O ambiente opressivo e insalubre para o espião que fracassa

E lá vamos nós! Ou lá fomos, já que o anime acabou? Enfim, me refiro ao fato de eu estar sugerindo que “faria melhor”. Estou brincando, ok? Não tenho pretensão de ser um autor (até tenho as minhas ideias, mas não para esse tipo de história). Faço questão de escrever isso porque o pensamento comum parece ser o de que críticos na verdade são autores frustrados. Enquanto um ou outro realmente possa ser, uma coisa não tem nada a ver com a outra. As habilidades necessárias para criticar algo são distintas daquelas necessárias para criar. E ambas são distintas das habilidades necessárias para consumir (ler, assistir). Não que eu me ache grande coisa, o super crítico de desenhos japoneses, longe disso. Mas é o que eu, de forma humilde e apenas como hobby, tento fazer aqui.

Às vezes quando especulo ou quando eu brinco eu entro no território da criação. Até certo ponto isso é normal. E nesse artigo vou só brincar! Joker Game foi um anime episódico então sinto que tenho mais liberdade para fazer coisas assim. Um bom anime episódico, acrescento, embora o final tenha sido um pouco abaixo da média. Por ser abaixo da média e por ser episódico (restando muito pouco o que falar sobre o anime como um todo) vou tentar tornar esse artigo mais divertido imaginando um final alternativo. Me acompanhe, por favor!

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No instante do anime em que o sujeito do teatro disse que as flores presenteadas às atrizes eram doadas ao florista que “por acaso” o espião alemão havia visitado no mesmo dia eu soube que aquilo era a chave para o mistério (e era mesmo) e as engrenagens da minha cabeça começaram a girar. No anime, a atriz amiga da namorada (também atriz) do espião era ela própria (vejam só!) uma espiã, e descobriu que o espião estava começando a espionar para outro país (no caso, o Reino Unido), por isso o matou. Ela já havia preparado tudo, uma garrafa de vinho envenenado, um álibi para ela (que ao mesmo tempo serviu para tirar a amiga do apartamento), só faltava combinar com os russos. Ou melhor, com o alemão.

Ela ligou para ele e disse “ei, eu descobri que você é um agente triplo, então que tal você morrer bebendo vinho envenenado enquanto eu e a sua namorada ficamos ensaiando até mais tarde?”. Bom, não foi isso o que ela disse de verdade, mas ela ligou para ele avisando que voltariam mais tarde e sugerindo que ele bebesse vinho enquanto as esperava. Esse alemão que me desculpe, mas ele sabia que a mulher era uma espiã e mesmo assim não desconfiou de nada. Burrice tem limites! Parece que combinar com o alemão funciona melhor do que combinar com os russos.

Tragédia no palco e fora dele

Tragédia no palco e fora dele

Agora preste atenção no meu final alternativo e diga se não é muito mais legal. Em primeiro lugar, fique ciente que eu adoro tragédias, ok? E quanto mais trágicas melhor. A namorada do espião estava terrivelmente abalada pela morte dele e ela era a atriz secundária do espetáculo. Eu imaginava fácil que ela tivesse inveja da atriz principal, sua amiga. Não é um exagero, é? Quero dizer, ela até podia ser menos importante na peça, mas ainda assim a diferença de importância e de habilidade na atuação das duas não parecia tão diferente assim quanto a reação do público parecia sugerir.

Daí que eu imaginei que ela tivesse enviado flores envenenadas como “presente” para sua “amiga” de palco, que tragicamente acabaram nas mãos de seu namorado e o resultado foi aquele que foi. Consegue imaginar quão devastada ela ficaria nessa circunstância? Ela seria a assassina e seria capaz de chorar copiosamente no palco da forma como ela chorou e os espiões da Agência D duvidaram que fosse possível alguém fingir. Ela não estaria fingindo, afinal, não era essa a intenção dela.

Mas ai! Criador eu não sou, e embora tenha criticado a confiança cega do espião alemão no final original, o meu final tem lacunas muito mais sérias. Primeiro que envenenar usando flores é muito mais difícil: ela esperava que a mulher cheirasse as flores? Por que seria impossível que alguém cheirasse antes? Fora que ela certamente sabia que as flores eram doadas. Ainda assim ela achava que poderia dar certo? Um veneno feito para se cheirar não iria se dissipar e perder efeito rapidamente, antes de matar qualquer pessoa? E por fim mas não menos importante, o espião alemão era do tipo que dá uma boa fungada em buquês de flores?

O cadáver

O cadáver

Como pode ver, não nasci para isso. Pelo menos não para inventar histórias em poucos minutos. Não tenho pretensão de ser criador. Mas um desfecho trágico seria divertido, não seria? Enfim, a verdade é que esse caso não foi nem um pouco importante para o final do anime em si. Serviu de palco para um dos espiões da Agência D, de quando eles ainda estavam em treinamento – algo que concluo do fato de estarem todos juntos, vivos e no Japão. E ele desistiu de ser um espião porque não conseguiu evitar se envolver emocionalmente. Já vimos essa tema antes, no episódio do espião inglês no Japão.

A namorada do espião alemão era muito parecida com uma garota que o espião da Agência D conheceu em sua infância, que foi quem o criou de verdade. Um dia ela sumiu da vila, fugiu com um homem. E acabou morrendo. Ele ficou encantado pela atriz que despertou nele essas memórias da infância, as lembranças da única pessoa que havia se importado com ele na vida tão difícil e sofrida que ele havia tido. Os melhores anos da vida dele, aposto. Então o Yuki o lembrou que espiões não podem se deixar levar por sentimentos, porque isso vai sem dúvida atrapalhá-los em suas missões. E atrapalhou aquele inglês. E atrapalhou o protagonista desse episódio também, embora tenha sido algo bem menos crítico. Daí o Yuki falou lá uma bobagem sobre mulheres serem sempre e necessariamente mais emotivas e impulsivas, o que as tornaria más espiãs, ignorando toda a realidade e a literatura de ficção à respeito mas eu dou uma colher de chá porque consigo imaginar esse tipo de pensamento no Japão naquela época (ainda que o Yuki em si seja retratado frequentemente como alguém à frente de sua época). Espero que não seja o que pensa o autor, dado que ele é mais novo que meus pais e Joker Game é uma obra recente. Enfim.

De caso em caso, Joker Game encontrou seu desfecho. Não é tanto um desfecho no sentido de colocar um ponto final na história dos espiões da Agência D, ou sequer na história da Segunda Guerra, mas reforça um ponto que o anime tocou várias vezes: é difícil ser um espião. Não basta aprender técnicas, é preciso desenvolver um estado emocional próprio para isso, uma barreira entre si mesmo e o resto do mundo. Um espião não tem nome, não tem identidade, não tem família, não tem casa. É apenas uma máquina de colher informações sem ser percebido.

Espiões guardam semelhança com atores, quando esses estão no palco?

Espiões guardam semelhança com atores, quando esses estão no palco?

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  1. Este episódio para mim teria sido mediano se fosse uns episódios antes do final, agora como episódio final não foi grande coisa, se tivesse sido feito na forma que tu propuseste na matéria teria sido melhor. Joker Game, mesmo tendo sido um anime episódio, foi um dos que mais gostei da temporada que passou, a temática, a ambientação e os personagens gostei de tudo, do inicio ao fim, para mim o melhor personagem foi o Yuki, mesmo não sendo o personagem principal, ele teve mais presença que os personagens principais. No final a cara do Yuki para o espião que queria ir para a Manchúria atrás da mulher que se parecia com aquela pessoa que o criou, não teve preço, ele deve ter pensado que o espião ficou enfeitiçado com um rabo de saia, mas levou a situação na brincadeira.
    Como sempre uma excelente matéria, ansioso pelos reviews do final de Haifuri e do episódio de Kabaneri.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Foi um “episódio episódico” como todo o resto dos episódios de Joker Game, além dos dois arcos de dois episódios, né? No fim, nenhum episódio serviria como final, mas realmente poderiam ter escolhido um episódio mais interessante como final. O episódio 11 seria um final muito bom, com parte do passado do Yuki e a morte de um dos espiões, acredito.

      Enfim, um anime a menos, aumenta a pressão pra próxima temporada … já decidiu tudo o que vai assistir, hehe?

      Obrigado por ter acompanhado Joker Game comigo no Anime21!

      • Em principio vou ver quase todos os animes da temporada que vem (menos os animes curtos nenhum me chamou a atenção).
        Foi um gosto ter acompanhado as reviews semanais de Joker Game neste site, aprendi muitas coisas com as tuas matérias super completas. Temporada que vem já terás menos trabalho, já tens mais redactores, e cá estarei para comentar tudo.

      • Fábio
        Fábio "Mexicano" Godoy

        Essa temporada foi uma corrida muito grande para mim, principalmente agora nas últimas semanas. Temporada que vem não passo de 20 animes, hehe, ainda preciso escolhê-los.

  2. Eu no inicio da temporada, vejo todos os primeiros episódios, depois sigo apenas aqueles que me prendam a atenção (nesta temporada de Verão vai ser a continuação do Arslan senki e berserk).

      • Sim vi e fiquei triste, aquele anime merecia mais episódios, um anime muito bom, mas o Nanatsu no Taizai vai ocupar o horário de Arslan (não desmerecendo Nanatsu mas para mim Arslan é bem melhor).

      • Fábio
        Fábio "Mexicano" Godoy

        Ah não gosto de Nanatsu, eu desmereço ele sim, LOL. Ainda mais porque parece que vai ser só um spin-off…

  3. Arslan para mim ganha logo de caras, pelos seus personagens carismáticos, o protagonista é fraco e ingénuo, mas tem carisma e pensa em grande, os seus seguidores são personagens excelentes, já Nanatsu tem ecchi, personagens overpower, história mais ao menos. não senti apego a nenhum dos personagens.

  4. Antes tarde do que nunca, finalmenteterminei a série.

    No geral, achei que ‘Joker Game’ pecou por ser uma história “sobre ideias” mais do que “sobre pessoas”. Os episódios conseguiram passar aquele momento “gotcha” que nos mostra quão ardilosa é a carreira de espião. Porém, sem um investimento maior nas personagens, nada teve muito peso.

    Esse episódio escancara isso, pois essa mesmíssima temática de emoção vs razão já foi trabalhada muito melhor por outras histórias. Estou pensando particularmente no filme “Munique”, em que um espião da Mossad se deixa seduzir por uma agente rival, que o assassina. Depois, o restante de sua unidade também age “com emoção” e compromete a missão para vingá-lo.
    Essa corda bamba entre ser eficiente e ter de domar os próprios sentimentos dá a tensão para a trama do começo ao fim.

    Enfim, faltou alguma coisa. Talvez uma estrutura menos episódica. Talvez um foco mais pesado na figura do Yuuki. Talvez um tiquinho a mais de “show, don’t tell”. ‘Noir’ tem uma fração dos diálogos de ‘Joker Game’, mas é tão expressivo com a música e tomadas que parece comunicar muito mais. Muito embora a maior parte dos antagonistas seja descartada no final do episódio.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      É verdade. Joker Game foi muito impessoal, e por isso as histórias dos personagens secundários brilharam, enquanto as dos espiões não pareceram assim tão importantes. E eles morreram, se apaixonaram, adotaram crianças, foram torturados, mas meh, quem liga? Serviu muito bem para mostrar a função de um espião (segundo um ideal específico), mas não serviu para mostrar os seus próprios espiões.

  5. O desenvolvimento de Joker Game poderia ter sido bem melhor, mas até foi agradável. Os contos me agradaram, porém, pecaram em entregar pistas ao espectador. Era quase impossível deduzir junto aos personagens, pelo menos para mim.

    Apesar disto, a série entregou o que prometeu, que seria mostrar uma história sobre espiões. Aliás, o Yuki é muito legal, né?
    No mais, ótimo post, Fábio! Até!

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      É bem por aí. É mais uma história sobre os espiões e as pessoas com quem eles se envolvem do que uma história sobre espionagem. Por isso quase nunca há pistas para que nós, espectadores, acompanhemos. Não é um mistério, é só suspense ou drama. Não era o que eu esperava também, admito.

      Obrigado pela visita e pelo comentário =)

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      A obra original, se não me engano, tem muito mais história pra contar. Com o formato episódico é possível fazer novas temporadas a qualquer momento. Mas sinceramente não acredito que teremos uma.

      Obrigado pela visita e pelo comentário! =)

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