Bom dia!

Isso é constrangedor. Digo, esse episódio. Esse episódio foi constrangedor. Não deveria ser possível transformar algo simples e direto, como ação, tendo os recursos materiais para uma produção de qualidade, em um produto final que causa dor e sofrimento a quem o consome. Kujira no Kora fez isso.

Esse episódio constituiu-se basicamente de duas partes: uma não deveria existir e a outra deveria ser muito melhor.

Eu acho que todo mundo sabe o que não deveria existir em Kujira no Kora, ou não? Você pode até discordar, e eu mesmo tenho as minhas reservas, mas pelo menos nas redes que eu frequento e nos canais que eu consumo parece quase consensual que o garoto de cabelo rosa, o Ryodari, não deveria existir. Os argumentos variam um pouco mas pode-se resumi-los a “não coloque um personagem super-emotivo psicótico insuportável no exército de um país que supostamente não permite que seus cidadãos desenvolvam emoções”. Não é difícil de entender onde querem chegar. Eu não sou tão drástico. Acho o personagem interessante, mas muito, muito, muito mal executado.

Nesse episódio, ele finalmente foi, se me permite o trocadilho, “executado”. E sua “execução” foi mal executada, se entende o que eu estou tentando dizer. Para completar o combo, digo que só posso esperar que ele tenha sido “bem executado”. Não queremos um Ryodari surpresa nos assombrando de novo, queremos? Enfim, agora vou falar a sério do problema do Ryodari nesse episódio. Desde o anterior já era esperado um embate entre ele e o Shuan, e embora o capitão também seja difícil de aturar como pessoa e como personagem, acho que ninguém torcia pelo rosinha. E o episódio teve um combate! Que não durou muito. E o Ryodari perdeu!

Todo mundo queria ver isso, mas não ao preço que esse episódio cobrou

Mas ele não podia apenas morrer em paz, não. Antes disso o anime revelou seu triste passado em um longo flashback, quase como se quisesse que o espectador sentisse pena dele. Espero que você não tenha sentido pena nenhuma! Ok, informação relevante: ele realmente tinha mais sentimentos que o normal porque quando em contato com o nous, ao invés de ter seus sentimentos sugados, ele teve sentimentos injetados nele! Como o Chakuro, Ryodari foi capaz de ver os corações das demais pessoas. Como o Chakuro, ele é alguém naturalmente mais sensível, como a Neri descreveu. Isso é interessante e se o anime fosse ter mais de 12 episódios provavelmente seria relevante também.

Mas não precisava ser tão longo assim. Não precisava ser um personagem tão insuportável assim. Não precisava querer, ainda que inadvertidamente, que a audiência simpatizasse com o maníaco homicida que ri na sua cara enquanto te faz sofrer porque isso o faz quase ter um orgasmo. Não precisava, além de tudo, levantar ainda mais questões enquanto tenta explicar um personagem que já era difícil justificar: por que o Império deixou alguém super-sentimental entrar no exército? Essa é a maior pergunta de todas, mas sabe? Eu não quero saber a resposta. Porque eu não me importo com ele, nunca me importei, e Kujira me perturba cada vez que me força a me importar com ele.

Tudo isso ao som da cantoria da Ema, que parece que ficou fazendo isso o tempo todo. Vou apenas dar de barato que o canto dela é de fato algo útil, sei lá, ela está mesmo se comunicando com o nous Skylos, ou está criando essa tempestade de areia, ou está chamando a ajuda do Capitão Planeta, eu não sei. Deve ser útil. Mas eu ficaria grato se Kujira dissesse para quê. E sim, isso eu quero saber de verdade.

Mas não vá me dizer que a “utilidade” é só criar aquelas mãozinhas espectrais, por favor! Que curiosamente todo mundo enxerga, se espanta um pouco, mas ninguém fica lá muito assustado. Tudo bem que estão no meio de uma guerra, mas … bem, justamente porque estão no meio de uma guerra, não é? Os soldados do Império foram doutrinados a acreditar que os filhos de Falaina são demônios. Esses, por sua vez, nem conheciam a guerra até poucos dias atrás. Por tudo o que eu sei, esses bracinhos poderiam ser armas! E talvez sejam: Ema? Dá pra contar qual é a real? É inacreditável, inverossímil mesmo, que ninguém tenha corrido desesperado em pânico, que nenhuma criança tenha desabado em choro. Ao invés, estão apenas comentando como os bracinhos fantasmagóricos são “quentinhos”. Ah vá!

Por que tá todo mundo tão ok com isso?

E não faltaram coisas inverossímeis nesse episódio, infelizmente. Não vou nem quero lembrar de tudo agora, mas as que mais me deixaram com vontade de chorar foram aquelas que aconteceram a bordo de Skylos, com o grupo de personagens principais. Algumas delas:

  • Lycos vê seus colegas morrerem ao entrar em uma armadilha enquanto ela se salva porque percebeu a tempo e não entrou. A reação dela? Entra correndo, sozinha. E ninguém deu um tiro nela. Já haviam sido instruídos a matá-la, não se esqueça.
  • Com a garota cercada e com o protagonista não muito competente nessas coisas de salvar donzelas em perigo, Ouni vem salvar o dia. Lembre-se: ela está literalmente cercada, no meio de inimigos por todos os lados prontos para atirar nela, e o chefe deles está no meio do círculo, conversando com ela. Eis que o Ouni se teleportou (tem outra explicação para o que aconteceu?) para trás do tal chefe. Como ele conseguiu fazer isso? Mas tudo bem, ele conseguiu, e daí? Por que ninguém atirou? Eu sei que ele mandou não atirarem, mas ele está cercado por todos os lados. Não tem como ele ver se alguém atrás dele atirar.
  • O chefe do chefe chega, e finalmente, alguém atirou no Ouni. Por alguma razão, atirou na perna. Por que não atirou pra matar? Ele mesmo não tinha dado ordem pra matar todo mundo, por que está fazendo graça agora que restaram poucos e já mataram tantos a sangue frio?
  • O chefe do chefe não é bobo e repete a ordem: é pra matar mesmo! Então alguém puxa ele pro canto e conta algo bombástico: eles vieram de Falaina. Não me diga! NÃO CARALHOS ME DIGA!! De onde mais poderiam ter vindo, do fundo do mar de areia? Da Cochinchina? Do meu bolso é que não foi! Isso seria estúpido por si só, se não fosse ainda mais estúpido: no episódio anterior eles já haviam dito que os invasores eram de Falaina. E se eles ainda não soubessem disso tudo, estava ali a Lycos, que eles sabiam muito bem que estava na Baleia de Lama.

Ouni, o Teleportador

Mas tá bom, esse último ponto em particular eu não descarto que possa ser um erro de tradução. Talvez não seja que “eles são de Falaina”, genérico, mas algo muito mais específico referente ao próprio Ouni. Talvez ele seja mais especial. Ele apareceu do nada, já crescido, lembra? Talvez “filhos da baleia” não seja só uma expressão poética. E que engraçado, os vilões estão a ponto de revelar o “grande segredo” da curta longevidade dos marcados da Baleia de Lama. Estou sendo sarcástico, isso não é engraçado. É irritante.

Kujira no Kora continua bem produzido, eu continuo gostando de muitos de seus elementos, acho que vários de seus episódios foram bons ou muito bons, mas na coesão geral da narrativa ele peca demais. E esse episódio em particular teve tantos problemas, e da mesma natureza inclusive, que os piores episódios de Ousama Game, o anime que eu peguei nessa temporada só porque gosto de chutar cachorro morto. Mas sabe de uma coisa? Eu pelo menos rio um pouco com as besteiras que Ousama Game faz em penca. Durante esse episódio eu apenas senti agonia, e ao final eu queria chorar.

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