Quem diria que Jimi é irmão de Janis e os dois são netos de Robert? Se existisse uma santíssima Trinidade raiz do rock, assim como do blues, tenha certeza de que seria essa, e se Listeners não faz jus a genialidade daqueles que homenageia, pelo menos dessa vez também não fez feio. Eu já nasci com minha alma vendida, pois o rock n’ roll sempre esteve em mim!

Adorei a homenagem a Janis Joplin e ao vovô Robert Johnson, não fiz a conexão entre ela, a cantora de blues e rock mais adorada mundo afora, e o bluseiro primordial, o homem que é referência para todo o rock como o conhecemos, mas faz sentido uni-los a Jimi Hendrix, aquele que carregou esse legado musical sem deixar de adicionar sua própria originalidade a ele.

Sabe outra coisa que os une além do blues? Os três morreram aos 27, tempo suficiente para se tornarem lendas, referências para as gerações futuras, e aproveitando o gancho do que está ocorrendo no mundo nesse exato momento, não poderia deixar de cutucar a produção do anime. Por que Janis (e Janis Joplin nem negra era, será que foi para “compensar”?) e Robert são negros e o Jimi não? Um herói negro não “vende” o anime?

Você pode achar que eu estou forçando a barra, mas não estou, sério. No fundo, e infelizmente nem tão no fundo assim, as pessoas estão tão acomodadas com padrões de cor de pele e estética na mídia mainstream que sequer se tocam quando personagens negros são usados apenas como figuras secundárias quando poderiam muito bem ocupar lugar de destaque, seja porque há referências que respaldariam, seja porque faz sentido.

E por que faz sentido? Porque o rock é intimamente ligado ao blues, gênero musical de raiz negra, além de ser porta voz para todo tipo de movimento social e local de fala para os marginalizados. Sendo assim, consigo muito bem vislumbrar um herói negro e de origem humilde relacionado ao rock, não seria “lacração” (odeio tal termo pejorativo), ainda mais quando quem é homenageado tinha raízes profundas no blues e era negro.

Nada contra a Janis Stonefree ser negra, tudo contra ela e o Robert serem uns dos poucos personagens negros do anime (além deles só tem o Prince e uma das parceiras dele, né?). Enfim, já escrevi demais e ainda nem comentei o que achei do episódio, ainda questionável em diversos pontos, mas bem razoável na maneira como as coisas se desenrolaram, seja para o Echo, seja para a Mu. Quero dizer, Listeners, a Rainha dos Earless.

Gosto da ideia dela meio que se tornar a vilã e consigo engolir que isso justifique sua estranheza, para não chamar de falta de sentido, no episódio passado, mas por que isso me faz pensar que falta alguma coisa? É como se não houvesse “miolo” no anime. A ideia de que humanos e Earless precisam se entender, que a coexistência deve ser buscada, vem sendo trabalhada nos últimos episódios, mas isso não ficou de lado boa parte do anime?

Esse é o problema de tentar construir uma trama original em cima de um amontoado de referências, acaba que só em um episódio ou outro conseguiu explorar bem essa ideia de conflito de classes (principalmente o do rock progressivo), mas em nenhum momento me pareceu um tema tão relevante quando a identidade da Mu ou o amadurecimento do Echo, apesar de que agora os três estão emaranhados.

Olhando por esse prisma, faz sentido que essa urgência social seja englobada nos planos, só espero que não tome o palco do show, porque a Mu descobrir quem é de verdade (se sequer ainda existir alguma Mu ali) e o Echo descobrir quem quer ser (certamente algo além de um catador de lixo conformado) ainda me parecem problemas mais palpáveis de resolução em dois episódios que um conflito social que perdura há anos.

Aliás, parte disso se deve ao tempo que o Echo passou em Clarksdale e a convivência que teve com a Janis e o Robert. Não que passar dias ali (imagino que o tempo tenha sido distorcido naquele lugar) deixando a Mu de lado tenha sido uma atitude assim tão coerente da parte dele (ele não pensou, sei lá, que ela poderia morrer?), mas simplificar seus anseios e “recarregar” suas forças com certeza não foi uma ideia ruim.

Se ao nascer ou ao morrer nós vamos chorar de todo jeito, por que não viver uma vida satisfatória nesse meio tempo? Buscar isso é o preço que pagamos pela vida que temos, alguns podem considerar essa imposição algo injusto (não à toa acabam com suas próprias vidas), outros podem tê-la como uma benção. Qualquer que seja o caso, a pessoa só consegue saber vivendo sem se arrepender ou se manter preso as suas memórias.

Se o Echo desistisse da ideia de voltar a civilização para encontrar seu propósito provavelmente seria engolido por aquele mundo de faz de conta e se tornaria uma memória, mas como ele decidiu, acabou virando; ou vai virar, não entendi direito; um Player, ganhando assim o poder necessário para parar a Mu e, imagino eu, salvá-la. Não salvá-la de ser uma Earless, mas de estragar qualquer possibilidade de diálogo entre as raças.

Ela baixou o capiroto legal e isso com certeza dificulta tudo, mas ao mesmo tempo se trata de um anime profundamente ligado ao rock em um episódio que homenageia uma figura que contam ter ido até uma encruzilhada e lá vendido sua alma ao diabo, então entendo ela assumir de vez essa figura diabólica justamente nesse ponto da trama, assim como o apelo visual e narrativo da encruzilhada, um ponto de virada para o protagonista.

No fim, ao menos a ideia de fazer os dois se digladiarem não é ruim, nem medíocre, mas não é como se só isso salvasse uma história desencontrada entre referências. Adorei a homenagem ao blues e a Mu endiabrada ficou realmente fofa, mas só isso não basta. Aliás, diria até que nada mais vai bastar, porque Listeners já passou e muito de sua encruzilhada e só o que nos resta é seguir por essa estrada a fim de chegar a algum lugar.

Vamos as referências, acho que Robert Johnson, Janis Joplin e Jimi Hendrix dispensam maiores comentários, né? Clarksdale é o “berço” do delta blues tocado e cantado por Robert e que influenciou a formação do rock, King of the Delta Blues Singers é um álbum do Robert Johnson que teve dois volumes e compila as poucas músicas gravadas por ele ao longo de sua curta vida. A capa do vinil é o volume 1 e a contracapa o volume 2.

Já o disco em que aparece a Janis Joplin é o I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama!, primeiro e único disco solo da cantora. Cross Road Blues é uma canção tradicional que tem versão de Robert Johnson e Second Coming é o segundo álbum do Stone Roses, banda britânica que despontou no fim dos anos 80, mas se separou não muito após o lançamento do segundo disco, se reuniu há uns anos e debandou de novo.

I Am The Ressurecton, inclusive, é uma música do primeiro lançamento deles, o álbum auto-intitulado que foi sucesso de público e de crítica. Second Coming já foi bastante injustiçado pelo público e pela mídia, pois não fez o mesmo sucesso e se duvidar é um álbum melhor, o problema foi ter sido lançado em 95, justamente quando as bandas de britpop dominavam a Inglaterra.

A título de curiosidade, o filme de 86, A Encruzilhada (Crossroads), homenageia a vida e obra de Robert Johnson e conta com a participação do fantástico guitarrista Steve Vai, outra lenda. Outra homenagem interessante feita ao músico você encontra no mangá Me and the Devil Blues (título de música do bluseiro), escrito e ilustrado por Akira Hiramoto (o autor de Prison School), que se baseia na vida desse eterno personagem da música.

Encurtei a sessão de referências já que acabei falando sobre os músicos ao longo do texto mesmo e confesso conhecer pouco da carreira da Janis Joplin e do Robert Johnson, no máximo posso falar de suas músicas, mas nem preciso fazer isso, né, é só clicar nos links para se deliciar com a música e passar o tempo até o penúltimo episódio do anime. Não deve ter banda de metal mesmo, se fechar com Beatles já vou me dar por satisfeito.

Até a próxima!

  1. Avatar

    Gostei do epi. Gostei da sua resenha creio que traduziu perfeitamente o que pelo menos eu senti tb. A mu capirotada ficou fo… e o Echo vai virar homem agora. Só espero que no final ele consida reverter a situação dela e dos sem ouvido e acaba com um beijo pelo menos mew! Vamos aguardar!

  2. Kakeru17

    Não poderia concordar mais kkk e duvido que não tenha um final feliz clichê ao menos em parte, pois mesmo que a Mu vá embora, volte ao seu mundo ou algo assim, com certeza os problemas de momento serão resolvidos, se duvidar até a desavença entre as raças. Agradeço o comentário, peço que me siga até o final do anime e além!

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