Bom dia!

Esse artigo me deu um bocado de trabalho, por uma série de razões. Mas principalmente duas: o anime é bom então eu me sinto compelido a pesquisar sobre o que ele retrata para entender melhor, e são dois episódios disjuntos.

Espero que goste do começo da minha cobertura de Dororo no Anime21!

Uma das coisas que pesquisei foi em que tempo e lugar se passa a história do anime. Eu sei, é fantasia, mas como escrevi nas primeiras impressões, a retratação fantástica, demoníaca, do conturbado Período Sengoku da história japonesa não é uma escolha aleatória. Certamente no Japão real não existiram demônios e os personagens de Dororo são fictícios, mas há detalhes reais o suficiente citados. Ficou enorme e não precisa ler se não quiser – é só pular a seção abaixo.

 

Onde e quando se passa a história de Dororo?

Dois dados, um em cada episódio, me permitiram especular sobre onde e em que época exatamente se passa a história de Dororo: a menção ao clã Sakai no episódio 2 e ao clã Shiba no episódio 3.

O clã Sakai era vassalo do clã Tokugawa, estabelecido na então província de Mikawa. Já o clã Shiba era suserano do clã Oda, e entre outras províncias, estava estabelecido na província de Owari. Mikawa e Owari hoje compõem a moderna província de Aichi, com capital em Nagoya. Isso permite especular com alguma segurança que Dororo se passe na região da moderna Aichi ou em seus arredores – mais provavelmente em sua porção ocidental.

Relativamente poderoso durante o Xogunato Kamakura, o clã Shiba participou da Guerra de Onin (1467 a 1477), que marca o início do Período Sengoku. As guerras, bem como disputas internas, levaram ao enfraquecimento do clã, até que teve seu poder finalmente usurpado pelo clã Oda em 1554. Jukai, o médico que adota Hyakkimaru, participou das guerras do clã Shiba.

Sempre fiel ao clã Tokugawa (Matsudaira), o clã Sakai foi um importante aliado daqueles que viriam a ser os futuros xoguns. Ao final do episódio 2 é mencionado que os Sakai estão reforçando a fronteira de onde quer que seja o território de Daigo Kagemitsu, o pai de Hyakkimaru. Como vassalos do clã Tokugawa, assumo que sua movimentação tenha ocorrido no esteio das relações conturbadas que o clã (então Matsudaira, só passaria a se chamar Tokugawa com Ieyasu, em 1567) tinha com os clãs vizinhos (Oda ao oeste e Imagawa a leste) antes da aliança definitiva com os Oda, em 1560, após a Bataha de Okehazama, na qual Oda Nobunaga derrotou Imagawa Yoshitomo.

Então é isso: oeste de Aichi (então Owari), entre a tomada de poder na província pelo clã Oda em 1554 e a aliança com os Tokugawa-então-Matsudaira em 1560. Se, exceto pelos personagens fictícios e pelos elementos sobrenaturais todo o resto de Dororo for igual ao Japão real, deve ser nessa região e nessa época que se passa a história do anime.

 

Retornando

 

Hyakkimaru mata Bandai

 

O episódio 2 retratou algo que deve ser mais ou menos corriqueiro no anime: a caça a um demônio e a distinta falta de uma recompensa à altura, para desespero, por enquanto, de Dororo. Quando conseguir escutar e falar talvez Hyakkimaru proteste também.

Dororo ainda não sabe nada sobre Hyakkimaru além de sua habilidade para derrotar demônios e que de alguma forma ele consegue “sentir” o mundo e as criaturas ao seu redor. Graças ao encontro fortuito com Biwamaru, o monge cego, Dororo aprende um pouco mais sobre as habilidades sobrenaturais do protagonista.

E todos aprendemos algo pior: era Bandai, o demônio, quem devorava pessoas, mas eram as pessoas do vilarejo em primeiro lugar que alimentavam o demônio com viajantes. A situação deles era complexa: a vila encravada nas montanhas era muito pobre e pequena, e quando Bandai chegou o prospecto era o pior possível: o demônio poderia simplesmente devorar todo mundo.

Ao invés, acabaram firmando um “acordo”, visando seu próprio bem, em detrimento das almas azaradas que porventura passassem por ali. Os aldeões ofertavam seres humanos para Bandai e em troca ficavam com as riquezas dos viajantes.

 

O aldeão não quer escutar o som que reaviva nele seu remorso

 

Eles podem não parecer muito melhores do que um bando de ladrões das montanhas fazendo isso, mas a coisa sobre essa época é que onde quer que se olhasse não havia pessoas muito melhores do que ladrões. Alguns porque eram gananciosos e cruéis mesmo, outros porque precisavam sobreviver aos primeiros e ao mundo terrível que eles lhes legavam.

Os protagonistas não são muito diferentes. Quero dizer, Hyakkimaru é bem diferente de tudo, mas Dororo era um ladrão trambiqueiro, e quem poderia condená-lo? De que outra maneira uma criança órfã poderia sobreviver naquela época?

Que fique claro que a atitude dos aldeões, que não apenas protegeram um demônio como o alimentaram com as almas de outros seres humanos, é condenável e detestável. Eu fiquei pessoalmente com raiva deles. Ao mesmo tempo, é difícil imaginar o que poderiam ter feito de muito diferente disso.

 

Já se praticava crucificações no Japão

 

Frequentemente histórias de guerra são as histórias das batalhas, ou de seus líderes, generais ou heróis. Mangás e animes sobre o Período Sengoku costumam ser protagonizados por seus grandes generais, como Oda Nobunaga, Hideyoshi Toyotomi, Akechi Mitsuhide ou Tokugawa Ieyasu, entre tantos outros. No mais das vezes, retratando-os como heróis ou grandes estrategistas.

Dororo não é uma dessas histórias. O nome do anime é o de um órfão, uma vítima da guerra. Exceto pelo pai de Hyakkimaru, ostensivamente retratado como vilão desde o começo, e que provavelmente é apenas um senhor da guerra local, pequeno, sequer ouvimos falar sobre os demais generais. As guerras existem, estão vitimando soldados e civis indiscriminadamente, não há um lado bom e um lado mau, e nem sabemos em nome de quem estão sendo travadas as batalhas.

Só o que vemos é o sofrimento – inclusive o sofrimento dos “vencedores”. Jukai estava do lado vencedor e não parecia nada satisfeito. A guerra deixa marcas em todos, e as marcas nele já estavam tão profundas que sua alma sangrava. Ele decidiu acabar com a própria vida. A sequência inicial do episódio 3 foi uma poderosa e necessária mensagem anti-guerra.

De todo modo, ele sobreviveu. Não só sobreviveu, como foi levado para alguma nação estrangeira, onde aprendeu a produzir próteses. De volta ao Japão, Jukai passou a produzir próteses para todos que necessitassem. Ele não fazia isso para expiar os seus crimes, mas sim porque acreditava que tendo desistido uma vez da vida mas sido poupado, ele deveria dedicar essa nova vida a atender os desígnios dessa divina providência.

 

Jukai instalando a prótese de seu futuro discípulo

 

Seu aprendiz, porém, que até então tanto o admirava, por ter salvo sua vida, dado-lhe uma perna nova e o criado quando ficou órfão, descobriu sua ligação com o clã Shiba. E eis que o clã Shiba foi o responsável por todas as suas mazelas em primeiro lugar. Ele não perdoou Jukai, e só o permitiu viver após saber que o médico não acreditava que estava se redimindo de seus pecados.

Se não era redenção, bem poderia ser punição. Não faz diferença. Jukai iria continuar produzindo próteses enquanto estivesse vivo. Mas eis que quase morreu uma segunda vez … ou na verdade não.

Jukai escorregou de um barranco e desmaiou. Poderia ter batido a cabeça, poderia ter caído no rio e morrido, mas o anime dá um sinal ostensivo de que sua queda em primeiro lugar foi, mais uma vez, uma intervenção divina: ele escorrega exatamente em frente a um jizô, uma estátua que representa uma entidade budista protetora de crianças.

 

O jizô no local onde Jukai escorregou do barranco para a margem do rio

 

Quando ele acorda, o barco carregando o bebê que ele mais tarde chamaria de Hyakkimaru o estava aguardando. Com o que aprendeu após desistir de sua vida uma vez, Jukai criaria essa criança. Lembre-se que no primeiro episódio, durante o nascimento, uma estátua de Buda é atingida por um raio e perde a cabeça. Os homens se aliaram a demônios e o mundo está corrompido, mas há entidades iluminadas que ainda tentam agir através de Hyakkimaru e Jukai.

Após o fim do flashback do episódio 3, finalmente Hyakkimaru põe em uso seus nervos recuperados após derrotar Bandai no episódio 2: ele faz questão de meter seu pé de verdade (que vemos ele recuperar no flashback) na fogueira, apenas para sentir a dor de queimá-lo.

Dororo o alerta para que não faça isso, mas Hyakkimaru não se importa: ele não quer se sentir saudável, ele quer se sentir humano, e depois de uma vida inteira sem sentir nada não é um foguinho no pé que vai assustá-lo. Ou talvez o assuste! Tudo bem, o medo também é humano.

 

Hyakkimaru enfia o pé no fogo para sentir o calor e a dor

 

 

Dororo e Hyakkimaru

Esse não é o primeiro anime de Dororo. O mangá, publicado em 4 volumes entre 1967 e 1968 teve uma adaptação para anime com 26 episódios em 1969. Esse anime se chama “Dororo to Hyakkimaru”, que significa Dororo e Hyakkimaru. Estou assistindo-o em paralelo a essa nova adaptação, que terá 24 episódios.

Há diferenças. Se elas fossem pequenas, ou pontuais, ainda que grandes, eu pretendia ir comentando nesses artigos mesmo, mas são muitas diferenças já acumuladas em apenas 3 episódios. Diferenças de história e diferenças de tom. Quando Dororo acabar escreverei uma resenha de cada, e um artigo comparando os dois.

 

Daigo Kagemitsu fazendo o pacto com os demônios no anime de 1969

 

  1. Avatar

    Pelo que me lembro Dororo passou aqui no Brasil em 1974…Na saudosa TV Globinho…Mas é lógico que naquela época eram crianças que consumiam (na verdade eu só me interessava pelas cenas de luta, plot para um moleque de 6 anos?). Mas como, houve um o relançamento aproveitei para revisitar o original de Gisaburo Sugii (está com 78 anos é bem serelepe) e recomendo olhar a cinematografia do conjunto…Vão se impressionar com o clima Bergmanniano da obra…

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