A magia desse anime definitivamente não se perdeu, aliás, ela se torna ainda mais exuberante. Ao sacar mão de seu principal “vilão”, Mahou Tsukai começa a fazer seus preparativos para o fim e pouco a pouco vai apresentando novos personagens sem esquecer de aprofundar os antigos. Nesse anime tudo está conectado e todos os esforços de todos os lados contribuem para o final esperado.

Eu simplesmente adoro os momentos cômicos desse anime.

O episódio 19 começa apresentando novos personagens que fazem parte de uma Universidade, conhecidos do Renfred, o qual, através desse momento mais descontraído e do que vimos dele pelo passado da Alice, já se mostra bem mais simpático e interessante. A pupila dele tem um papel importante na história como amiga da Chise, sendo assim, é necessário que esse personagem tenha um aprofundamento e a sua construção se conecte a de outro, no caso o Elias. Pela conversa dos dois já foi possível entender um pouco mais o personagem, ver que ele tem suas semelhanças e diferenças para com o Elias e que essas semelhanças são algo tanto bom quanto ruim para ambos.

Um ótimo trecho em que dois personagens são “despidos” frente ao público.

O sonho – ou visão, se assim preferir considerar – da Chise com o Cartaphilus foi muito interessante, pois ficou clara a sua dualidade, a sua existência e personalidade compartilhadas entre Cartaphilus e Joseph. O primeiro aparenta ser o monstro que inflige a maldição, o segundo o humano assombrado.

Por que e como se deu essa situação em que esse ser não consegue morrer? Podem se preparar que ainda devemos ver muitos flashbacks falando sobre o passado desse vilão que faz sim coisas más, contudo, não apenas pelo prazer da maldade, pelo contrário, pois suas ações sempre são objetivas.

O quão desesperador deve ser não poder morrer e “se dividir” com uma criatura tão soturna?

Acredito que o sequestro e a venda do dragão sejam apenas mais um de seus experimentos afim de testar formas potencialmente eficazes de causar a morte a si mesmo, pois até agora esse me pareceu o seu objetivo principal. Não lembro se isso já foi dito no anime e posso estar enganado, mas caso se confirme só prova o quanto estava certo em apontar que nada é gratuito em Mahou Tsukai, tudo tem um porquê, um como, um quando bem definidos e extremamente bem executados ao longo da obra.

O trecho do leilão também foi muito bom, não só por ter se revelado como aquela curta introdução desse cour, mas também porque desenvolveu um pouco mais o Elias, que demonstrou uma rispidez interessante ao mudar de face – o que, ao meu ver, comprova que o rosto que ele escolhe assumir quando se disfarça diz muito do seu estado de espírito no momento –, e o Renfred, como comentei mais acima. Não poderia esquecer do detalhe relacionado ao dinheiro dado a Chise pela sua venda, o que fez sentido não ter sido citado até agora – o Elias os teletransportou sem demora, então não deu tempo dela ter recebido nada – e deu suporte a Chise na disputa pelo dragão a ser salvo. Em uma boa história o que seria um plot hole pode ser facilmente explicado através de raciocínio lógico.

Um belo uso do preto e de personagens e detalhes de outrora.

O episódio 20 começa bem ao reforçar a personalidade egoísta da Chise, mais egoísta em prol de ajudar os outros – ela faz isso constantemente e naturalmente ao longo da história –, o que somado a sua capacidade como Sleigh Beggy a permitiu sentir a agonia e dor do dragão a sua frente. A única coisa da qual não gostei tanto foi do aparecimento da Bruxa, mas se pensarmos que o nome da Chise circula há meses nas “rodas de fofocas” do mundo mágico não seria estranho uma bruxa se aproximar da garota afim de usar o poder dela a seu favor – o que podemos ver melhor no episódio seguinte.

Tem como não amar uma personagem dessas? Não acho que tem!

Após a “resolução” do caso do dragão o que resta é uma Chise debilitada por ter tomado o pior tipo de efeito colateral possível, uma maldição de dragão, algo que sugará ainda mais rápido a sua vida já posta em risco por seu excessivo e perigoso envolvimento com magia. Uma marca física e bisonha foi algo que eu não esperava, mas fez mais sentido do que se ela apenas esmorecesse até a morte. Fim este que ela não quer ter, não assim, não agora, pois a menina que conhecemos sem apreço pela vida agora quer de todas as formas continuar vivendo, continuar ao lado daqueles que a fazem feliz.

Esse braço demonstra que Mahou Tsukai não se prende aos padrões de estética do mercado.

Esse momento não poderia deixar de comportar um excelente e significativo diálogo, no qual somos presenteados com a explanação de mais um aspecto interessante da personalidade da protagonista, que nesse caso, diz respeito a Chise não se achar digna do lugar que ela encontrou agora no mundo, o que remete ao seu sentimento de que ela sequer merecia viver e se agrava por ela estar vendo o que ela veio a prezar correr o risco de escapar pelas suas mãos, de a abandonar quando ela estaria sendo forçada a abandonar o lugar no qual ela quer tanto fazer por merecer estar. Suas atitudes são conflitantes com o seu desejo, pois o põe em extremo risco, mas o que é um ser humano senão uma criatura contraditória que faz o que não deveria, mas não se arrepende? Como ela mesma diz, ela fez o que podia – não o que deveria, pois não tinha nenhuma obrigação naquela situação –, ela fez o que queria, e ela sempre escolhe ajudar ao próximo não importando qual o risco. Não se trata de uma bondade hipócrita, ela realmente é uma boa pessoa que não deixa de fazer o que acha que é certo, tanto que ela nem percebe que são essas suas atitudes impensadas que a fazem “merecer” estar ali.

Uma pessoa boa quase sempre não tem a mínima noção do seu valor para os outros.

A reaparição da bruxa assim como a ida da Stella na casa da Chise são coisas que foram construindo pouco a pouco o cenário a ser explorado no episódio seguinte. Nesse uma possibilidade de ajuda a Chise foi levantada e antes de comentar o que de interessante surgiu disso, gostaria de falar sobre as bruxas – que na obra são especializadas em lidar com maldições –, pois além desse grupo agregar a construção de mundo, também se liga mais facilmente a Chise por ser formado por mulheres e por elas trabalharem com o que ela, segundo suas próprias palavras, tem de sobra: maldições. Sendo que o Joseph também possui uma maldição, e exatamente uma com efeito oposto ao da Chise, o que dá ainda mais justificativa ao seu interesse pela garota e deve construir uma relação entre eles em cima desse contraste, o que é muito bem-vindo, pois esses personagens são dois polos da obra, mas não me parecem tão opostos assim, divergentes quanto aos métodos e os fins, mas com um potencial de afinidade e empatia – ao menos por parte dela – capazes de proporcionar um ótimo final ao anime.

Por mais vilões que tenham um bom motivo para fazer o que fazem e se conectam à heroína.

O episódio 21 explora outra qualidade de uma boa história, o foco dado a um personagem enquanto outro também é bem trabalhado, o que fica claro através do ponto de vista do Elias no que se refere a importância que a Chise tem para ele e o que ele é capaz de fazer para não perdê-la, isso feito sem esquecer de dar voz e vez a própria. Alguém que sempre se envolveu com os humanos, mas nunca se envolveu tanto com um em específico, agora se vê obstinado a não perder essa criança que se tornou tão preciosa para ele; e o que ele faz para isso? Algo desumano que o afasta da sua persona polida e humanizada e o aproxima do que ele em maior parte é, uma criatura extremamente amoral.

Para o Elias a Chise agora é o seu mundo.

Antes de falar mais disso, acho válido comentar a reunião das bruxas que em um primeiro momento me pareceu apenas um insucesso sem função posterior na história – ainda que um bom momento, apesar de que seria mais interessante se mais bruxas tivessem “voz” nele –, mas assim como as reaparições do Nevin – que em um belíssimo momento se revelou ser o que do Nevin estava dentro da Chise, o que agora era ela e a fazia se mover em frente –, desempenhou um papel importante, o de acender a chama que queimaria o Elias em desespero, o fazendo optar pelo caminho no qual os meios – matar uma estranha da qual ele sentia inveja – justificariam os fins – salvar a garota cuja vida ele preza mais que tudo. Ele escolheu um caminho reprovável a seguir, mas como já disse, isso não destoa do ser que ele é e vendo que ele ainda não tem condições suficientes de por si só distinguir o que seria “certo” ou “errado” nesse tipo de situação, não creio que possa julgá-lo por ter agido assim. Lembram do caso dos gatos mortos? Então, aquilo foi feito por um humano para salvar outro humano, e você pode dizer que era um animal irracional, mas duvidam que o homem seria capaz de matar alguém para manter a vida de sua amada? Por vezes os humanos não agem muito diferentes de como o Elias agiu agora e ele tentar se livrar da Stella sem se dar conta do quanto isso machucaria a Chise faz parte da sua falta de compreensão do que são esses “sentimentos humanos” da garota.

E essa liberdade muitas vezes afasta duas pessoas que gostariam de estar juntas…

Após conseguir reagir na situação de desespero certa fala da Chise chamou muito a minha atenção, porque ela expressa bem que até mesmo a magia tem seus limites, que não é porque é magia que as coisas podem ser resolvidas em um “passe de mágica”. Apesar de essa inevitavelmente ser uma obra de fantasia, essa representação realista de que a magia não é milagre por milagre, de que a magia dá algo a quem a usa, mas sempre cobra um preço, é extremamente adequada com a forma como Mahou Tsukai aborda e se vale dessa magia desde seu princípio. Não há na obra a tentativa de se valer de um deux ex machina porque seria conveniente para manter a protagonista viva, mas sim a exploração de um caminho tortuoso pelo qual ela terá que passar se quiser continuar vivendo, algo ainda “mágico”, contudo, somente possível de se obter após se perder algo – como é na vida real.

Quando uma história de fantasia consegue ser mais realista que a maioria do que se vê por aí.

Se lembrarem do final do episódio anterior a Stella estava fora da casa ouvindo a conversa do Elias com a Chise, o que foi bem justificável devido ao fato de que ela estava refém do Cartaphilus, e me deixou feliz por não ter tido um sorrisinho malicioso no final, pois isso entregaria que não era somente a garota ali sendo raptada e posta de frente com a morte, e tiraria um pouco do peso dramático da ação brutal do Elias. Quando a Chise parte em rompante atrás da amiga é exatamente esse choque dela que a faz cair tão fácil na armadilha da ardilosa criatura, e ao se ver mais uma vez em uma situação para a qual ela jamais viraria as costas a garota deixa o convívio com a sua família desestabilizada e parte em uma missão às cegas para salvar a vida da amiga e quem sabe a própria.

Seria essa uma “traição” da Chise para com o Elias? De forma alguma, pois mesmo que a situação fosse diferente ela faria o mesmo, mas é verdade que continuar no mesmo ambiente com o Elias seria, ao menos por um tempo, bastante complicado e entendendo isso a história parte para um novo cenário que pode ser ainda mais interessante, principalmente se for dado um jeito de a Chise não se tornar apenas uma donzela a ser resgatada mesmo diante de seu estado bastante delicado, conseguindo se levantar ante a situação mais desesperadora para tentar resolvê-la dando tudo de si e se preciso até arriscando a própria vida como sempre fez. Minha expectativa para o final desse anime está nas alturas e a partir do próximo artigo devo falar exclusivamente do episódio seguinte. Espero que vocês também estejam apreciando o anime e acompanhem a reta final dessa jornada!

Uma separação tão necessária quanto impactante. Voltará Chise para o seu lar?

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