Durante toda a década de 1970 a popularidade dos mecha animes se manteve alta não apenas no Japão como em diversos países. Astroganger fez sucesso em países árabes, Voltes V permanece cultuado até hoje nas Filipinas, Grendizer (outra história de Go Nagai envolvendo robôs gigantes) fez tanto sucesso na França (onde foi rebatizado de Goldorak) que foi objeto de matéria de capa da revista Paris Match e até o Brasil se rendeu aos robozões tamanho família com Groizer X (por aqui chamado de Pirata do Espaço). Porém, pouquíssimas pessoas poderiam prever o quanto uma série original que estreou nas TVs japonesas em 1979 levaria o gênero a patamares jamais vistos não apenas dentro do próprio gênero, como também na cultura pop nipônica e, posteriormente, mundial. Sejam muito bem-vindos ao quarto episódio de Entre no maldito robô.

Em 1960, Osamu Tezuka decidiu expandir suas atividades para além das histórias em quadrinhos e navegar nas águas até então pouco exploradas da animação. Nascia assim a Mushi Production, responsável, dentre outras coisas, pelas adaptações animadas de Astro Boy, Kimba, Ashita no Joe, dentre outras obras. Em 1972, com a empresa enfrentando graves problemas financeiros, um grupo de funcionários decidiu abandonar a Mushi para fundar um novo estúdio. Era o início da Sunrise. Uma das principais ideias dos seus fundadores era criar um ambiente onde várias pessoas pudessem contribuir com diferentes cenários na hora de produzir novas séries e filmes, ao contrário da sua antiga companhia onde tudo girava em torno dos projetos de Tezuka. Trabalhando em parceria com outros estúdios já estabelecidos, especialmente a Toei, a Sunrise logo se especializou em obras de ficção científica, especialmente mecha. São dessa época animes como Raideen, Combattler V, Voltes V, Daimos e Zambot 3, este último dirigido por um jovem animador chamado Yoshiyuki Tomino.

Nascido em 1941, Tomino iniciou sua carreira na indústria de animação trabalhando na Mushi Production em 1963 com Astro Boy. Por ironia do destino, seu primeiro trabalho como diretor na Sunrise foi na adaptação de um mangá de Osamu Tezuka chamado Umi no Toriton em 1973. Dois anos depois, dirigiria seu primeiro mecha com Raideen. Homem ousado e inquieto, de temperamento difícil, Tomino é conhecido por alternar momentos mais leves e alegres com outros mais melancólicos e desesperançosos em suas obras. Sua ambição nem sempre é bem traduzida para as telas de TV (algo fácil de entender para aqueles que assistiram séries como Brain Powerd e G no Reconguista), mas é reconhecidamente um criador que procura sempre ir além tentando não se repetir.

Após alguns anos dirigindo séries voltadas para um público jovem, onde “bem” e “mal” são bem distintos, Tomino decidiu criar algo que, dentro da sua visão, não havia sido ainda posto em prática. Inspirado tanto em Star Wars quanto na novela Starship Troopers (inspiração esta mais estética que narrativa), o diretor tentou por no papel uma história onde os mocinhos não são tão inocentes e os bandidos tem lá seus bons motivos para fazerem coisas reprováveis. Deixando de lado os robôs indestrutíveis e seus pilotos endeusados, Tomino criou uma obra que revolucionaria o gênero mecha de uma forma ainda mais radical que aquela provocada por Mazinger Z. Nascia assim, em 1979, Mobile Suit Gundam, ou simplesmente Gundam.

A história de Gundam apresenta o conflito entre a Terra, representada pelo jovem Amuro Ray e pelos membros da White Base, e o Principado de Zion, representado pelo carismático Char Aznable. No futuro, a humanidade cresceu de tal forma que foi preciso buscar formas de lidar com seu excedente. Após anos de pesquisa, foram construídas estações espaciais criadas para receber pessoas dispostas a colonizar o espaço. Em poucas décadas bilhões de pessoas deixaram o nosso planeta e passaram a residir nesses espaços. Porém, a relação pouco democrática entre o governo unificado da Terra e suas colônias começou a gerar cada vez mais atritos, culminando com a declaração de independência de uma dessas colônias, o que provocou um enorme conflito conhecido como Guerra de Um Ano. Sem restrições, os dois lados usaram armamentos altamente letais, levando bilhões de pessoas a morte. Um cessar fogo foi proposto, mas logo o conflito voltou a escalar quando Zion passou a produzir gigantescos robôs humanoides chamados de Zaku. Em resposta, o exército da Terra começou a desenvolver um protótipo de mecha para combater os Zaku. Assim, foi criado o RX-78-2 Gundam, assim batizado por conta da liga metálica (Gundanium) usada para sua construção. Após um ataque de Zion destruir seu lar, o jovem Amuro Ray acaba pilotando o robô gigante e se tornando a única esperança para as forças terrenas. Mas nada é tão preto e branco quanto parece ser.

Semana que vem falaremos mais sobre Amuro, Char e os outros personagens, como o design mecânico da série influenciou gerações, as técnicas de animação que a distinguiram dos mechas anteriores e como o cinema e os bonecos de plástico salvaram a franquia. Até a próxima!

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