Island é uma adaptação de visual novel produzida pelo popular estúdio feel, e que inclusive teve seu lançamento internacional adiado para coincidir com o final da série animada. Então, tudo não passou de uma propaganda para vender o jogo? Ao que parece esse foi o principal objetivo. Deu certo? Pelo menos para mim: não. Se o anime fosse uma ilha teria sido encoberta pelo aumento do nível do mar. E por que eu acho isso? Comentarei nessa resenha sobre esse anime de drama e “viagem no tempo”.

Antes de mais nada, preciso deixar clara uma opinião que tenho sobre a obra: Island não é um sci-fi, talvez no jogo pode passar a impressão que é, mas o anime apenas usa a ciência de maneira leviana.

Fazer suposições, criar teorias, apresentar meios, mas não os explicar em qualquer nível de detalhe não significa que o que é mostrado em tela tenha uma lógica plausível a ser seguida. Se não há base para a ciência ela é, na verdade, apenas fantasia disfarçada. Island é sim um drama – ainda que sua abordagem seja questionável –, mas não um sci-fi e isso acaba interferindo também em seu drama.

Nem preciso comentar que o interesse pelos mistérios se findou no meio do caminho, né?!

Por quê? Porque temos Setsuna, um personagem de origem desconhecida, mas que se auto-intitula um viajante no tempo que apareceu na misteriosa ilha de Urashima para matar e salvar uma pessoa.

O que não é só ignorância de sua parte, mas também uma armadilha para induzir o público a pensar que ele realmente viajou no tempo, mas isso é desmentido de forma conveniente no final, final esse que “fecha as pontas soltas” deixadas ao longo da trama, mas eu me questiono, a que preço foi isso?

Parando para pensar logicamente, se toda a civilização é resetada quando chega ela a um ponto de desenvolvimento tecnológico sem precedentes, como a mãe natureza – ou uma entidade espiritual – deixam uma câmara criogênica passar “impune”? E o pior nem é isso, mas se tudo morre, porque se repete quase que de forma exata? Porque a terra se encontra em um loop eterno? Na verdade, isso nem é o pior, o pior é o protagonista desse anime salvar alguém que já morreu sem viajar no tempo.

Pelo menos as heroínas do anime são fofas… Contra fatos não há argumentos!

No fim das contas, a Rinne que acompanhamos ao longo de oito episódios morreu e ela jamais vai voltar, pois não existe máquina do tempo de fato, e a garota que o Setsuna salva nos dois últimos episódios não é ela, é no máximo uma reencarnação? Eu não disse que estava mais para fantasia?

Okay, é a mesma voz, a mesma personalidade, exatamente no mesmo cenário de antes, então não há porque se incomodar com isso, né? De certa forma, não, mas e para o protagonista? Seus lapsos de memórias são muito convenientes nesse sentido porque ficou claro que ele já havia passado por aquilo antes pelo menos uma vez, então tanto a mulher que ele ama, quanto a filha dela – e dele – não são as mesmas que ele conheceu em um mundo que foi resetado anteriormente. Mas vamos lá, não é só isso que bota o anime a perder, também havia uma trama de incesto como pano de fundo!

Só o que eu vejo nessa cena é um pai preocupado com sua filha e nada mais.

Tudo bem que ela não se concretizou, mas olhando em retrospecto para três quartos do anime, se é possível não se sentir enojado por ter torcido por um casal de pai e filha me contem, pois eu não sei como. Era mesmo necessário dar toda essa volta para se chegar a um final feliz? Até elogio a ousadia em se vender como um anime com viagem no tempo e ser algo diferente – ainda que semelhante –, mas será que não era possível ter tentado dar um final “autêntico” para história menos pelo choque e mais pela consistência entre forma e estrutura? Porque a execução de Island é uma bela bagunça.

Parece mais que o complexo dela é de fofura em excesso…

No início da trama o telespectador é apresentado a três heroínas que, como em qualquer adaptação de visual novel, terão suas respectivas rotas e todas elas contribuirão direta ou indiretamente para o true ending (final verdadeiro) do que está sendo mostrado em tela. Ou era isso o que devia ocorrer, pois a rota da Karen até que tem importância para dar foreshawdoing a tudo relacionado a pesquisa das OOPArts e uma explicação racional para a misteriosa lenda que “amaldiçoa’” Urashima, mas a da Sarah acaba não tendo praticamente nenhuma ligação ao “quadro geral da coisa”. Ela é necessária a personagem para desenvolvê-la e justificar a sua personalidade, mas falha em ser útil para o “todo”.

Na rota dela descobrimos seu passado, quem ela é, porque é o cérebro da turma, o que deseja, como e por quê. E o que acontece na rota da Sarah em si não foi exatamente ruim, foi algo necessário para construir o laço de confiança naquele grupo de personagens, mas a verdade é que serviu mais para fazer o protagonista saber como fazer melhor na chance seguinte. Never Island é o meio do caminho entre os oito primeiros episódios em que ele “rala muito” para salvar duas delas, e ainda assim perde uma, e um episódio no qual ele resolve tudo e salva as três heroínas – ainda que não sejam bem elas.

Sarah é daquelas lolis com PhD em ser chave de cadeia.

Na verdade, o anime dentro do anime só existe para ele conhecer a “verdadeira” Rinne, se apaixonar por ela, fazer existir a “falsa” Rinne que ele vai salvar, e assim ter mais uma chance de realizar o seu objetivo – mesmo com pessoas que podem ser “iguais”, mas na verdade não são as mesmas. E não é nem rum que Never Island exista, pois, esses episódios existem para justificar os flashes do início do anime e ir “amarrando” ele. Além de que Never Island é melhor que Island – ou menos problemático.

Never Island >>> Island

Nisso entra a rota da Karen, necessária também para dar certo desenvolvimento a personagem, fazer ela se encontrar na trama e torná-la mais aprazível. Ao menos aqui existe uma relação indireta entre ela alcançar o objetivo de reencontrar sua mãe com a descoberta de uma explicação para o mistério principal da trama. Restando apenas a rota da heroína principal que perdeu os holofotes para a mãe?

De certa forma sim. Por um lado, foi bom o protagonista não terminar a história formando casalzinho com a protagonista; por outro, isso realmente fez diferença? Sejam elas mão ou filha, Kuon ou Rinne, as duas têm o mesmo rosto, voz e uma personalidade que não parece divergir muito – usar o mesmo design não ajuda nenhum pouco também –, então realmente faria alguma diferença? Talvez faça no final com a Rinne mãe adulta, já que é aí que elas diferem um pouco mais e que eles se reencontram.

A rota da Rinne em si não foi ruim, mas ficou tão na cara que todo o drama dela com o outro Setsuna foi apenas para matar a garota e forçar a “viagem no tempo” que me pergunto se o drama da rota foi bom mesmo ou só mais apelativo. Acho que ficou no meio termo, mas até aí tudo bem, pois se Island não era excelente em algum sentido, ao menos ainda era razoável. Até deixavam um pouco de lado o fanservice e as brincadeiras questionáveis envolvendo lolis quando a intenção era mesmo falar sério.

O que estragou mesmo Island foi o seu final, o total checkpoint que foi o episódio 11 e a revelação da verdadeira heroína da história ser a Rinne, mas outra Rinne, e que ela queria sair do caminho da filha para que o amor que ela desenvolveu pelo próprio pai acontecesse. Complexo de Electra que chama?

A ideia de incesto já não era nada agradável, mas a mãe precisava mesmo ficar calada vendo aquilo tudo? Será que ela não poderia ter pensando em outra forma de salvar a filha que não abrindo mão do amor da vida dela? Nunca existiu viagem no tempo de verdade, então nunca existiu um ponto de convergência que forçasse coisas a acontecerem. Sendo assim, por que fazer a Rinne mãe agir assim?

Não faz sentido! Deve ter deixado um gosto amargo na boca de grande parte do público – eu incluso.

Não vou crucificar quem pensou nisso, mas um quase incesto era mesmo a melhor escolha?

E tudo isso interferiu no drama porque faz parecer um drama muito artificial, muito forçado para que o choque do plot twist final chocasse mais que qualquer outra coisa, sem se importar em não apenas fazer as coisas terem explicação, mas dar consistência a forma como essas explicações seriam dadas.

Comentando brevemente a parte técnica, Island foi bem animado e teve uma boa trilha sonora cheia de insert songs que às vezes se adequavam a cena, mas às vezes pareciam desnecessárias. Ao menos não foi um anime feio de se assistir, mas ele também não apresentou nada realmente digno de nota.

O sci-fi de Island prejudica o seu drama e o drama não compensa a fantasia em pele de sci-fi que é a obra. Um anime de viagem no tempo sem viagem no tempo alguma que poderia ter sido bem mais interessante se tivesse sido mais simples, ou tivesse sustentado a complexidade que quis empregar.

Uma complexidade fajuta. Um anime esquecível e desagradável em seus ultimos momentos, pondo a perder quase tudo o que tentou construiu até ali – ainda que a história de amor concretizada tenha sido bonitinha. Um final clichê com direito a casamento e lua de mel para um anime que falhou logo quando tentou fugir do clichê. Parece piada, mas se for de mal gosto é como as de Island. E já que ele está em casa, lavo as minhas mãos na areia da praia e me despeço desse anime meia boca. Até mais!

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