Um país sem otakices, dois “Japões” em conflito, com repressão e explosões pra tudo quanto é lado. Nessa guerra interdimensional contra tudo o que é bom – viva os otakus – o que podemos esperar da estreia desse anime que não esconde a sua galhofa, mas que tenta dar um charme especial a essa loucura?

Gyakuten Sekai no Denchi Shoujo – ou Rumble Garandoll – é um anime original produzido pelo Lerche (Asobi Asobase, Kanata no Astra), cuja história trata de um Japão de outra realidade paralela, completamente militarizado e sério, que decide invadir o Japão que conhecemos e banir tudo que represente uma ameaça à sua noção de pais ideal.

Em resumo, tudo o que concerne a cultura otaku está sendo caçado minuciosamente, para que assim os invasores garantam a dominação total. No entanto o Japão “de cá” ainda conta com rebeldes que podem mudar o curso dessa história e com um apoio inesperado de mechas com garotas bateria.

Flávio: A estreia até que foi séria, mas a galhofa estava lá.

JG: Eu gostei dessa estreia porque ela carrega vários elementos que eu busco em uma farofa de qualidade, em especial a entrega quanto a sua proposta. Outro grande mérito da obra é a premissa envolvendo essa guerra contra tudo o que remete aos otakus, simplesmente me divirto com essa ideia e as insanidades que provém dela.

Flávio: A escolha pelo gênero mecha não foi por acaso. É um gênero de anime icônico e os japoneses têm bastante apreço, além de ser um dos símbolos da cultura otaku.

JG: Uma coisa que o anime precisará me explicar e rápido, é mais ou menos como se deu esse problema com o Japão invasor, ou como eles se denominam: o país real – enquanto o “real” é chamado de fantasia, vá entender.

Mesmo com toda a viagem que circula ali, o enredo ainda parece ter pequenas gotas de seriedade e acho que nisso poderiam trabalhar essas conexões, a questão interdimensional, porque só deixar isso jogado complica até o entendimento do que está acontecendo naquele cenário.

Eu mesmo pensei que no começo se tratava de um Japão dividido, uma guerra civil e não uma invasão, mas descoberto o erro pensei: “ok, mas de onde vieram então?”

Flávio: A origem da invasão acho que darão detalhes mais adiante.

JG: Nessa desordem instalada, sempre tem quem ainda persista com seus hobbies na encolha – sem muito sucesso -, ou quem opte pelo caminho inverso, e é aqui entra a “complexidade” do protagonista.

Por mais que a obra se venda de uma forma leve e cômica, o Hosomichi é um caso curioso do otaku que se defende renegando o que gosta. Ao meu ver ele nunca intencionou ser um “rebelde” até ser jogado no meio da fogueira e ter sua vida posta em risco.

Flávio: Sozinho não valia a pena lutar contra a correnteza.

JG: O que quero entender é se esse comportamento vem de antes, ou se é apenas para evitar problemas, porque pela forma como se porta, a impressão que fica é que ele passou a rejeitar suas “origens” a mais tempo.

O mais engraçado é que nesse sentido o personagem se torna até identificável, já que até nós temos os nossos momentos de disfarçar o que gostamos em algum momento da vida, como “defesa”. Felizmente com a roubada em que se meteu, acho que ele deve reencontrar seu caminho, assim como todos encontramos o nosso depois de “cagar para a opinião alheia”.

Flávio: Por mais galhofa que a premissa seja, a censura é um tema interessante de ser abordado.

JG: Na verdade tem temas bem interessantes que podem ser usados, pois além da censura, até essa questão sobre a influência das pessoas umas sobre as outras.

Em boa parte dos seus diálogos iniciais, o Hosomichi tem sempre uma ação de se posicionar da forma mais confortável para não se indispor, porém isso lhe incomoda, mesmo que tente ignorar. Essa superficialidade é muito bem traduzida no personagem que ele cria para ganhar dinheiro e sobreviver e como ele lida com seu problema de visão.

Flávio: Achei legal a cena embaçada que mostra o problema de visão dele. Foi uma boa sacada da direção.

JG: Penso que aquilo retrata bem o vazio interior do rapaz e como ele meio que se “fere”, apenas para satisfazer a expectativa alheia – o que inclusive fica subentendido na fala do seu colega.

Ele sempre ficou na mesma vidinha medíocre e falsa, atendendo apenas a necessidade, por mais divertido que ele estivesse se mostrando diante das clientes para ganhá-las na conversa. Agora que foi arrolado na confusão e virou um alvo do exército inimigo, impossível não se mexer, ainda mais com a equipe de “achegados” que arrumou no processo.

Flávio: O protagonista estava na hora errada e no lugar errado ou foi o contrário?

JG: Ele estava no lugar certo, na hora certa, afinal se assim não fosse, não teríamos o anime como ele é (risos).

A equipe dos vilões parece meio séria e exagerada nas suas punições – ao menos por enquanto -, mas o destaque vai para a Rin, a nossa garota bateria do título. Ela é simplesmente fofa no seu modo chibi virtual, e engraçada com os seus complexos de otaku, se animando e desanimando a cada gesto do novo parceiro.

Flávio: A bateria ser uma garota fofa é “otakice” em seu estado puro. A interação da “garota bateria” e o piloto foi muito boa. Ele resistindo em mostrar um lado que para o mesmo é constrangedor, enquanto a menina o incentivava a por para fora o otaku adormecido dentro dele.

JG: Eu confesso que fiquei até feliz que o exagero se conteve, porque outros animes que exploraram essa temática de garotas algumas coisa, onde precisavam ser energizadas de alguma forma, a coisa descambava pro lado errado, mas aqui a moça ganha fôlego com a demonstração de otakice em seu estado genuíno, o que vai gerar as risadas conforme o protagonista se renda ao seu eu.

Falando nele, é curioso que normalmente nesse tipo de premissa galhofa, o natural é que a figura central abrace isso para fazer funcionar, mas o Hosomichi parece muito sisudo em seu personagem, o contrário do seu novo aliado que apareceu mais ao final do episódio, o Balzac – que não só tem o exagero explícito no seu visual, como no seu agir.

Flávio: O Balzac é uma figura bem peculiar que combina perfeitamente com o clima de galhofa do anime. O nome da organização que ele lidera, a Arahabaki, é um anagrama de Akihabara, que é um local simbólico para a cultura otaku. Não é exagero dizer que Akihabara é a Meca dos otakus.

JG: Quero ver como vai ser essa relação entre todos, principalmente entre a Rin e o Hosomichi, já que ela se decepcionou com ele depois da primeira batalha, enquanto o mesmo também não parece que tem intenção de mudar sua figura tão cedo – mesmo que precisem lutar juntos.

Digo isso até porque essa junção entre os três tem uma dinâmica bem singular, onde o Balzac é o absurdo, Hosomichi personifica o sério e a Rin embora precise da otakice máxima, seria um meio termo entre os dois.

Flávio: Além desses três há outros personagens que podem gerar dinâmicas interessantes e únicas.

JG: O núcleo da vilania embora não tenha se empenhado em ser cômico, acredito que vai embarcar nessa onda conforme o próprio protagonista também mude e a batalha entre eles vá se estendendo.

No lado “do bem”, tenho dúvida se o cobrador do Hosomichi vai ficar, mas é outra figura bem divertida que jogaram no balaio. Me parece que ainda tem mais umas garotas pra adicionar aos heróis, então estou ansioso para ver como somam aos demais.

Flávio: Achei uma boa ideia o fato do protagonista continuar relutante a voltar a ser otaku. Isso, obviamente, gera um conflito. Aos poucos ele deve ir mudando de ideia graças aos novos companheiros.

JG: Bom, no geral eu acho que Gyakuten Sekai foi uma boa estreia, se valendo de uma ideia simples, mas legal e personagens divertidos a sua maneira. A animação também não fica devendo e complementa bem o “show” visual que entregam.

Para quem é fã desse tipo de premissa doida que envolve a salvação da cultura que tanto amamos, com toda certeza é um prato cheio.

Agradecemos a quem leu e até a próxima!

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