Bom dia!

Nessa semana em Violet Evergarden eu… fiquei frustrado de verdade. Pela primeira vez fiquei frustrado com o anime que até meros dois episódios atrás eu considerava um dos melhores da temporada – logo atrás de Sora yori mo Tooi Basho e Darling in the FranXX. O episódio anterior me deixou um pouco insatisfeito, foi muito melodrama e flashback para pouca história e desenvolvimento, e então esse episódio. Esse episódio foi esse episódio…

Violet Evergarden seguiu uma fórmula absolutamente episódica até o sétimo episódio. No oitavo começou seu primeiro arco que se encerrou nesse episódio. Com mais tempo, dá para fazer melhor, não dá? Em teoria, sim. Na prática, vejamos. Pode-se argumentar que as soluções dos demais episódios foram um pouco forçadas, ou muito convenientes, ou qualquer coisa, mas elas foram, já considerando que isso é uma ficção para começo de conversa, verossímeis. Não, não se cura depressão como a do dramaturgo ou do ex-soldado com uma cartinha e algumas palavras de uma adolescente inocente. Mas ninguém esperava ver um consultório de psiquiatria no anime em primeiro lugar, então haveria de ser uma solução tipicamente fantasiosa. E assim foi.

Violet conversou com as pessoas, se intrometeu meio sem querer na vida delas, as fez enxergar as coisas de uma forma diferente através de palavras (às vezes em cartas, às vezes a palavra falada mesmo), e assim a protagonista guiou a catarse emocional de cada um personagens dos casos que atendeu até agora. Mas dessa vez quem precisava de ajuda era ela. E quem iria ajudá-la? A pessoa mais próxima que a Violet tem é o Hodgins, e ele não é muito eficiente ou esforçado. Para não dizer que tudo foi perdido nesse episódio, eu acho que pelo menos entendi o Hodgins: ele desde o começo se projetou na Violet. Por qual razão exatamente eu não sei, talvez apenas por serem colegas de farda, talvez pela ligação que ambos tinham com o Gilbert, mas o fato é que Hodgins se sentia culpado e desde o longínquo primeiro episódio ele acreditava que a Violet deveria se sentir culpada também.

“Você sabe que ela nunca conseguirá esquecer”, diz Hodgins para Cattleya. Está falando de si mesmo.

Por quê? Bom, sem dúvida ela matou muita gente, e não há nada que conserte isso. Mas todas as circunstâncias consideradas, não me parece que ela tenha tido muita escolha. Crianças soldado raramente têm escolha. Sentir culpa mesmo quando não se tem escolha, porém, é um sinal de bondade, e nossa protagonista sem dúvida é bondosa. As palavras do Hodgins e do Dietfried ficaram fermentando em sua cabeça até que ela testemunhou a dor de uma pessoa que perdeu um ente querido. Aí tudo fez sentido, a culpa caiu como um raio sobre a Violet e ela ficou profundamente abalada. Ainda sob efeito da tristeza da realização de seu papel como destruidora de vidas na guerra ela descobriu que o Gilbert estava morto. Como poderia alguém tão jovem lidar com isso?

A Violet sem dúvida não pôde. Em sua cabeça, de alguma forma distorcida que só a depressão e a culpa explicam, ela certamente passou a acreditar que o Gilbert ter morrido foi o preço que ela teve que pagar pelos seus pecados. O Hodgins certamente sentia uma culpa semelhante, e precisava da Violet para se apoiar. “Você está bem, não está?”, Hodgins perguntou para a Violet quando ela claramente não estava bem. “Você pode continuar vivendo agora”, disse Hodgins em seguida para uma Violet que mais tarde no episódio tentaria se suicidar. As perguntas que ele fez para a Violet eram retóricas. Ele queria que tudo estivesse bem para ele. Ele queria sentir que ele poderia continuar vivendo. E queria ouvir isso da boca da Violet.

Hodgins chora quando Violet supera a fase mais dramática da dor como se ele próprio tivesse superado algo – e na verdade é isso mesmo

Nesse sentido, esse episódio quase foi do Hodgins. No final, quando a Violet se recupera, ele chora. A catarse dele é tão grande quanto a dela. Se a Violet pode se perdoar e continuar vivendo, Hodgins também pode. Mas ele precisava que ela passasse por tudo isso, que ela sentisse tudo o que ela estava sentindo, por isso no primeiro episódio ele a provocou: “Você está em chamas e ainda vai perceber isso”. Por isso ele não fez nada por ela e disse para Cattleya que a Violet deveria ser capaz de escolher seu próprio destino agora – enquanto ela seriamente tentava se enforcar em seu quarto.

Mas esse não foi um episódio do Hodgins, né? Foi da Violet. Como eu disse, em todos os outros casos ela ajudou alguém com suas palavras. Dessa vez ninguém a ajudou e ela foi abandonada em silêncio. As pessoas que se esforçaram mais para alcançá-la foram Iris e Erica, que escreveram uma carta para a garota, mas por todos os meios o anime dá a entender que não seria suficiente. Uma sequência de eventos fortuitos começou da forma mais aleatória possível: sabe-se lá por qual razão, Benedict vestiu as botas da Cattleya e torceu o tornozelo. Por isso, o outro carteiro (o que parece o Papai Noel) ficou sozinho para entregar todas as cartas. E eram muitas cartas para ser entregues em um período curto de tempo porque um misterioso novo carteiro simplesmente jogou suas cartas por aí e não entregou.

“Nos chame a qualquer hora se precisar de qualquer coisa”, Erica e Iris foram as únicas que realmente se esforçaram para alcançar Violet

Como o Papai Noel foi entregar a carta para a Violet e ela viu que ele estava sobrecarregado, acabou decidindo ajudá-lo. Sair de casa, andar um pouco, fazer exercício, pensar em outras coisas, tudo isso ajuda a desanuviar a mente. Com mais algumas palavras bonitas do carteiro e Violet foi ler a carta de Iris e Erica com a mente aberta, com a cabeça já em um lugar totalmente diferente daquela Violet que havia tentado se matar. E tudo isso começou porque coincidentemente um carteiro desconhecido jogou fora as cartas no mesmo dia em que por razões ainda mais desconhecidas Benedict vestiu as botas de Cattleya e torceu o tornozelo!

O da esquerda é o Benedict. Por que ele usa as mesmas botas da Cattleya?

Violet saiu de casa, foi realizar mais um trabalho – para Spencer, o irmão de Luculia. Ela podia não ter mudado muito o que pensa sobre si, mas parecia já acreditar pelo menos que as cartas que escrevia eram importantes. Um serviço para Spencer, um ex-cliente (indireto) era o que ela precisava para começar a melhorar sua auto-estima. Na volta para os correios, mais coincidências: em um jornal ela viu como Charlotte (a princesa que atendeu) e Damian estavam felizes e fazendo o bem para outras pessoas; em uma propaganda na parede viu que Oscar (o dramaturgo) estava com sua peça em cartaz. Olha só quanto bem a Violet fez para o mundo! Talvez ela mereça viver, afinal?

Eu tenho certeza que a Violet merece viver. Mas a enorme quantidade de coincidências (desde que encontrou a Senhora Evergarden ao desembarcar do navio aleatoriamente e descobrir que Gilbert estava morto) que a guiaram faz parecer que sua jornada metafórica de morte e renascimento não foi, afinal, merecida. E há um problema maior: o que Violet Evergarden vai fazer com mais cinco episódios? Espero que ela não vá pacificar o novo foco de conflito que bloqueou a estrada pela qual tentaram passar escrevendo cartas.

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Acho que não faz o menor sentido depois de tudo o Gilbert estar vivo. Se a recuperação dela não pareceu merecida, isso faria com que todo o desenvolvimento dela ao longo do anime inteiro parecesse não merecido. Às vezes a tristeza é a melhor solução mesmo.

      Obrigado pela visita e pelo comentário =)

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