback, tava querendo ver ela maluca lá chorando, principalmente agora que ela aparentemente desenvolveu sentimentos de pessoas “normais”, gostei muito da parte do Irmão do Gilbert se surpreendendo pelo fato dela ter expressado sentimentos.

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Fiquei surpreso que o Dietfried não tenha simplesmente sido frio com ela. Um dos poucos pontos positivos do anime. E realmente não quero especular sobre porque ela é assim, esse não é esse tipo de anime, e acho que você me entende, hehe.

      Obrigado pela visita e pelo comentário =)

  2. Só passando para ver esse gostoso debate…Mas gostaria de perguntar aos doutos resenhadores do Anime 21 não vai ter artigo da premiação do Crunchyroll?

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Nunca nem cogitamos isso. Quero dizer, as indicações não foram muito boas, né? Como resultado My Hero Academia ganhou quase tudo. Não é um mau anime, é bastante competente até, mas parece-lhe razoável que 2017 fique lembrado como o ano de My Hero Academia 2?

      Obrigado pela visita e pelo comentário =)

Discussão