Às vezes eu acerto nas previsões ou diagnósticos que faço sobre os animes que assisto. Porém na maioria das vezes eu erro, e em alguns casos eu erro por margem tão grande que se o erro fosse o nível do chão e o acerto o topo de um edifício e eu empilhasse pessoas para igualar essa altura, seria preciso chamar muitas ambulâncias para todas as pessoas feridas tentando fazer uma pirâmide humana estúpida. E eu seria preso por tê-las empilhado em primeiro lugar. Mas wow, eu acertei tanto no caso desse episódio que sequer estava preparado para ver tudo o que eu próprio já tinha previsto que aconteceria ou poderia acontecer!

No artigo sobre o segundo episódio, falando sobre o Goriki, eu escrevi: “A defesa da moral, ainda que ele não saiba nada sobre aquilo que combate, é seu imperativo categórico kantiano”. Imperativo categórico é um princípio moral que deve ser obedecido não importa o quê. Alguém por exemplo poderia considerar que “não mentir” é um imperativo categórico, e assim estaria obrigado a sempre dizer a verdade mesmo que isso possa causar um mal. Benjamin Constant (não o militar brasileiro, mas o filósofo francês) propôs a seguinte situação para Kant, que considerava “não mentir” um imperativo categórico: se um assassino pergunta a alguém a localização de sua próxima vítima e essa pessoa sabe onde a vítima está e por alguma razão qualquer não pode escolher simplesmente calar-se, está obrigada a dizer a verdade, sabendo que isso certamente provocará a morte de outra pessoa? A resposta de Kant é “sim”. Assim são imperativos categóricos. Pois bem, as leis de defesa da moral são tratadas por algumas pessoas nesse mundo como imperativos categóricos. Não apenas o Goriki, mas notavelmente também a presidente do conselho estudantil Anna. Ela ainda vai mais longe, por culpa de sua ignorância sobre o que é o amor (ignorância que eu também apontei nesse artigo sobre o segundo episódio e que também é compartilhada por muitas pessoas em Shimoneta), e vincula as duas coisas (moral e amor) como se fossem inseparáveis. Por conta de sua abordagem absoluta sobre a defesa da moral (e a prática do que ela acredita ser “amor”) ela não apenas se permite, como acredita ser dever dela realizar diversas ações truculentas na escola em nome da defesa da moral. E não tem nenhum problema em atacar, amarrar, e essencialmente estuprar Tanukichi (só não fez mais por conta de sua ignorância). Tudo justificado em nome do “amor”. Ela é perigosa, e isso eu também previ.

Dominado, amarrado, vendado, violado. Qualquer pessoa normal no lugar de Tanukichi sairia traumatizada

Dominado, amarrado, vendado, violado. Qualquer pessoa normal no lugar de Tanukichi sairia traumatizada

No artigo sobre o terceiro episódio eu escrevi: “E todos aqueles marmanjos perigosos que foram pegos na armadilha no fim do episódio também não sabem o que é isso, e mais importante, não sabem como se comportar, por isso são tão perigosos”. Eu me referia à multidão de perseguidores da Anna, mas também pode se aplicar a vários personagens no anime – como, adivinhe só, a própria Anna. Também falei nesse artigo sobre como a Anna é uma farsa (porque ignorante). E nesse quarto episódio, como já disse no parágrafo anterior, Anna abandona completamente sua máscara (e suas roupas) quando ataca Tanukichi. Ela é perigosa porque é ignorante, porque acredita que o que está fazendo é certo, e adicionalmente porque é extremamente forte. Ela é incentivada e provavelmente treinada para fazer a defesa que faz da moral, mas como não sabe exatamente o que está defendendo ela se tornou uma pessoa muito perigosa.

Mais ainda, no mesmo artigo sobre o terceiro episódio eu falei sobre como em uma sociedade que se nega a ensinar até o mais básico os jovens não têm a menor ideia do que seja o amor e sobre como mesmo assim eles continuam possuindo seus instintos. De novo, para não variar, a Anna demonstrou tudo isso bem até demais. Ela confunde amor com moral e não sabe como tratar a pessoa a quem supostamente ama (não acho que ame, aliás). Mesmo sem saber, contudo, ela estava bem perto de consumar ato sexual com Tanukichi, não tendo chegado à tanto apenas porque a Kajou entrou no quarto antes. A única coisa que achei estranha nesse momento foi ela tratar a vergonha de estar nua e em posição sexual na frente de sua amiga nesse momento como algo instintivo. Não é.

Kajou, a terrorista anti-moral, é a única garota genuinamente constrangida nesse quarto

Kajou, a terrorista anti-moral, é a única garota genuinamente constrangida nesse quarto

Essa é outra coisa que eu já tratei antes: o amor é, em grande parte, uma construção social. Por isso mesmo com ele praticamente aniquilado (exceto pela própria palavra “amor”) a Anna e tantos outros são capazes de se dizer “apaixonados” e agir de formas completamente estranhas, inesperadas, quase aleatórias, acertando apenas na parte puramente instintiva. E a vergonha não é instintiva. A Saotome, que já havia sido “iniciada” na perversão a essa altura, demonstra isso muito bem: ela viu tudo e não ficou nem um pouco envergonhada. A Kajou por outro lado, mesmo tendo uma boca mais suja que fossa séptica, ficou genuinamente envergonhada (ao modo anime) quando viu o Tanukichi nu. É porque ela sabe, ela aprendeu que essa é a reação esperada nesse tipo de situação.

Eu não acho que todos os meus acertos nesse episódio compensem os erros que cometi, por exemplo, em Death Parade. E foram muitos, hehe. Mas a sensação de satisfação é agradável, principalmente acompanhada de um episódio tão divertido quanto esse quarto episódio de Shimoneta. Mas eu sei o tamanho do meu feito (menor que a menor coisa que você conseguir imaginar) porque esse anime é bastante simplista e hiperbólico para destacar de forma inequívoca os elementos que pretende trabalhar e indicar como irá trabalhá-los. Ou falando de forma mais fácil (nem eu entendi direito o que tentei dizer agora, sério): é uma sátira. Uma boa sátira.

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