Bom dia!

Em primeiro lugar, me desculpe pelo atraso desse artigo. Ele deveria ter saído anteontem, mas estou em semana de provas na faculdade então ando com o tempo corrido e já estou estragando meus horários de sono de novo. Não se pode ter tudo na vida, não é?

Um fim de mundo novo a cada dia. O jeito é eu aprender a me conformar com o desespero.

Quando terminei de assistir esse episódio, depois de terminar de sentir seu gosto em minha língua cerebral metafórica, a primeira coisa que me veio a mente foi como ele é parecido com o terceiro. Aliás, parecido não é suficiente ainda: é igual mesmo. Mas é igual sendo bastante diferente, e por isso só percebi no final. Tá bem confuso, eu sei!

Batatas comendo batatas

Acompanhe o meu raciocínio:

  • No terceiro episódio as garotas encontram o Kanazawa, e nesse elas encontram a Ishii
  • O Kanazawa tinha algo que o mantinha vivo (continuar desenhando mapas), e a Ishii também (construir um avião e voar até outra cidade)
  • As garotas ajudaram o Kanazawa a continuar andando para desenhar seus mapas, e a Ishii a terminar de construir seu avião para voar
  • Em troca, elas receberam um recurso escasso de que precisam para sobreviver: do Kanazawa, combustível; da Ishii, comida
  • No final do episódio, Kanazawa e Ishii sofreram duros revezes: ele perdeu todos os seus mapas, ela fracassou em seu voo e foi parar vários níveis abaixo – ou seja, sequer poderá retornar para a oficina e continuar de onde parou; os dois perderam tudo
  • E agora? Kanazawa não queria mais viver; Ishii não morreu na queda, mas o que fará da vida?
  • Nos dois casos a Yuuri respondeu: a vida é aquilo que você vive agora, hoje e a cada dia, não um projeto qualquer; em outras palavras: aceite sua sorte, qualquer que seja, e apenas continue seguindo em frente

Será que esqueci alguma coisa? Minha lógica tem algum erro? Enfim, claro que são episódios bastante diferentes. As diferenças narrativas que eles têm são tantas e tamanhas que, como descrevi acima, só me toquei de que eram iguais depois de já ter acabado. De tão diferentes, eu fui pego de surpresa pelo fracasso do voo da Ishii, e pude sentir toda a gama de sentimentos que o anime quis que eu sentisse. Além da forma de contar cada história ter sido diferente, tem algumas diferenças de conteúdo que valem a pena mencionar também. A mais óbvia é que o Kanazawa queria se matar e a Ishii não. Na verdade, a Ishii de cara entediada do episódio inteiro parecia feliz no final, mesmo tendo dado errado. É que ela chegou a mesma conclusão que a Yuuri, que nesse caso apenas narrou para nós o que estava acontecendo. No caso do Kanazawa ela precisou convencê-lo a continuar vivendo mesmo.

Libertação através do fracasso, felicidade através da derrota

Outra diferença marcante é que naquele episódio elas se perguntavam o que era viver, e nesse a Yuuri já concluiu que só o que resta é o “desespero”. É lógico que ela não está desesperada, muito pelo contrário. Também não está “conformada com o desespero”, no sentido denotativo da frase. É preciso ter em mente que a Yuuri é meio pancada da cabeça! O que ela parece defender, a resposta a que ela chegou sozinha no fim do mundo, é uma forma ainda não muito bem definida de niilismo. Não há nenhum significado ou propósito à priori no mundo ou para as nossas vidas. E isso é bom! Significa que podemos criar nossos próprios significados, encontrar nossos próprios propósitos.

O mundo é tão inconcebivelmente maior do que acreditávamos – e isso certamente vale para o nosso mundo real também; em qualquer caso, todos estamos à deriva, caindo de para-quedas

No fim do mundo literal em que Chito e Yuuri vivem, mesmo quem quisesse encontrar propósito ou significado fracassaria, porque como a civilização, tudo já se foi, restam apenas ruínas. Um projeto de uma vida inteira pode desmoronar em segundos e ninguém nunca vai ficar sabendo. E mesmo assim, elas continuam sua jornada pelo mundo, a primeira e única – a última. Diante do desespero, elas cantam. Diante da fome, do frio, da falta de abrigo, elas ousam viver. Diante da ruína, elas são felizes. Chito e Yuuri não olharam para o Abismo, elas nasceram nele. E cada vez que olham para ele, elas sorriem. Não em desafio ou de nervoso, mas como velhas amigas.

  1. A cena em que elas entram no templo o dialogo é a mais sofisticada aula de existencialismo que já ouvi (acredito que há muito tempo numa aula minha de um professor de filosofia citando acho eu Spinoza transmitia a mesma ideia) E muito bom!!!

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