Bom dia!

Outro episódio carregado nas emoções, acima da média do próprio anime. E o segundo consecutivo cuidadosamente talhado para fazer chorar. Mas se o décimo episódio foi um dos melhores do anime, esse já não foi assim lá tão legal. Analisar os dois lado a lado pode ajudar a entender o porquê.

Primeiramente, de forma alguma foi um episódio ruim. Eu gostei, e pessoalmente gostei dele até mais do que gostei dos flashbacks do Gilbert. Mas duas coisas se destacam, e de forma negativa, nesse episódio: ele foi melodramático demais e terminou com cara de ser um ponto de inflexão para uma mudança de rumo na história que, caso se concretize, temo que vá me desagradar. Mas ok, “me agradar” não é categoria objetiva de análise, tampouco faz sentido avaliar pelas especulações que fui levado a fazer por esse episódio, e por isso não posso dizer que foi “ruim” por causa disso. Vou explicar o que estou querendo dizer sim, mas depois. Primeiro, o melodrama. E como eu disse na introdução, nada melhor para entender porque nesse episódio o melodrama foi negativo do que compará-lo ao anterior, também melodramático.

A amiga de infância – nunca dá certo entre amigos de infância

A Anne é uma criança, enquanto o Aidan é um jovem adulto, ou talvez apenas um adolescente mais crescido ainda. Colocado dessa forma, seria de se esperar que uma história de sofrimento de uma garotinha seja mais melodramática que a de um jovem adulto, mas destaco essa diferença aqui por outros motivos: obviamente sentimos mais empatia por crianças (na média). De largada, o episódio anterior leva vantagem, ao mesmo tempo em que era mais fácil ter estragado tudo. Mas já assistimos aquele episódio, e ele não estragou nada, certo? Ficou só com a vantagem mesmo.

Em sua tragédia pessoal, embora seja apenas uma criança, Anne é a protagonista. Ela até mesmo narra porções do episódio. Sabemos pouco sobre a Violet, e foi até surpreendente vê-la chorando no final, mais ainda ouvi-la dizer que segurou o choro o tempo todo. Não tínhamos como saber pois não foi do ponto de vista dela que assistimos o episódio. Com o Aidan é o contrário. O pouco que sabemos dele é via flashbacks e no final, quando ele conta sua história, já moribundo na cabana. A protagonista é a Violet. Ela decidiu agir por conta própria, contra inclusive a vontade do Hodgins. Nos dois episódios assistimos a evolução da personagem, mas de formas diferentes – e justificadamente diferentes. Ela pode ser apenas uma personagem “secundária” para assistirmos seu crescimento emocional, mas para vermos o quanto ela se tornou determinada e capaz de tomar decisões complexas por conta própria foi importante que ela tenha sido a protagonista inconteste nesse episódio.

Só que isso veio a um custo: a tragédia do Aidan foi apenas instrumental para o desenvolvimento da Violet, e isso o episódio não consegue disfarçar em momento algum. É claro que no grande esquema das coisas todas as histórias de todos os personagens (até mesmo do Gilbert!) serviram apenas como instrumento de desenvolvimento da protagonista – ela é a protagonista, afinal. Mas alguns episódios foram mais competentes em fazer com que nos importemos com seus personagens incidentais do que outros – e esse episódio, apesar da história pungente que conta, foi um dos menos competentes.

Isso é para vocês aprenderem a não usar uniformes marrom-esverdeado na neve…

Assistir a Violet demonstrar sua potência física em ação não ajudou. Foi claramente um episódio para mostrar do que a Violet é capaz, como ela é uma pessoa legal, como agora além de continuar sendo incrivelmente habilidosa e forte ela também possui sentimentos. Só foi preciso matar o Aidan e traumatizar seus pais e sua amiga de infância e candidata a amante para tanto. De novo, algo parecido pode ser dito de todos os episódios e de todos os personagens, mas as escolhas narrativas de cada um contam histórias diferentes. A história do Aidan foi uma história terrivelmente triste, e mesmo assim meus olhos terminaram o episódio secos. No anterior? Eu já estava segurando o choro desde que vi a Anne entrar no quarto da mãe e encontrá-la de cama com abutres de testamento ao redor.

Em uma nota mais positiva, acho que esse episódio pelo menos se esforçou, ainda que não tenha conseguido, mostrar como fanáticos que não sabem viver sem conflitos espalham o mal para muito além de suas vítimas diretas. Ao matar Aidan sem nem pestanejar, eles destruíram uma família e um futuro. Aidan sequer precisaria ter ido para o front se pessoas como eles não existissem. Quantos jovens não morrem por decisões estúpidas de fanáticos vivendo em relativa segurança? Violet Evergarden poderia ter feito um trabalho melhor se revelasse mais sobre esse conflito, para que eu conhecesse os envolvidos e as suas motivações, mas em um nível bem básico ele conseguiu transmitir essa mensagem pelo menos.

Agora sobre as especulações. De cara, eu achei uma péssima ideia a Violet voltar para o meio de um campo de batalha de um país contra o qual ela lutou uma luta na qual ela foi super bem sucedida. A chance era não negligenciável de que ela fosse reconhecida, com resultados imprevisíveis mas possivelmente desastrosos. E ela de fato foi reconhecida! Mas não deu em nada – pelo menos por enquanto.

Violet tenta cuidar de Aidan

E é nesse “por enquanto” que o diabo mora. Uma constante em Violet Evergarden é que frases têm marcado as mudanças na vida da protagonista. “Eu te amo”, disse o Gilbert ao final da guerra. “Eu quero descobrir o que essas palavras significam”, disse a Violet quando decidiu tornar-se uma ghostwriter. “Nenhuma carta merece não ser entregue”, disse o vovozinho carteiro quando a Violet estava deprimida. Está notando o padrão? Cada uma dessas frases marcou um ponto de virada na vida da Violet.

Quanto a empatia da Violet não precisou se desenvolver para ela ser capaz disso?

Ao final desse episódio, compreensivelmente emocionada após tudo o que vivenciou, Violet sente-se de alguma forma culpada pela morte de Aidan, e é possível argumentar que se ela tivesse chegado mais cedo, ele teria sobrevivido. Ela é forte o suficiente para tanto. Ela não tem responsabilidade nenhuma porque não sabia o que se passava, nem aquela guerra é uma luta sua, não obstante ser compreensível que em um momento de grande comoção ela sinta-se culpada. E aí ela diz: “Eu não quero que mais ninguém morra!”.

Um calafrio desce a minha espinha enquanto tento imaginar o que isso pode significar. Pode não significar nada, e esse seria o melhor resultado – apenas tornaria esse episódio um pouco pior, afinal essa frase foi tão importante que se tornou até mesmo o título dele. Mas e se for outro ponto de virada para a Violet? Ela vai fazer o quê para evitar que as pessoas continuem morrendo? Escrever cartas para acabar com a guerra? Ou pior, participar da guerra? Não consigo imaginar Violet Evergarden entregando bons episódios nesse caso. O que quer que venha, porém, espero estar pensando demais, e adorarei ser positivamente surpreendido.

Mais uma família destruída pela guerra

  1. Este episódio para mim, estragou um pouco a qualidade, que o episódio anterior teve. Eu sei que o episódio anterior, teve uma criança e o foco esteve nela (e geralmente as pessoas, têm mais compaixão para com as crianças), mas não foi só o foco na criança, que tornou o episódio 10 emocionante e cativante ao mesmo tempo, foi a boa direcção e roteiro (coisa que este episódio falhou um pouco, com a figura do Aidan).
    Mas antes de falar do episódio em si, tenho que escrever um pouco sobre a minha especialidade histórica, as fardas dos militares presentes no episódio. Nunca, mas nunca, se deve usar uniformes com cor de camuflado da selva (verde, castanho, bege) na neve, usar esses uniformes na neve, é como estar a pedir para ser abatido. Na neve, devem ser usados camuflados brancos (estes deixam os soldados que os usam mais difíceis de detectar e melhor ainda, quando a luz do sol bate neles, a luz é é reflectida para a direcção oposta, dificultando a vida dos snipers inimigos). Outros uniformes que podem ser usados na neve, são os de cor cinzento claro (como os alemães na Segunda Guerra, usaram na invasão da Rússia).
    Passando ao episódio, houve algumas conveniências de roteiro, como a parte onde a Violet ouve a conversa entre o Hodgins e a Cattleya, estava na cara que a Violet iria fazer o serviço, mesmo que no meio de um conflito. Mas a conveniência mais descarada, foi aquela chegada triunfal (estilo Chuck Norris) da Violet, para salvar o soldado que estava a ser perseguido (que se foi a ver, com grande espanto, era o Aidan).
    Mas tolerando as conveniências, achei minimamente interessante a história do Aidan, ele foi apenas mais um desgraçado, arrastado para um conflito que não era o seu (em tantos milénios da história humana, quantos desgraçados, foram arrastados para lutas e guerras que não eram as suas, como o Aidan foi). Os inimigos do grupo do Aidan, mesmo que as suas atitudes parecessem meio exageradas, eu não senti raiva nem nada do género, quando eles começaram a abater os membros do pelotão do Aidan. A vida de soldado é essa mesma, é matar ou ser morto, uma pequena demonstração de pena, pode ser fatal.
    Eu senti pena do Aidan, ele mesmo sendo uma ferramenta para dar brilho à Violet, a forma como ele tentou salvar o amigo ferido e ao mesmo tempo a pensar na amiga de infância que gostava dele, foi bem triste. Eu não cheguei a perceber, o porquê de o Aidan ter se alistado no exército, os pais dele tinham uma roça, ele podia alegar que era agricultor, tinha uma mulher que gostava dele de forma declarada (como tu bem disseste, relações entre amigos de infância nunca dão certo), ele e a sua família podiam ter passado ao lado, daquele conflito. Por momentos, eu queria que o Aidan, tivesse aguentado a noite, para se poder despedir em vida dos país e da sua amada Maria, mas aquele tiro na coluna, deixou o corpo dele todo arrebentado (naquela cena, na cabana, quando ele tosse sangue, foi o sinal óbvio que ele estava com uma hemorragia interna, a morte era uma questão de tempo).
    Aproveitando que mencionei a Maria,a Kyoani está de parabéns, por a ter feito a Mary mais rechonchuda e robusta, o corpo da Maria, era tido como o corpo ideal para uma mulher dos finais do século XIX até meio do século XX (era costume dizer-se nessa época, que a mulher mais robusta, com ancas largas, era perfeita para ter filhos e para ditar os padrões de beleza).
    A parte da cabana foi bonita à sua maneira. Era bem óbvio que o Aidan, daquela noite não passava, mas a Violet continuou esperançosa. A parte da escrita da carta do Aidan para os pais foi bonita, afinal que filho não gostaria de se despedir dos pais antes de morrer.
    A parte final do episódio é o que me custou mais, o sofrimento dos país do Aidan e da Maria, sofrimento causado por conflitos fúteis, foi bem realista e o realismo custa. Ver a Violet a sofrer pela morte dele, e ainda se sentir responsável pela morte do Aidan, demonstra o quão ela evoluiu de um ser sem sentimentos, para um ser sensível às coisas que acontecem ao seu redor. A parte em que a mãe do Aidan agradece à Violet por ela ter trazido o seu filho para casa, foi talvez o pico emotivo do episódio.
    Como sempre, mais um excelente artigo Fábio.

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Se você achou que o episódio 11 piorou um pouco o anime, o que não terá achado do episódio 12 =D Naturalmente, concordo com você.

      Quem quer que tenha aconselhado o autor de Violet Evergarden com informações sobre como militares e guerras funcionam é um completo ignorante na área. Esse episódio já foi ruim o bastante, mas o 12 foi muitas vezes pior. Não vou me estender nesse comentário aqui porque o artigo do episódio 12 vai sair e ali vou comentar tudo isso.

      Ah, sim, o episódio 12 piorou em conveniência de roteiro também. Sério, a gente estava feliz com o episódio 11 e não sabia…

      A questão das dores dos homens tornados soldados é mais ou menos retomada no episódio 12 mas é tudo tão burro que não convence. Só parece burro mesmo.

      Ok, estou frustrado demais com o episódio 12 para comentar qualquer coisa sobre o episódio 11 a sério. Tudo ali ressurge de forma piorada, que raiva, por que fizeram isso? =D

      Obrigado pela visita e pelo comentário!

      • O episódio 12 de Violet, foi um soco no estômago para mim. Não me vou alongar muito aqui, mas nada nesse episódio se aproveita, teve momentos de conveniência exagerada, alguns movimentos clichés (o melhor exemplo é a postura dos soldados rebeldes) entre outros “pequenos defeitos e erros” que o episódio 12 teve.
        Realmente estávamos felizes com o episódio 11 e nem sabíamos. Estou plenamente convencido que o episódio 10, foi o pico da qualidade (em todos os termos) deste anime.
        Eu irei comentar o teu artigo do episódio 12 de Violet com certeza, episódios que me deixam decepcionados, deixam-me com vontade de escrever.

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