Creio que esse seja o primeiro caso do anime em que a missão em si ficou completamente em segundo plano, e apesar de alguma preocupação legítima das garotas e da tensão construída no começo do episódio, nunca apresentou, de fato, nenhum risco. E não faltaram oportunidades para tudo rolar escada abaixo! É só que não era o objetivo desse episódio mesmo.

“Eu sou a Vingança. Eu sou a Noite. Eu sou … Batman Chise!”

Uma garotinha pobre tentando sobreviver um dia de cada vez como batedora de carteiras fez a Ange se lembrar de suas próprias memórias de infância. Ou melhor, se lembrar das memórias de infância da Ange de verdade. Ou algo assim. Está dando para entender? Bom, desde a revelação no segundo episódio de que a princesa e a Ange são na verdade a Ange e a princesa (se entende o que estou dizendo) já era sabido que a história iria ficar confusa de explicar em algum momento. O que é fascinante é que embora seja difícil colocar em palavras que sejam facilmente compreendidas, o anime em si é bastante fácil de entender, jamais deixando espaço para que confundamos quem é quem.

A garotinha pobre que lembrou Ange de sua infância e de sua promessa com a amiga-gêmea

Nesse artigo, quando escrevo sobre o passado, chamarei as garotas pelos seus nomes reais: a Ange é a Ange mesmo, a batedora de carteiras, e a Charlotte é a Princesa Charlotte, a criança entediada com a vida da família real que se encantou ao descobrir uma outra menininha que era a sua cara. Elas trocavam de lugar às vezes para se divertir, como crianças que eram, mas na última vez que fizeram isso a Charlotte saiu vestida de Ange pela cidade e a revolução aconteceu. Elas trocaram de lugar permanentemente. Para as garotas adolescentes, continuarei chamando-as pelos nomes que elas são conhecidas pelas demais garotas, para manter-me consistente com os demais artigos. Ou seja, vai ficar uma confusão!

Ange e Charlotte, Charlotte e Ange, passaram dez anos separadas. Uma era o raio de luz na vida da outra – e nenhuma delas percebia isso, crianças que ainda eram. A princesa era limitada por seus deveres e tradições, enquanto a batedora de carteiras era limitada por sua condição social. O anime dá a entender que a revolução foi uma rebelião das massas oprimidas contra a própria realeza, o que significaria que as agruras da jovem Ange eram, de alguma forma, “culpa” da jovem Charlotte. Culpa dinasticamente herdada. Como crianças e inocentes que eram, nem uma tinha consciência do que acontecia fora dos muros do castelo nem a outra culpava aqueles dentro do castelo pela sua desgraça.

A cruel realidade que a princesa não enxergava de dentro dos muros do palácio

Dez anos depois, o que mudou? Muita coisa poderia ter mudado. Tenho certeza que Ange (perceba que agora troquei os nomes) estava muito nervosa antes de se reencontrar com a princesa, temerosa de que talvez pudesse não ser bem recebida. A princesa não sabia que aquele reencontro estava prestes a acontecer, mas provavelmente pensava em Ange todos os dias, se preocupando com o que poderia ter acontecido com ela – e pensando se ela a perdoaria por “roubar” o seu conforto palaciano. Em sua conversa no salão de baile, Ange e Charlotte trocaram as mesmas palavras de quando eram crianças:

Ange: Vamos ser amigas!
Charlotte: Não sei se você vai gostar de ser minha amiga, sou uma pessoa entediante…

Charlotte promete a Ange se tornar rainha e derrubar todos os muros – promessa que a outra, se passando pela primeira, repetiria anos mais tarde em seu reencontro

Me pergunto se desde ali a princesa, tendo notado a incrível semelhança dela com a garota que lhe pediu para ser amiga, já imaginava que pudesse ser, de fato, sua amiga de infância há tanto tempo perdida. Em todo caso, não faria mal nenhum repetir aquele diálogo, não é? Se fosse uma desconhecida qualquer, tanto faz. Se fosse a sua Ange, ela se lembraria, e saberia que ela também se lembra. Em qualquer hipótese, é divertido de se assistir.

Ange se tornou a falsa Charlotte sem querer e teve que viver com o terror de ser descoberta um dia – comparado a isso, ser uma espiã agora não é nada

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